A morte não me mete medo

Por vezes, quando o portão está aberto, não tão tarde, melhor antes que a tarde se transforme em noite. Estando passando nas imediações do campo santo, chamar cemitério dessas duas palavras que soam melhor aos meus ouvidos. Por ali entro por alguns minutos.
Percorro naquele silêncio mudo os túmulos. Esgueiro-me por entre aquelas vielas estreitas. Olho as fotografias deixadas naquelas lápides frias ou quentes quando o sol esquenta. Se existem flores vivas sobre o tampo daqueles sepulcros jogo um cadinho de água na intenção de ressurgi-las entre os mortos que ali estão agora só restam ossadas que foram ensacadas em sacos pretos. Visito túmulos diversos , faço uma breve oração sobre aqueles velhos conhecidos e por que não amigos da Costa Pereira rua onde cresci e ali cheguei aos cinco anos vindo de Boa Esperança na esperança de viver nessa outra cidade alguns anos mais.
Paro minutos mais naquele jazigo onde meus pais estão, não os que conheci em vida e sim aqueles corpos que foram sepultados sobre a terra onde algum dia nos encontraremos em nossa caminhada finda aqui na terra pegando nossa última condução ao céu onde penso eles moram.
Morte, vida, são antagônicos?
Por ventura de uma desventura aparentados ou reles desconhecidos?
Nos meus muitos anos penso saber alguma coisa sobre vida.
Mas sobre morte só irei saber no dia que tiver de morrer.
E como seria o outro lado da vida?
Seria um lugar lindo, especial, magnífico, ideal para nosso repouso eterno?
Ou um lugar escuro, céu cinzento, quente como dizem ser o inferno, cheiinho de mulheres boazudas semi ou totalmente despidas exibindo pelancas caídas ou bundas macias ávidas por serem tocadas.
Uma incerteza me apoquenta e faz esquentar minha cabeça pensante: “existe de verdade uma vida depois dessa? Ou deixamos de viver, de sonhar, de nos preocuparmos com o porvir e o que há de vir e empreenderemos uma viagem sem volta que causa tristeza, nostalgia e saudade nos que aqui ficam orando por nós.
Nascemos, crescemos, deixamos a infância anos atrás. Despedimo-nos da mocidade em certa idade. Ainda na flor da idade muitos de nós se casam, no começo aquela relação que eram flores sem espinhos passa a ser uma rinha de galos que se esporeiam e bicam uns no outro.
Daí penso e volto a pensar. Ao invés de ter me casado deveria ter comprado uma bicicleta, já sem rodinhas?
Pra uns poucos o casamento é solução contra dissolução.
Pra mim foi, de certo ponto, uma solução no quesito de pagar contas, lidar com números, ter uma comida bem feitinha na horinha certa da fome me suplicar, por favor minha esposa, faz aquele macarrão ao alho e óleo, com muito bacon como gosto de comer até lamber os beiços.
Envelhecer é inevitável como a dor se torna suportável embora o sofrer seja opcional.
E morrer? Pra quê, lhes pergunto se tenho tanta sede de viver?
Meu amigo do peito, sujeito desajeitado e meio desajustado, sempre pilheriando de ótimo humor, de nome esquisito Desjejum Nenhum. Tido por Sem Fome por aqueles que o conhecem. Pasmem! Ele já tem mais de quase duzentos anos. Beira a beirada dos cento e tantos mais.
Foi ontem ou um dia antes que nos vimos.
Sem Fome (não se assustem era esse mesmo seu nome de batismo na pia batismal), estava mandando um pratão na janta fora o que comeu no almoço.
Ele me pareceu bem melhor que eu nos meus setenta e seis. Em pezinho, naniquinho, olhos verdes da mesma corzinha que nasceu de parto normal sem parteira numa sexta feira treze sem azar nenhum a dar sorte aos outros.
Ao Sem Fome perguntei curioso como curió cantador: “uai Sem Fome esfomeado. Me disseram que ocê tem quase duzentos anos. E tá vivo ainda? o que faz para se manter vivo com essa idade tão velha”?
Ele coçou o saco, pra mim deve estar cheio de carrapatinhos miudinhos como o meu. Deu uma risadinha sem graça e me disse assim: “ah! Acontece que me esqueci de morrer”.
Eu gostaria de me esquecer também e dizer amém aos que já morreram.
Como deixei intitulado acima a morte não me mete medo.
E continua a não me meter já que sou intrometido não metido.
Tenho medo sim, de viver e conviver com gente que não presta pra nada, de língua solta, aqueles sujeitos sem jeito, desajeitados, uns atoinhas da vida que acordam mais cedo pra ficar mais tempo à toa sem nada a fazer a não ser ofender a quem não merece ser ofendido.
Causa-me temor ter de viver preso a um leito de hospital. Olhando pro alto naquele olhar inexpressivo olhando pra cima e pra baixo sem sequer mover as mãos a dizer, por favor, desliguem os aparelhos que me mantém nessa vida vegetativa como uma árvore seca e morta que nem a fogueira presta mais.
Morro de medo de não mais poder subir um morrinho de nada sem ao menos me apoiar numa bengala manca e, ao chegar ao cume desmaiar de cansaço arfando suspirando de saudade dos verdes anos quando tinha força ainda de malhar horas e outras numa academia, correndo na esteira e lá de cima pensando besteiras ao ver as lindonas moçoilas sumariamente vestidas em roupas fitness quase nenhuma peça a cobrir-lhes a falta de decoro.
Atemoriza-me viver sem sonhar, sem poder abraçar amigos, até mesmo desconhecidos, dizer-lhes palavras de conforto sabendo que são necessárias, abrir-lhe os olhos aos perigos que se interponham entre eles e a felicidade que lhes permita viver com dignidade o pouco tempo que lhes resta.
A morte não me mete medo sim.
Pois, quando nos encontrarmos, eu e ela, nela reencontrar-me-ei com meus pais. Meus avós, aparentados amados, amores que tive com elas terei imenso prazer de enlaçá-las de novo. Dar-lhes um sonoro beijo estalado no rosto caindo à boca, resvalando no queixo e indo mais embaixo a fim de saciar meu desejo de ir as partes íntimas desfalecido no leito em orgasmos repetidos.
Não me atemoriza á chegada da morte.
Dar-me-ei muito bem com ela.
Desde que seja na hora certa, num ano vindouro, que seja tarde enquanto dure minha vontade imensa de viver…

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