Bem me lembro das minhas escrevinhanças andarilhas pelo Mundo das Sombras.
Esse foi o nome que dei ao meu livro, até certo ponto não tanto sombrio como imaginava, quando, em anos que já ficaram atrás, daqui me deslocava às terças feiras na parte da tarde. Não tinha o costume saudável de usar as pernas como veiculo; ia no meu chevetinho azul clarinho à zona sul de nossa cidade. Estacionava esse meu carrinho bem usado nas vizinhanças de um pseudo hotel que não cobra hospedagem de seus hóspedes de vidas desregradas onde na maior parte das vezes eles, os presos eram pra ali levados por terem cometido atos infracionais tidos pelos cidadãos normais, tomo como exemplos: assassinatos, violência contra iguais, estupros, atentado ao pudor, crimes bárbaros como chacinas deixando corpos mortos em áreas dantes desconhecidas e agora encontradas graças ao faro fino de cães policiais, tráfico se trata dos mais comuns entre os detentos, latrocínio crime hediondo sujeito a pena máxima e outros um sete uns da vida. Se aquilo pode ser chamado vida quem paga pena naquelas jaulas onde bestas são como feras, embora não sejam leões nem tigres de Bengala ou reles leopardos.
Aprendi, nas minhas múltiplas entrevistas entre os ali confinados, que quem fica naquele amontoado de seres que já foram humanos têm três ps nos seus pré nomes: “p de preto, outro p de pobre e o terceiro p de prostituta.
Aprendi também, naqueles seis meses que passei colhendo as histórias de vida dantes e depois do crime, dentro das celas, cara deles na minha, sob risco meu de estar ali desprotegido de qualquer segurança a mim oferecida pelo cordial delegado. Que colarinhos engomados, branquinhos e engravatados, não ficam na cadeia por mais de uma noite. Do lado de fora os esperam ávidos como urubus em sobrevôo baixo a sua carniça apodrecida. Advogados chamados portas de cadeia, especialistas em habeas corpos que conseguem alvarás de soltura às custas de julgadores venais. E que o infeliz que cumpre pena não consegue jamais se reintegrar à sociedade que os tem como párias sociais, seres abjetos como ratos de esgoto ou pior ainda que um bicho morto como um cachorro estendido no passeio que nem eu nem você tem coragem de chutar.
Vamos deixar a parte lúgubre do meu Mundo das Sombras se livrar novamente das pulseiras de prata, como são conhecidas as algemas que enforcam os pulsos dos prisioneiros.
Tenho por mim que a melhor companhia em madrugadas sombrias, insones, como as minhas, não é a mulher que ressona ao meu lado. Nem ao menos os lençóis frescos e macios, menos ainda as cobertas que nos agasalham em noites frias. Nem para aquele sem teto que dorme como um anjinho sem asas debaixo de uma marquise ao relento. Tendo seu sono artificial movido a drogas, cachaça de má qualidade. Não sei como aquela gente dorme tanto se eu não tenho o sono como amigo.
Aquele que não me deixa, tenho-o como companheiro ideal, que não me acorda em altas horas, que não ressona como minha patroa, que não s deixa ver, mas ele mora numa morada dentro de mim, em cima do meu pescoço, reside em meio aos meus neurônios, mesmo não sabendo de onde ele vem a ele considero mais que um amigo fiel e devotado como meu cão de nome Clo, aquele lindo da raça fila brasileiro, de pelo rajado tigrado e olhos verdes como os da minha mãe.
E desse meu companheiro que nem gente é, que não tem até mesmo corpo, nem pernas ele tem, se os olhos dele vêem como os meus, desconheço.
Ele não me deixa como ela, as madrugadas, pelas quais sinto uma atração sem igual.
Ele quem sabe pode ser chamado de sonho. No entanto ele e os sonhos diferem muito pouco. Sonhos são sonhados de noite. Podem ser sonhos ruins de nome pesadelos ou sonhos melhores que nos fazem sonhar com aquela mulher magnífica que infelizmente fez parte do meu passado e, mesmo que queira muito trazê-la de volta ao meu presente ela me disse: “infelizmente vivemos realidades díspares . Você vive numa cidade,eu noutra. Cada um de nós amamos muito o que vivemos no passado e agora não mais somos capazes de levar esse passado ao tempo presente”.
Ainda não deixei escrito o nome desse tal que se faz presente sempre no meu âmago, que seja as noites escuras ou dias claros, que me acompanha fiel como meu cão Clo. Ele não me deixa sozinho mesmo quando na solidão de minha casa beira lago, tentando reencontrar a mim mesmo perdido entre duas identidades a de médico e escritor.
Esse tal pensamento tanto me faz sofrer ou me alegrar. Não me deixa tanto durante o dia quando o sol brilha ou quando o negrume das noites me faz pensar de novo no nascer de outra manhã.
Inda bem que pensar é exclusividade do pensador. Feliz de quem pensa e não repensa as contrariedades da vida que são reais e não fictícias.
Pensamentos ficam trancados e guardados num cofre forte cujo segredo só o dono sabe e não compartilha com ninguém nem mesmo aquela que dorme ao seu lado.
Eu penso muito, sofro com isso dada a enorme sensibilidade que trago no meu cerne.
Não me desgrudo dos meus pensamentos. Assim como meu fiel escudeiro Clo não se aparta de mim quando nas nossas caminhadas pelas terras ressequidas da minha rocinha amada.
Trago meus pensamentos num lugar onde não sei onde eles moram ou onde nascem.
Só sei que cada vez menos irei saber onde e o porquê penso tanto.
Mas, mesmo que queira não consigo deixar meus pensamentos soltos ao vento.
Trago-os todos eles vagabundeando dentro do meu cérebro irrequieto, sem parança como eu mesmo.
Se pensar muito da cadeia, permitam-me voltar ao Mundo das Sombras.
Serei, de bom agrado mais um prisioneiro de mim mesmo.
E da cadeia não irei sair nem com um alvará de soltura que um advogadozinho que faz ponto na porta dessa cadeia, que me cobre honorários vultosos, estratosféricos, ali continuarei preso, com meus pulos atados em pulseiras de prata, não falsas como as algemas de lata que marcam os punhos dos presos como tatuagens que não saem jamais. Da mesma maneira que eles, os detentos, que sejam sentenciados pelos julgadores por crimes menores a exemplo que vi, na mesma cela escura e fétida, presos perigosos, assassinos, estupradores, ocupando as mesmas jaulas onde pobres devedores de pensão alimentícia, já que presos não podem trabalhar, muito menos depositar na conta de sua mulher um reles salário mínimo que mal chega a matar a fome do seu filhotinho, um negrinho de olhos azuis que nem filho dele é.
Se pensamentos, que dentro de mim pululam como peixes na piracema sobem o rio a desovar, forem considerados crimes e derem cadeia, deixem-me mofar numa cela infecta. Que tal numa cadeia como aquela onde estive retratando em preto e branco a vida de criminosos com os quais convivi no meu livro de capa amarela, onde se mostra um globo muito parecido aquele exibido em circos onde motocicletas barulhentas rodopiam levando o público ao delírio.