O bom doutor que nem era…

Na minha vasta experiência nessa nossa linda profissão que já teve mais glamour em tempos idos. Nesses dias conturbados e desprovidos de encantos que eram milhares e agora conto nos dedos quantos poucos são. A medicina, desde a pediatria, médicos que sabem de tudo um cadinho; pena que agora são pouco valorizados dentro de nós outros ditos especialistas, cirurgiões generalistas que operam milagres em plantões intermináveis enfiados em centro cirúrgicos muitos infecto contagiosos expondo-se ao ridículo por uma mídia sedenta de noticias nada alvissareiras ; urologistas como tento ainda ser embora muitos me tenham como um velho aposentado que deveria estar parado cedendo lugar a outros de menos idade, outros médicos cirurgiões especialistas numa lista interminável que mais e mais engrandece. E aqueles outros colegas de farda que, se não os citei não foi por descaso e muito menos tive a intenção de descartá-los dessa linda profissão que um médico doutros tempos, o pai de nossa heróica profissão cujo nome é Hipócrates , éramos chamados de esculápios.
Esse notável Hipócrates foi um médico grego, também conhecido por Hipócrates de Cós (c. 460-370 a.C.), sendo lembrado por separar a medicina das explicações sobrenaturais e por defender a observação dos pacientes, o raciocínio clinico e a ética medica. O juramento que leva seu nome tradicionalmente associa-se a nossa profissão.
Bons tempos aqueles, quando aqui cheguei e dantes, num ano distante de um mil novecentos e antes mesmo de hoje.
Trazendo na minha maleta de médico um surrado e fora de moda estetoscópio e um esfigmomanômetro de aferir pressão. Alguns pares de luvas que deveriam ser descartáveis e infelizmente descartável passei a ser eu. Muitas ideias mirabolantes vinham de carona comigo sem me ajudarem na gasolina. Nos meus pés ainda não caminhantes um tamanco branco igualzinho aquele que se usa em hospitais espanhóis. Ainda tinha cabelos lindamente arrumadinhos num lindo topete. Um bigodão castanho, creio até um cavanhaque da mesma cor. Achava-me a última e melhor bolacha do pacote inteiro. Solteirinho da silva disputado pelas moçoilas casadoiras do pedaço.
Meu chevetinho azul marinho clarinho zoava pelas ruas da minha Lavras. Nem olhava pros lados e nem sei se elas olhavam pra mim.
Nem um ano se foi e, naquele dia, pertinho de uma pracinha, meu carrinho foi abalroado por um carrão novinho. Acho que da marca Dodge Dart. De dentro dele saltou e me assaltou uma linda mocinha, minha ex namoradinha, que de aquele dia em diante de ficante passou a ser a tampa da minha panela (e como ela sabe cozinhar muito bem).
E qual é meu conceito de um bom doutor?
Dantes, naqueles idos anos, quando de fresco aqui cheguei pensava muito e inda penso mais ainda.
Um médico, pra ser respeitado e procurado em nossos consultórios, carecia vir de uma boa escola formadora de esculápios, ter feito uma boa residência médica num hospital de ponta. Melhor ainda se esse viesse do exterior tendo feito um pós doutor. Embora inexperiente deveria ser carismático e de sorriso fácil. Fundamental que o tal doutor deveria ter como virtude maior seu bom humor.
Esse médico para ser tido como o melhor deveria atender tanto na sua oficina de trabalho, na sua clínica privada, quanto às expensas do SUS, distribuindo gentilezas por sobre sua mesa sorrindo e apertando as mãos dos pacientes sem demonstrar impaciência fosse num postinho de saúde qualquer ou na sua clínica famosa onde madames aparecem abantonzadas riquinhas com suas bolsas de grife lotadinhas de cartões de crédito, muitos deles sem saldo acreditem…
Um médico para ter bom conceito deve ter respeito pelos peitos caídos, despencados olhando pra baixo cabisbaixos. E, se for o caso de um cirurgião plástico ele deve ter peito de cobrar um precinho camarada para aquela fulana linguaruda senão, se der errado a cirurgia pobre dele. Vai ter de arrumar as malas e operar noutra freguesia.
Uma virtude que não pode faltar num bom médico é se atualizar sempre nos remédios que deveria prescrever. Cuidado para não trocar a receita receitando um xarope de mel agrião que deve ser para curar tosse e deixar escrito outro que não vai melhorar a tosse nem que a vaca tussa.
Ontem passei a noite e metade do dia dodói.
Mesmo doentinho, gripadinho, acordei bem cedinho, vesti meu short preto, uma camisa azul de mangas compridas dada de presente por minha filhota pequena jornalista. calcei meu tênis caríssimo que hoje está a espera de ser lavado na área de serviço do meu ap. Na minha cabeça careca pus meu bonezinho branco encardido de tanto uso e abuso. Na minha cinturinha não mais fininha uma bolsinha onde se pode carregar o celular e ouvir músicas no meu foninho de ouvido escutando musiquinhas no Spotify e vamos correr. A direção sabia de véspera. Dezessete quilômetros até minha casa novinha na minha rocinha. Ao meu lado estava combinado que me faria companhia um ucraniano maratonista de nome Sergiy Kyrylenko Sumy, meu amigo recente que espero conservar junto comigo muitos anos ainda.
Enfim chegamos, suados, salve salvos caminhando velozmente ou num trote igualzinho aquele que faz um cavalo trotão.
Ainda bem que fez parte da equipe resgate, na minha caminhonete, meu amigo Marcelo, minha esposa Rosa voltamos, eu no volante à cidade de onde partimos sem saber a que horas e se vivos estaríamos.
De novo aqui estou vivinho e ainda tossindo e todo dolorido.
Tive de baixar ao hospital.
Ontem, domingo, fui regiamente atendido no pronto socorro por um ótimo colega.
Bem me lembrava de sua pessoa ilustríssima já que havia vendido um dos meus livros a ele.
De posse da receita, exames feitos e nada de importante neles vi, fui à farmácia de nome Teixeira aqui pertinho.
Quem mo atendeu foi, não sei se ele, de nome Ronaldo não sei de quê, nem quero saber.
Se o tal fulano de tal é formado em farmácia ou curioso. Mais parece um médico aquele senhor de cabelos brancos como neve, usando óculos para ler direito, uma barriga enorme que encosta no balcão de onde ele atende.
Esse meu amigo pelo qual sempre pergunto quando chego na tal drogaria: “o Ronaldo já morreu? Tomara que não.”
Esse médico que não é um da gente, olha nossa receita, rabisca com seus olhos um e outro fármaco receitado pelo nosso doutor titulado. Troca antibiótico por outro de sua confiança. Não indica aquele prescrito por um doutor de verdade. Conta causos, piadas sem graça, e faz questão que a gente morra de rir.
Esse doutor que nem médico nem farmacêutico é, que mais parece dono da farmácia Teixeira, faço questão de só me consultar e me confessar com ele.
A ele, e outros balconistas de farmácias Brasil afora.
Como exemplo maior cito o Joãozinho da drogaria Aparecida. Aquele senhor de muita idade que me dava injeção na minha bundinha quando menino ainda.
E a você Ronaldo, mesmo não sendo doutor nem ao menos diplomado em farmácia,em você confio e não desconfio. Mesmo que me venda gato por sapato.

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