Ao mesmo tempo acredito e descreio.
Nunca fui um crédulo assumido e consumido pelas coisas que cria.
Não era um menino criativo em montar coisinhas como robozinhos que ele fazia com restos de sucata. Esse bom menino é meu primeiro neto de nome Theo.
Euzinho sim, dizem que fiquei criativo desde a morte do meu pai, há vinte e seis anos atrás, quando escrevi minha crônica que foi inserida no meu primeiro livrinho aquele que tem na contracapa a foto em mosaico de sua face. Aquele senhor circunspecto, calvo, nariz adunco, boa gente dizem todos que o conheceram.
Estamos em dois de agosto. Ontem, dia um, meu pai fazia mais um ano de vida.
Agosto me lembra com bom gosto, quando olho pro alto e vejo aqui na minha cidade e em outras espalhadas por ai ipês floridos em roxo, amarelo que ainda não nos deram flores de presente. Por último a cor pra mim não mais linda que o amarelo. E sim mais duradoura dentre todas elas.
Creio e sonho dentre as possibilidades.
Sempre com um pé no chão e outro pisando nuvens.
Dizem, aqueles que lêem meus escritos que sou muito imaginativo.
Invento personagens tanto nas minhas crônicas diárias como nos meus romances.
Via de sempre nunca personalidades midiáticas e sim gente simples por quem passo ou pacientes que me deram o prazer e a honra de assentarem-se a essa cadeira que tenho a minha frente.
Em meus romances quase sempre a protagonista é uma mulher geralmente linda embora as feias possam ter seus lugares à sombra das belas (desde que não façam sombra às bonitas).
Essa bela frase quem me inspirou a escrever foi dita por uma belíssima mulher.
Bendito dia em que ele, meu amigo Bento, a conheceu.
Ele, aos quase trinta, pessoinha inteligente que fazia de tudo um cadinho e não se acertava em nenhuma área de conhecimento humano.
Já passou pelos gramados sonhando ser jogador de futebol profissional, mas não passou de um reles peladeiro que nunca passou da quarta ou quinta divisão de um campinho de várzea onde a bola, quando, chutada ao gol, furava a rede e batia certeira na bunda da pobre vaquinha magra que pastava a grama ressequida de onde corria o bandeirinha de medo do touro bravo que um dia chifrou o seu traseiro.
Bento também tentou ser padeiro mas, naquela manhã quando passou da hora de acordar os pães na estavam sapecados e foi despedido por injustiça do patrão.
Ele tentou tantas vezes e não teve sucesso em todas tentativas que se mostraram vãs.
Seu único sucesso foi quando, desiludido e desconsolado, deprimido e não encontrando um comprimido de remédio que remediasse sua baixa estima. Tomou a si mesmo uma esdrúxula decisão falando com ele mesmo: “pra que continuar a viver assim? Sem amor, sem dinheiro, sem pelo menos sonhar com dias melhores”?
Andando a esmo pelas ruas. Cabeça quase batendo no asfalto que era cimentado. Mãos as costas coçando as mesmas. Aproximou-se de um viaduto sem salvo conduto e ia atirar-se lá em baixo pensando em se esborrachar no asfalto. Se não morresse na queda por falta de sorte quem sabe seria atropelado por uma carroça e enfim morresse como era seu desejo.
Com a corda no pescoço, nem tinha corda concordam comigo? O jovem Bento não era nada bento e nunca foi batizado nem tomava batida de cana com cachaça.
Na horinha H, em maiúsculo, apareceu na beira da ponte que era um viaduto uma linda mulher mais linda que a Julia Roberts naquele filme Uma Linda Mulher de nome Sindy que em verdade era Cinderela sem abóbora que virasse carruagem de verdade.
Cindy, além de ter salvo o pobre infeliz Bento, passou a ser a sua tampa da panela com a qual ela batia nele sem causa nenhuma.
Aquela união em pouco tempo se desuniu.
Cada um foi pro seu lado e tanto Bento como a não mais tão bela Cindy . Não há como ficar boazuda nem bela depois de certa idade.
Acontece que, como nas novelas da Globo, esses dramaturgos são como eu bons inventores de causos que nunca terminam. Nem um ano depois a novela termina em pizza como deveria terminar.
Trintanos depois Bento e sua não mais Cinderela voltaram a se corresponder. Não em cartas de amor e sim em watsups intermináveis.
Bento casado, Cindy, desiludida da vida estava de casamento novo.
Mas tanto Bento quanto a inda bela Cindy, ela com um e o outro com outra.
Seus pensamentos iam e vinham como bumerangues que atirados retornam a mão de quem atirou.
Pena que o tempo não para e não perdoa.
Cindy e seu não mais Bento agora, já idosos, cada um tentando buscar sua felicidade em realidades díspares.
Aquele amor, mistura de paixão e desejo, passou a ser amor de watsup.
E uma dessas mensagens que a linda Cindy passou ao seu ainda amado Bento foi essa: “não quero acreditar no impossível.”
Eu gostaria muito, seria possível?