Sob a apreciação da justiça da no mesmo.
Quem já não enfrentou processos, maledicências, assentou-se ao banco dos réus sob olhares de uma platéia curiosa em saber o desfecho do seu julgamento não sabe o quanto pra qualquer um essa efeméride causa constrangimento não fingimento ou falsidade.
São momentos dignos de lamentos.
Quando o acusado, assentado algemado a uma cadeira do lado do seu advogado de defesa, cabisbaixo assiste a fala raivosa do promotor, que esbraveja palavras ditadas pela ira, mal consegue respirar.
São horas, dias, minutos que se passam até quando o julgador pronuncia o veredicto depois da contagem dos votos dos jurados.
Se culpado o réu sentenciado a muitos anos de cadeia não consegue esconder sua insatisfação e chora de cabeça baixa e segue algemado de novo à prisão.
Eu, como médico já fui processado quando, naqueles tempos idos e não saudosos de quando atendia em unidades de saúde pública nessa nossa comarca na minha especialidade e em clínica geral noutra unidade aqui próxima de onde estou.
Deus me livre de escrever inverdades, somente por ter sido verdadeiro nos meus atendimentos por vezes apressados e atender pacientes naqueles mais de trintanos de trabalhos diuturnos. Sem as mínimas condições de dar atendimento digno aos menos favorecidos. Sem luvas adequadas a fazer o toque retal quando os idosos necessitavam ou sem uma mesa própria a fazer tal exame. Doentes insatisfeitos, não com o doutor e sim com o sistema falido de nome SUS que não lhes propicia um atendimento adequado e apenas empurra com sua barriga magra a um e outro especialista que não atende aqui nessa cidade não por culpa dele próprio e sim pelos baixos salários que percebe.
Felizmente daquelas vezes a justiça ficou do meu lado e não fui punido exemplarmente como aqueles pobres infelizes ladrões de galinha que furtam as penosas para tentar minimizar a fome de seus filhotinhos que esperam o paizinho famintos num barraco dependurado no morro alugado com muitos meses de atraso em quitar o aluguel vencido.
Quantos desses casos senti na ponta da minha pena quando descrevi, no meu livro de capa amarela de nome o Mundo das Sombras. Quando, por um semestre inteiro entrei cadeia adentro, muitas celas infectas, escuras e sujismundas, a retratar em preto e branco a vida antes e depois do crime daquelas pessoinhas que se recusam a mostrar as carinhas ao mundo onde não serão aceitas e não serão ressocializadas nunca mais.
Deixando o lado lúgubre de nossa vida de lado . Tentando abrir a janela e deixar a luz do sol entrar de mansinho para que a claridade não nos ofusque a retina, vamos retratar a vidinha simplesinha do meu personagem dessa minha crônica, nessa madrugada escura do derradeiro dia desse mês de julho que hoje termina.
A essa hora e antes mesmo Seu Adão, sem sua saudosa Eva já falecida, estava com as vacas alimentadas, ordenhadas e apartadas de suas crias sempre famintas insaciáveis as bezerrinhas fêmeas e os machinhos.
Aos mais de oitenta, esqueceu-se de contar mais anos, Adão, senhor tido durão, mas de coração amanteigado que se derrete todinho de tanto sentimentalismo e se condoer da dor de outrem esquecendo-se das próprias mazelas.
Naquela madrugada, quase a manhã pedindo licença para entrar nesse dia.
Esse homem bom, caridoso e nunca desgostoso com a quantidade de serviço que inda lhe restava a fazer a seguir de tudo que já havia feito.
Lá pelas nove e meia tirou um tempinho para tomar um cafezinho magricela na sua cozinha sempre vazia de mantimentos e cheinha de calor humano.
Antes do almoço, uma comidinha caseira feita na noite de ontem e requentada assim que voltou à cozinha, Seu Adão de novo sentiu uma saudade imensa de sua amada Eva que infelizmente o deixou na tarde inesquecível do mês passado. Data que faz questão de deixar marcada a ferro e fogo no seu enorme coração.
Já quando as doze horas deixaram pra trás as onze. Seu Adão voltou à roça na intenção de carpir o matagal que fazia da sua horta de couve e outras verduras um verdadeiro sarandi.
As quinze já estava com o roçado pronto e tudo limpinho como bunda de nenê que sua mãezinha querida havia passado talco.
Depois tirou mais um tempinho para dar de comer aos canarinhos da terra que ciscavam o esterco do curral.
De volta ao trabalho pesado na sua rocinha, sem se revoltar nadinha, Seu Adão não se permitiu mais um descanso por mais que merecido.
Um corguinho miudinho, que levava água limpinha a sua caixa d’água, de novo ficou entupido pelas folhas caídas das jabuticabeiras que se carregavam todinhas daquelas frutinhas madurinhas ao final do ano. Mais serviço esperava o já cansado Adão, que pensava ser sua rocinha um verdadeiro paraíso onde, em tempos idos uma mulher assanhada, de nome Eva, levou outro adão a pecar por ter comido um fruto proibido da macieira.
Seu Adão, pra mim e pros outros que pensam igual, é um exemplo digno a ser seguido.
Pensando em voz baixinha naqueles reclamões, sujeitos insuportáveis que passam a vida inteira a reclamarem sem razão. Do preço abusivo dos produtos alimentícios, do valor alto dos combustíveis que sobem mês a outro. Dos baixos salários que recebem sem dar a contrapartida aos seus patrões. Da falta de empregos em nosso país onde a gente vive em paz. E de tantas outras coisas que não lhe dizem respeito e eu respeito.
Voltando ao SEU ADÃO, em maiúsculo sim, pois ele merece.
Em comparação aos reclamões das cidades, que mal sabem o trabalho que os heróicos produtores rurais se sujeitam sendo ótimos sujeitos a encherem nossas despensas de comida boa.
Volto ao titulo desse meu texto – Sub Judice.
In dúbio pro reo – em latim. Na dúvida a favor do réu.
E mais uma pergunta deixo a vocês: “quem seria o réu nesse caso? Quem cometeu o delito maior? O honesto trabalhador Seu Adão ou os queixosos da cidade?
O meu veredicto, embora não seja julgador e sim médico escritor lhes passo a sentença agora.
Senhores presentes a esse julgamento. Advogados, promotores, familiares e demais.
Condeno os reclamões cidadãos das cidades, que nem sabem o peso de uma enxada. Que nunca viram o suor descer de suas caras lisinhas depois de um dia inteiro de trabalho duro.
Que desconhecem o valor pago a um litro de leite e que vaca não da leite de graça e tem de tirar cedinho sem sábados ou domingos de descanso pois retiro não da trégua ao homem do campo.
Esses sujeitos que falam mal de coisas que não conhecem, os tais que se dizem os tais, reclamões e outros mais.
Minha sentença não poderia ser outra senão essa que leio agora.
Intimo aos réus, gente da cidade, sujeitinhos manhosos, falastrões, que se dizem influenciadores sociais e outros maus carateres mais.
Suas penas são: “vinte anos no cabo das enxadas, trintanos acordando cedinho dando de comer as vacas e apartando bezerrinhos famintos e mais isso. Condeno você a passar a vida inteira na roça, domingos e feriados sem descansar. Tenho dito e deixo lavrado na minha sentença. Sem direito a recorrer.