Anjos não morrem

Falando em anjos me vem a cabeça minha Irmã Rosinha.
Não somente ela como todas as pessoinhas de alma pura, deficientes em qualquer setor que nós outros, que pensamos ser indivíduos perfeitos, inteligentes, competentes naquilo que nos propomos a fazer. Mas como toda regra tem exceções, nós mesmos, pessoas que se dizem produtivas, inseridas perfeitamente no mercado de trabalho. Grande parte das vezes damos trabalho aos nossos pais. Fazendo-nos de desentendidos quando eles mais precisam da gente. Indiferentes aos seus anseios. Esquecidos que foram eles quem nos deram de presente a nossa confortável casa e até mesmo o carro novinho que nos leva tanto ao trabalho assim como ao lazer junto a nossa segunda família.
Rosinha não é minha irmã nascida dos meus pais. Que em verdade são seus tios.
Minha saudosa mãe, Rute Rodarte, creio que no mesmo dia quando Rosinha nasceu a trouxe pra nossa casa. Minha tia querida Cida Rodarte, que mulher de altos predicados, diria que ela era uma senhora dama da prateleira bem do alto. Sofredora, a tudo enfrentava dando gargalhadas. Na sua casinha, fincada no mesmo lote onde morava meu avô Rodartino Rodarte e sua esposa amada vó Belica. Tia Cida, mãe de verdade da minha não menos querida Rosinha, por não ter condições de criar sua cria a entregou a minha mãe. Que a adotou como sua menininha, linda criança, de olhos verdes, cabelos tintos em preto, de sorriso doce sem nenhuma maldade como nós a temos de sobra.
Não se sabe a perfeição qual a causa de uma doença mental de nome autismo.
Quem saberia dizer se a rejeição intra uterina seria a principal. Ou outros fatores intervenientes.
Essa minha irmãzinha cresceu em nossa casa junto a mim e ao meu segundo irmão Fred Ozanam.
Elazinha era a o xodó de meus pais. Acredito que mais do meu pai.
Os dois não se apartavam. Nos momentos de ira Rosinha até agredia meus pais e eles nem procuravam se defender.
Era eu, já médico e ainda não escritor que chegava a nossa casa e ralhava com minha irmã tentando mostrar a ela que isso não poderia acontecer.
Anos antes de agora Rosinha apareceu com um nódulo grande em uma de suas mamas.
O exame anátomo patológico só veio a comprovar a malignidade da doença.
Rosinha foi operada numa mastectomia total creio que há mais de trintanos.
Não tolerou tanto a radioterapia como a quimio.
E até os dias de hoje essa grave enfermidade parece ter sido curada.
Outros já sucumbiriam a esse câncer avançado.
Daí a minha crença que tomei por empréstimo ao dar a essa crônica esse titulo – Anjos não morrem. Pelo menos não deveriam.
Tudo começou há mais de cinquenta e bem mais de um ano atrás.
Eu me mudei pra Belo Horizonte essa nossa linda capital que infelizmente não é a mesma de dantes.
Deixei Lavras, não a minha cidade berço e sim aquela que tenho como minha, levando na bagagem não apenas roupas e com elas sonhos.
Em Belô apeei na rodoviária incerto ainda de onde iria morar.
Qual caminho tomar bem sabia. A medicina já era meu destino; mas teria não só de mudar de cidade como devia estudar mais um cadinho.
Mudei de colégio de nome Gammon, mas com certeza mesmo que a gente deixa o Gammon ele não sai de dentro da gente.
Fiz o último ano do curso cientifico no Colégio Universitário pertinho da reitoria da futura universidade onde sonhava terminar minha graduação.
Não fui aprovado no primeiro vestibular. Tive de me preparar mais um cadinho num bom cursinho preparatório nas beiradas de uma bela praça quase no centro da nossa capital.
Depois de um ano inteiro enfim tive sucesso, entrei na faculdade formadora de esculápios, nome bonito que da no mesmo que deixar escrito médico.
Mal conhecia meus futuros colegas muitos deles vindos do interior e até do exterior.
Acredito até que a maioria era de lá mesmo, nascidos e bem criados na linda Belô de antão.
Foram cinco longos anos debruçados em grossos compêndios de medicina.
Eu mal conhecia meus colegas, futuros anjos vestidos em branco que vivem a tentar sanar a dor dos outros esquecendo-se de cuidar das próprias mazelas.
Enfim recebemos o canudo lindo em forma de pergaminho antigo.
Éramos cento e sessenta jovens doutores, no entanto doutores apenas no trato com os pacientes, pois não tínhamos a titulação de mestrado muito menos doutorado.
Em um mil novecentos e setenta e quatro nos apartamos.
Muitos ficaram na capital e outros migraram pro interior.
Acredito que a maioria fez residência se desdobrando em plantões intermináveis em distintos hospitais em distintas cidades de aqui e além mar.
Hoje, nesse ano em curso, dois mil e vinte e seis. Celebramos, os que ainda não partiram a outro destino. Cinquenta e um anos nessa nossa dura lida da medicina.
Pena que pequei por não ter comparecido a outros encontros de nossa turma.
A cada ano que passa perdemos um ou mais colegas.
Meus queridos amigos, permitam-me chamá-los assim já que somente dizer que vocês são apenas colegas pra mim é muito pouco.
Deixo, ao final desse meu texto de hoje, de nome Anjos Não Morrem, no meu entender não deveriam morrer .
Aqueles que passaram para o outro lado do caminho.
Que começa pelo Abrão, segue pelo Aloísio, vai em frente pelo outro Aloísio, depois pelo Arquimedes, indo a seguir pela Eliana, mais um colega falecido Emílio, pulando mais um Francisco, outro Francisco o Pitangui, mais um a ser pranteado o Geraldo, seguindo o não menos querido Gláucio, o Humberto Salera não vai ser esquecido, nem ao menos a Kátia Macarron, mais um o holandês Leonardus Jacobus, indo mais longe o saudoso Luis Marcos, vem depois o Marcos Marinho, a Martha Moller se despediu da gente, bem me lembro da Mirinha que nos deixou prematuramente, o não menos querido Nelson Antonio Corrêa que me deu a honra de me prefaciar num dos livros meus me chamando de Menino Bem te vi, o Grande desentortador de ossos Orvile Peres Galastro, o Paulo Henrique Fernandes meu colega vizinho em ordem alfabética, o Rui dos Santos Figueiredo, o Samuel Lansky, o estimado Sérgio Miranda, outro Sérgio Morais de Almeida, e por fim, espero que essa lista não se alongue muito, deixou seu nome gravado em nosso coração o Wilde Batista Marra.
Esses anjos morreram vestindo branco não somente nas suas roupas.
Como em suas almas também.
Meus caríssimos colegas da turma da medicina da UFMG dos idos anos de um mil novecentos e setenta e quatro.
Cinquenta e um longos anos nos separam.
Mas espero que continuemos unidos por muitos anos mais até nos juntarmos a esses anjos que exercem nossa boa medicina no céu junto a outros anjos de asas branquinhas que não se deixam ver.
No entanto, olhando pro alto, nessa madrugada escura, creio que posso ver a todos, esses anjos que declinei acima, orando por nós, seus colegas que ainda não se juntaram a vocês.
Pranteio-lhes aqui de baixo, com esse texto que diz escrito a saudade que suas ausências me trazem.

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