A vida continua

“Parece que eu dormi dentro da geladeira!”
Naquela madrugada de julho, olhando pro calendário deitado sobre a mesa ele diz ser segunda feira seis desse mês pra muitos de férias para os estudantes.
Dentro de sua casa, uma casona enorme mais velha que a idade de muitas avozinhas empilhadas umas sobre as outras Zé Botina, caboclinho pra mais de caprichoso que deixava tudo bem limpinho reluzindo a brilho. Mesmo de janelas e portas bem fechadas, por uma fresta entrava um ventinho sibilante que mais parecia um ventilador gigante que ao ventar fazia tudo ir pelos ares.
Não havia sequer um papel deixado sobre o tampo da mesa. Uma mesona maior onde perfeitamente cabia mais de uma duzentena de convivas. Que não pensassem ser passarinhos e aqueles papeizinhos voavam tais e quais aviõezinhos desses que a gente fazia com folhas de jornal em tempos idos.
Zé Botina era feliz dentro de uma infelicidade que mal conhecia.
Sorria por fora. Por dentro chorava.
Quase não tinha mais lágrimas a derramar de tanto sofrer.
Zé era de uma sensibilidade tamanha maior ainda que a minha.
Por qualquer coisinha ficava amuado. Assentava-se a soleira da porta olhando pro vazio do nada.
Zé, alcunhado Botina desde criancinha novinha. Quem nele botou esse apelido fui eu, seu vizinho mais perto.
Aos doze aninhos uma tia torta, que morava na cidade não na roça como ele. Deu-lhe de presente de aniversário uma botina semi nova em quase perfeito estado não fosse o desgaste de já ter sido usada por uma duzentena de vezes.
Zé gostava tanto dessa botina que não a deixava em paz. Ela, de tanto ser usada andava sozinha.
Era uma manhã bem cedo. Antes que o galo cantasse Zé já estava no curral tirando leite das vacas usando seus próprios dez dedos.
Depois da ordenha de suas poucas vacas tatus com cobra mansa Zé foi roçar a pastaria.
Deu uma topada numa pedra dura com sua botina ainda quase perfeita e ela furou na ponta deixando o dedo maior do infeliz vendo o sol nascer redondo. Naquela hora Zé viu estrelas embora fosse ainda de dia.
Daí a sua alcunha de Zé Botina.
Julho era tempo não só de férias escolares como de copa do mundo de futebol.
Zezinho, garotinho ainda, quando jogava num campinho cambeta não fazia falta nenhuma em qualquer dos times pois era um perna de pau bem pior que certos jogadores que jogam na nossa seleção.
Agora, nessa hora Zé não fazia questão nenhuma de jogar nem assistir a partidas de futebol.
Não tinha nenhuma predileção por qualquer time não só de aqui como de outros países. Como no meu caso, igualzinho a minha pessoinha.
No dia de ontem, domingo de tarde, aconteceu o imprevisível pra mim previsto.
Fomos derrotados em dois a um pela Noruega país lindo que desejo conhecer.
Zé nem assistiu ao fim do jogo. Desligou sua TV descolorida no meio da peleja.
Saiu de sua casa quando o relógio mostrava quase sete da noite.
Do lado de fora suas vacas choravam de descontentes dada a derrota de nossa seleção.
Até as galinhas caipiras e seus pintainhos que torciam pelo Brasil desconjuraram o resultado desfavorável.
Os pintinhos amarelinhos, escondidos debaixo das asas de suas mãezinhas penosas, me dava pena de vê-los assim desiludidos e mais que desolados.
Jacus deixaram de piar. As maritacas, de tão desiludidas deixaram de chupar jabuticabas e as deixaram de presente a mim.
Até os peixes da lagoa acabaram se afogando em suas mágoas de tanta tristeza.
Assim que Zé Botina viu aquela cena desoladora ele, sensível como eu. Tentou consolar a todos aqueles sofredores com essas palavras de consolo: “não se amofinem meus queridos. De aqui a quatro anos vamos vencer e seremos hexas. Sei que nosso país amado perdeu mais uma vez. Foi um vexame né? Mas não se amofinem, não percam a esperança em dias melhores que nunca virão. A vida continua desse jeito desajeitado com essa corja que nos dirige em Brasília num é”?
Deveras, num é?
Hoje, nessa segunda feira enlutada em todo nosso país fiz um acordo com o Zé Botina.
Vou dar a ele uma botina novinha em folha. Vamos aprender a remar contra a correnteza. Vamos pintar nossos cabelos de louro e vamos nos mudar pra Noruega.
Bem sei que a vida continua. Melhor naquele lindo país tinto na lourice dos vikings que aqui onde se plantando tudo da. Inclusive afanar o nosso pobre dinheirinho para pagar salários vultosos de um certo técnico que se diz professor.

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