Torna-se de certa forma fácil distinguir entre a água e o vinho.
O joio do trigo e pessoas boas e aquelas que deixam uma imagem capaz de nos ludibriar entre a bondade e a maldade. A distinção entre o bem e o mal nem sempre se mostra a olhos desnudos. A distinção final entre essas duas coisas, ou essas duas pessoas, aquelas pessoas deveras de bom coração e a segunda que fecha o seu coração e não oferece suas mãos a quem precisa de ajuda, só com o passar do tempo, de uma convivência cara a cara, se pode aquilatar quem de verdade é confiável e aqueloutro em quem não merece depositar confiança.
Confiar desconfiando. Depositar fé naqueles seres que se dizem humanos.
Muitas vezes a verdadeira humanidade não se encontra nos corações e sentimentos de nossos iguais. Creio sim num Deus Pai Nosso Senhor. Que às vezes não se mostra em carne e osso juntinho da gente quando mais precisamos de sua augusta ajuda.
No entanto vejo Deus, quando corria lentamente pelas estradas vicinais chegando até minha rocinha bem distante. Tanto na poeira da estrada quando a seca dava as caras poeirentas. Como quando a mesma estrada se mostrava enlameada como a alma de certas pessoas. No verdume das pastarias. No fugir em galope de um bando de cavalos assustados com minha presença em nada parecida com suas belezas. Pra mim nada se equipara a formosura de um lindo cavalo correndo lépido pelo verdume de um pasto depois de uma chuva benfazeja.
Via também nosso paizinho do céu junto aos meus pais onde eles hoje moram. Percebo sua presença divina a velar meu sono mesmo que ele seja curto sem sonhar sonhos nenhuns.
E agora mesmo vejo Deus aqui pertinho na forma de meus peixinhos aquarianos quem sabe me inspirando nos meus escritos tantos que são, desacredito que seja eu sozinho capaz de guardar aqui dentro tantas inspirações que se metamorfoseiam em crônicas milhares que são.
Percebo a presença de uma divindade superior em todos nós que ainda respiramos o ar puro das madrugadas. E também quando deixamos de respirar e somos levados a um andar superior ao nosso planeta de nome Terra. E, se existe em verdade vida em outras terras, tão férteis como a nossa, seria o mesmo Deus o Deus deles?
Agora, nessa hora madrugada, nessa hora tão prematura em que as horas dizem ser cinco meia. Dessa terça feria dezesseis de junho já em sua mais da metade.
Ao chegar aqui nesse meu consultório, nessa Rua Misseno de Pádua de número 352, na mesma rua em que mora uma Santa de nome Casa, hospital meritório que tem mais anos que nossa amada Lavras.
Como em dias anteriores deparo-me com uma pessoinha dormindo nesse frio modesto ainda de junho, enrolado em parcas cobertas, numa cama improvisada feita de papelão molhado pelo sereno da madrugada.
Com sua cabeça encoberta pelo sono profundo, sonhando talvez em ser gente e não uma coisa ali esquecida pelos seus semelhantes que pensam ser ele não uma pessoa sim um cachorro morto que nem merece ser chutado.
Daí veio a minha inspiração ao que agora termino de deixar escrito.
Qual seria a sutil diferença entre a água e o vinho? Diferenciamos apenas pela cor e o sabor?
Já que água tem o gosto de água e vinho o sabor próprio desse néctar dos deuses denominado Dionísio na mitologia grega e na romana conhecido por Baco.
Esse pobre infeliz pedinte que dorme ao relento, talvez adormecido a poder não de drogas ansiolíticas e sim de outras drogas mais nocivas como crack ou símiles.
Penso que ele e uma coisa quase não se diferenciam aos nossos olhos.
No meu enxergar existe a mesma sutil diferença entre água e vinho.
Aquele indivíduo, quem sabe drogado e ainda adormecido não é tido como gente e sim um reles sapato velho sem uso, jogado num lixão da vida.
Pra mim não, e sim para os outros, desprovidos de sensibilidade, a sutil diferença entre ele, aquele ser que deixou de ser gente, não passa de um traste velho a ser ignorado como ser humano, quase ou igual a um cão sarnento e piolhento a ser enxotado como praga daninha,sendo retirada do jardim de nossa vida…