Como era gostoso, quando a gente, na roça dos velhos tempos, quando meninos ainda ali chegávamos transbordando de tão contentes. De calças curtas e ideias alongadas. Já que havíamos passado de ano. Não apenas e tão somente de um ano pra outro e sim com notas bem acima da mediana. Depois de andar quilômetros da estrada asfaltada aquela rocinha perdida no meio do nada. Já que o trajeto era pequenino, quase da nossa baixa estatura.
E, ao lá chegarmos um tanto cansadinhos, depois de pedir a bênção de nossas tias avós Mariana e Leonor. E cumprimentarmos nosso querido tio Julio seu irmão que me ensinou a amar as vacas e nem tanto aqueles que se dizem ser seus donos.
A seguir de uma boa noite de sono dormindo junto aos meus primos de Perdões cidade vizinha a minha Lavras que amo tanto. Ao acordar cedinho tendo como despertador o canto estridente do galinho garnisé, aquele naniquinho esporudo metido a valentão que metia medo aos galos grandões que pensavam ser os donos das galinhas caipiras.
Depois de assentados ao rabo do velho fogão a lenha cujas chamas ainda crepitavam acesas desde a noite passada. Mandáva-mos goela adentro aquela apetitosa broa de milho recheada de queijo fresco recém dessorado, tudo aquilo junto a um cafezinho preto com alguma pitadinha de açúcar mascavo.
E a seguir íamos ao curral ver o barbudo tio Julio tirar aquele leite branquinho da vaca pretinha espumando na canequinha. Quentinho saído das tetas da vaca apelidada por mim de Chimbica. Ou seria Nanica, não me lembro bem.
Aquele primeiro dia era tão gostoso com sabor de laranja da ilha na safra colhida na laranjeira que não foi plantada por ninguém e ali nasceu e cresceu do nada.
E bem me lembro também das traquinagens que fazia ao subir no pé de jabuticaba no galho mais fino e mais alto. Disputando as maiores e mais docinhas com os marimbondos e maritacas. Dizendo as eles: “umazinha pra mim e as outras deixo a vocês”.
E pra mim as férias de final de ano nunca iriam terminar em fevereiro ou comecinho de março.
Dava uma tristeza danada ter de voltar à cidade. Despedir-me choroso daqueles meus aparentados de Perdões que hoje moram no céu.
Ah! Agorinha mesmo me lembrei do choro que saía do barulho das rodas bem azeitadas do carro puxado por aquela linda boiada de mais ou menos dez bois puxadores de um grandão carro de boi. À frente andavam calados como bois de guia o Formoso e o Gostoso. Logo atrás mais dois personagens do meu passado na roça das minhas queridas tias avós citadas dantes.
O velho Marruco, um boi eunuco chifrudão que ladeava seu irmão Macuco. Seguido atrás daquela linda e forçuda boiada de bois de carro que levam seus nomes do passado ao presente. E euzinho escutando aquele som estridente que não maltratava meus ouvidinhos.
Ouvia meu tio Julio me dizer e acabei aprendendo: “meu sobrinho neto Paulinho filho da dona Rute e do meu amigo Paulo Abreu. Carro apertado é que canta e encanta mais quem tem ouvidos atentos para escutar.
Nesses dias, vésperas do lançamento do meu Canto das Cigarras, que vai se dar na noite de hoje, 22 de maio, no bar do LTC. Tenho me desdobrado em um em mais de milhão.
Como é bom chegar aqui, bem cedinho, dar de comer aos meus peixinhos aquarianos, acender as luzes da minha sala, quando o dia amanhece escuro. Ligar meus computadores em número de três. Nesse escrevo crônicas, noutro, a minha frente nascem romances, o terceiro na sala da minha estimada Zaninha deixo a elazinha.
Terminar de escrever a crônica, essa que espero ser lida e ouvida atentamente por aqueles presentes ao meu lançamento.
No dia de ontem tinha de culminar tudo relativo aos trabalhos na minha rocinha que vai receber uma estrada novinha pra chegar a minha morada Paulo da Rosa. Ao telefone tinha de mostrar ao motorista do caminhão qual o caminho mais curto e seguro para chegar até lá sem errar.
Dar ordens que nem sempre obedecidas ao meu caseiro Tom Zé. E, além de tudo isso dar um jeitinho de ajeitar o que vai ser servido durante a apresentação do meu novo livro hoje as sete da noite. Tentar vender alguns exemplares do meu Canto das Cigarras àqueles velhos conhecidos meus leitores para tentar amenizar meu prejuízo. Figurinhas carimbadas não desse álbum que ora virou cachaça tanto dos pais e filhos.
Que trabalheira tenho tido. Um cansaço gostoso tem me assediado.
Não me sinto cansado nem desanimado com tantas ocupações.
Vai dar tudo certo, tanto na minha roça como, durante essa noite quando nasce meu Canto das Cigarras.
Agora, nessa manhã, que precede o lançamento de mais um livro. Depois de tanto trabalho.
Bem me lembro de ouvir, na minha infância perdida, cujos anos não voltam mais.
Aquele canto gostoso das rodas do carro de bois. Que carregado de milho cantarolava pelas estradas poeirentas da rocinha das minhas tias avós e do meu tio Julio barbudo. Que ia a frente do seu carro de bois, com sua vara enorme dizendo entre dentes soltando seu vozeirão: “vai Marruco, não para Eunuco. Toca pra frente meu boi guia Macuco. Anda mais devagar meu boizão de trás que leva a boiada à reboque Boyola. E vê se não enrola Dormente”.
Nesses dias tenho feito meu carro não de boi cantar.
Mas bem me lembro de quando meu tio avô Julio dizia a frente de sua boiada: “carro apertado é que canta melhor”.
Espero, de coração apertado, que meu Canto das Cigarras os encantem com seu canto. Para que eu fique no meu canto encantado com a presença de vocês.