Onde mora a saudade?

Quantas infindáveis vezes pensei em saber onde mora a saudade?

Teria ela endereço certo ou uma morada indefinida?

A rua onde reside a saudade seria numa cidadezinha bem tranquila, onde os poucos moradores eram conhecidos por seus próprios nomes ou de suas mulheres que a eles dessem ordens?

Exemplifico: Tiãozinho da dona Tiana, Aristóbulo da dona Inês, Raimundo da dona Raimundona, Percival da dona Rosa e por ai se vai ao longe.

Desconfio ser o endereço da saudade um lugar que enseja dor de um afastamento involuntário, contra a vontade de um dos dois. Um lugar fincado num morro agudo de onde se observa apaixonado a vista de um mar sossegado que desagua numa praia de areias muito brancas cheinhas de conchinhas da mesma cor.

Mas, por mais que procure, tanto no escuro, quanto no clarume de um dia ensolarado, não acho onde a saudade mora. Não sei se ela se esconde de mim. Ela não tem motivos para proceder assim, logo eu que, de tanto sentir saudades sempre me debulho em lágrimas que escorrem pela minha face chorosa e sofrida por tê-la perdido num momento de pura indefinição na minha vida.

Tudo me faz pensar que saudade não deixa endereço certo por não querer que nos encontremos de novo;  seja numa curva do caminho ou numa encruzilhada do destino pra nós sempre incerto.

Dona Violeta, uma senhora bem andada em anos, que não parece ter a idade que conta hoje. Dona de um corpo escultural. Nádegas firmes e roliças daquelas de fazer inveja a mocinhas que passam o dia inteiro a malhar em academia. Rugas e pés de galinha passeiam em sua face ainda linda como o arco íris depois de uma chuvinha mansinha.  Cintura que não mais permite dizer a fita métrica: “como você emagreceu”. Tudo nela ainda soa tão belo como o canto de um sabiá no alto da laranjeira numa tarde fagueira quase tendo a lua por companheira já no suspiro da noite.

Essa bela mulher, quando abre a linda boca de quase dois metros de lonjura faz qualquer cristão perder a compostura de tanta vontade de dar-lhe um beijo que não mais se desgruda e ali deseja ficar para sempre até que nem a morte da conta de separá-los.

Tudo ia as mil maravilhas quando essa linda mulher perdeu seu filho amado. Agora restam-lhe dois e um netinho que é a razão de sua vida. O menino que tantas alegrias deu a sua mãe partiu depois de uma infausta enfermidade que lhe ceifou pela metade o resto de sua existência tão feliz.

Essa grande mulher ainda vive o luto pela grande perda. Sente-se feliz pela metade, nem sempre.

Agora ela tenta viver outro relacionamento. Tenta sepultar um grande amor do passado. Por vezes pensa conseguir, mas as lembranças dele ainda continuam vivas no seu presente.

Numa linda fotografia tirada noutro país ela mostra, em detalhes, no meio do peito, atado a uma correntinha que reluz ser ouro, uma medalhinha com a foto de um menino.

O qual pude idenficar ser seu filho amado por quem ela ainda vive seu luto eternizado numa saudade imensa.

Foi através dessa fotografia tirada no dia de ontem que afinal descobri onde mora a saudade.

Ela agora está morando, não sei ainda por quanto tempo. Um palmo abaixo daquele sorriso lindo, a meia distância daquele pescocinho fino, no meio daquele peito embelezado por um par de seios generosos.

Se me perguntarem, agorinha mesmo, onde a saudade mora, tenho a lhes dizer, com absoluta certeza: ela, a saudade mora no meio do peito, logo acima do coração de uma mãe saudosa de seu filho amado, que um dia partiu  ao infinito, prematuramente…

 

 

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