Com que roupa?

Doutor Artur é um médico a moda antiga.

Desses que se vestem de branco. Sobre a camisa um jaleco bordado com seu nome. Um sapato da mesma cor combinando com sua indumentária impecavelmente branca. E para compor a vestimenta uma gravata listrada em preto e branco.

Ele se graduou há mais de cinquenta anos. Formado numa faculdade de bom conceito na capital de nosso estado- Minas Gerais.

Oriundo de família pobre. Filho undécimo de uma prole de quinze rebentos. Arturzinho era o orgulho daqueles pais que viam nele um futuro promissor.

Com muitas dificuldades se tornou doutor. Desdobra-se entre a faculdade de medicina e um emprego de garçom. Morava de favor na casa de um tio.

Afinal saiu-se vitorioso no vestibular depois de três tentativas malogradas.

Seis longos anos se foram.

Doutor Artur não se especializou. Naqueles bons tempos um bom clinico geral era bem aceito em distintos hospitais. Ganhava pouco e trabalhava muito.

Num dia dava plantão num pronto atendimento. Noutro atendia numa unidade de saúde pública.

Três anos depois abriu seu consultório. No começo tudo corria as dezenas de atendimentos.

Foram-se os anos. Doutor Artur envelhecia a olheiras vistas.

Ele permaneceu solteiro não por falta de pretendentes. No começo de sua vida profissional o jovem esculápio podia escolher quem seria sua futura esposa. Mas a profissão dele exigia o máximo. Não tinha parança nem noites de sono.

Aos mais de setenta continuava a labuta. Ora no consultório privado. Outra hora nos ambulatórios da prefeitura.

A clientela minguava. Médicos de mais idade eram preteridos por colegas recém formados.

Os especialistas eram os mais procurados. A medicina se especializava mais e mais.

Hoje existem médicos que tratam apenas das patologias da mão esquerda. A outra fica ao encargo de outro especialista.

Com o tempo passando doutor Artur foi ficando obsoleto.  Médicos antigos perdem a serventia. E são substituídos pela nova geração de especialistas.

Somando-se o salário que percebia da prefeitura não dava mais de dois ou três salários mínimos. Juntando-se a esse com o que ganhava do estado a importância mal dava para pagar a secretária e seus encargos sociais.

Aos quase oitenta doutor Artur ainda trabalhava. Sonhava um dia se aposentar de vez pra sempre. Mas esse sonho ainda estava longe de se concretizar.

Um dia nos encontramos. Numa rua do centro de nossa cidade.

Doutor Artur, abengalado, tentava atravessar a rua. Ajudei-o a chegar do outro lado.

Ele, surdo, com grandes dificuldades para enxergar, tateou-me a face. Não sei se ele me reconheceu de pronto. Já ele era meu velho conhecido.

Com um aperto de mão puxei prosa. Assentamo-nos a um banco da pracinha.

“Doutor Artur. Lembra-se de mim? Fomos contemporâneos na faculdade. Depois a vida nos levou cada um pro seu lado. Já se aposentou? Ou ainda continua na lida? Tens filhos e netos? Ou continua solteiro”?

Doutor Artur, rindo de bochecha a orelha. Respondeu-me meio sem graça.

“Com que roupa vou me aposentar? Meu consultório está vazio. Tive de dispensar a secretária. Aposentei-me sim do serviço público. Somando-se minha aposentadoria do estado. Mais o que ganho da prefeitura e da previdência social. A soma mal cobre meu plano de saúde. Daí tenho de continuar em atividade até quando Deus mandar. Espero que Ele demore a me chamar”.

E ele terminou assim: “com que roupa vou parar de trabalhar? Só se ficar pelado”…

De fato e de direito. Infelizmente é assim. A aposentadoria de um médico é um sonho difícil de realizar.

 

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