Preocupada com seu marido, já bem andado em anos. Dona Josefa sempre a ele recomendava: “não toma friagem Zé! Pode constipar”.
Mas quem diz que ele tomava jeito.
No dia seguinte acordava bem cedinho. Saía de casa, num frio de enregelar, sem ao menos um capote pra se agasalhar.
O que mais Zé gostava era de um bom torresmo. Desses bem crocantes. Que faz tlec tlec entre dentes à hora de mastigar.
Pururuca então, era a sua danação. A sua dona sabia fazer do jeitinho que ele gostava. Fritava a banha de porco na gordura bem quente. Deixava aquilo esfriar. Salgava a gosto. E como era apetitoso comer aquele torresmo fritinho na hora. Juntinho a uma mandioca que se desmancha na panela e um franguinho caipira bem tenrinho. Tudo feito no fogão a lenha. Iguarias feitas com muito amor.
Zé já havia passado dos oitenta quando um infortúnio aconteceu.
Na hora exata que mastigava um torresmo. Meio duro segundo suas preferências. Sentiu um estalo seguido de um dente quebrado. Não foi um só. E sim uma fileira inteira do alto da sua boca aberta. Que dó, diria eu se estivesse ali.
Para remediar o estrago urgia que Zé fosse ao dentista. Mas quem diz que naquele final de semana, véspera de passagem de ano. Naquela rocinha erma. Na cidade perto fosse encontrado um consultório de dentista pronto ao atendimento.
Mesmo assim, lucubrando sobre o que seria melhor. Zé foi à cidade a fim de encontrar a solução de seu imbróglio.
Tudo na cidade estava fechado. Era feriado nacional. Zé não desanimou.
Por indicação de um colega, gente boa da cidade. Acabou por encontrar um profissional dos dentes que quebrasse o seu galho.
Doutor Cicrano, Zé não se lembra do seu nome. Abriu sua oficina de trabalho para acudir o Zé. Era bem cedo ainda. Num poleiro distante ainda se podia ouvir o cantar do galo.
Na mesma hora foi feito um molde para fazer uma dentadura para o desafortunado Zé.
Encomenda feita. A entrega foi marcada pra de ali há uma semana inteira.
Zé não aguentava mais ficar sem comer o seu torresmo bem crocante. Passou uma semana inteirinha tomando sopa de canudinho. Dona Josefa não sabia mais o que fazer.
Zé até que perdeu uns quilinhos. Esmagreceu a costelas vistas (tanto faz emagrecer como esmagrecer- são sinônimos). Bom que se escreva.
E como uma semana demora a passar.
Enfim é chegada à hora de a nova dentadura buscar.
Zé não perdeu tempo. Lá pelas bandas das cinco da matina Zé já estava à porta do consultório do dentista. Levou o dinheiro num embornal furado. Quase perdeu a metade do dinheiro a ser pago pela dentadura novinha. Por sorte dona Josefa o acudiu a tempo. Pagou o que faltava.
Zé sorria ao levar a dentadura já prontinha na boca escancancarada.
Acontece que, no meio do caminho tinha uma pedra. Zé nela tropeçou. Como estava constipado espirrou. Coisas existem que não se pode segurar: espirro, tosse, flatus, e outras mais.
Naquele momento funesto aconteceu o pior.
Zé, num acesso de tosse espirrou. Cuspiu a infeliz dentadura longe e ela caiu justamente num brejo infestado de sapos. Pasmem! Um deles a engoliu pensando ser uma perereca de pernas abertas. E nunca mais Zé teve o gosto de comer torresmo.
Passou o resto da vida tomando sopa de canudinho.