A primeira vez a gente nunca esquece.
Aquela bicicletinha de rodinhas amarelas, meu primeiro presente de Papai Noel.
Aquela namoradinha na qual dei meu primeiro beijinho na face que a fez ruborizar da cabeça aos pés.
Aquele campinho cambeta onde aprendi a jogar futebol.
Aqueles amiguinhos que me fizeram dar valor a uma grande amizade. Até hoje deles não me esqueço.
Daquele cãozinho fiel, de nome Rebel. Que por tentar me defender das mordidas de um canzarrão acabou por perder a vida naquela rua que daqui se deixa ver. A mesma rua onde passei minha infância e de onde depois me mudei. Agora bastante mudada. Transformada com os anos em rua da clinicas. Vizinha ao hospital Vaz Monteiro, onde ensaiei meus primeiros passos na medicina. Que até hoje me acompanha, espero por muitos anos mais.
Não me esqueço também daquela jabuticabeira de onde escorreguei. E caí na terra molhada. Depois de disputar as jabuticabas mais docinhas com os marimbondos e abelhas abelhudas. E, ao voltar à casa de umas tias solteironas levei umas boas palmadas nos meus fundilhos. Que me fizeram ter juízo coisa que depois perdi. Uma vez feito idoso irresponsável pelas traquinagens praticadas.
Não me olvido dos castigos que passei assentado de costas para a televisão. Sem poder sequer assistir aos desenhos animados da minha preferência. E só depois de pedir a minha mãezinha um copo de leite quente, coisa que detestava. A minha querida mãezinha me permitia deixar o castigo. E voltar ao campinho cambeta para continuar a pelada interrompida naqueles idos anos de antão.
Não me esqueço jamais dos tempos de outrora. Quando jogava finca e bete. E andava de patinete. Naquele passeio sem muito asseio. E de vez em quando me desequilibrava. Caia de costas e ralava o joelho. E a dor sarava assim que minha saudosa mãezinha derramava mertiolate.
Não me esqueço nunquinha dos pitos que levava do meu avô Rodartino. O meu avozinho que usava um par de suspensórios para que sua calça azul marinho com riscas branquinhas não caísse e lhe mostrasse a cueca samba canção.
Não me esqueço jamais da tristeza que me fez escorrer dos olhos várias gotas salinas. Naquele dia pensei estar chovendo. Mas não era chuva que escorria na minha face. E sim lágrimas de verdade. Aquele foi o dia mais triste da minha vida, quando perdi meus pais.
Agora, quase na aurora da minha vida, passou-me pelo consultório um garoto meio preocupado com um fato acontecido no ano que deixou rastros.
Juquinha é seu nomezinho.
Moleque traquina como eu fui na minha infância.
Ele veio à consulta desacompanhado. Deixou os pais na roça onde morava.
Naquele dia ele completava seus doze aninhos. Era seu aniversário.
Como não tinha como pagar a consulta. Nem plano de saúde que o referendasse. Fiz-lhe a consulta de presente.
Juquinha não se continha de tanta ansiedade. Esfregava as mãozinhas e suava frio.
Mal se aquietava na cadeira defronte a minha.
Fui eu que tentei quebrar o gelo. Puxei prosa de maneira amistosa.
“Juquinha, o que o trouxe até aqui? Sei que foram as suas pernas. Tá com algum problema de saúde”?
O moleque suspirou e falou meio fanho.
“Doutor, essa foi a minha primeira vez. Estava acostumado a levar minha égua no cupim. A danada era mansinha e nunca me deu coice. Depois foi a vez de uma novilha novinha. Foi rapidinho e nem senti. A seguir foi a galinha carijó. A danada acabou botando um ovo na hora H. Na véspera do natal enfim foi a minha primeira vez com uma mocinha. Mais sambada que mulata no carnaval. Assim que tiramos a roupa e nos vimos pelados, numa moita de bananeira. Foi uma tremedeira só. Meu bilauzinho tossiu, espirrou longe e logo murchou. É assim mesmo doutor”?
Acabei explicando ao garotinho Juquinha que é assim mesmo. Só que, depois de velho acaba piorando.