Entra ano e se despede outro é a mesma ladainha.
O velho Chico, no alto dos seus muitos anos, promete e repete a mesma cantilena.
“Esse ano eu vou mudar. Vou acordar mais tarde. Vou tirar umas feriazinhas. Há tanto tempo não descanso. Vou fazer as pazes com a balança. Quando subo nela ela me olha de baixo. Com ares de superioridade. Mesmo estando bem em baixo ela me diz: Chico, olha pra sua barrigona. Há quanto tempo não vês seu órgão que já perdeu a serventia. E agora não serve pra nada a não ser urinar em jatinhos fininhos. E se lembra de quando fez aquele exame importante para medir o colesterol e seus familiares. Chico, cria vergonha na cara! Você já passou dos setenta e muitos. Tá na hora de se aposentar de vez pra sempre. Cuida de ajeitar sua última morada. Paga as suas contas para não deixar dividas aos seus filhos e netos.”
Mas Chico não emenda nem por encomenda. Continua do mesmo jeito desajeitado. Barrigudo, linguarudo, falastrão e renitente. Dizendo aos quatro ventos: “burro velho não muda a marcha. Vive desse mesmo jeitinho e morre deixando saudades do seu primeiro amorzinho.”
Naquela segunda feira, ano novo esfregando os olhos de sono, Chico acordou a mesma horinha costumeira.
Olhando seu relógio de cabeceira ele marcava exatas cinco horinhas.
Chico acordou várias vezes durante a noite. Encheu o pinico de urina quentinha. Fazia um calorão de esquentar miolos.
Por que Chico Pindura? Podem me perguntar.
Acontece que o velho Chico não pagava as contas na hora da compra. Deixava a conta no pindura dizendo: “pago quando puder e tiver vontade”.
Mas diziam as línguas de trapo que ele não pagava nunquinha. Daí a alcunha de Chico Pindura. Que nele grudou como carrapato micuim na pele fininha de gente da cidade desacostumada aos ares da roça onde Chico vivia.
Naquele ano que recém começava Chico prometia mudar. Será? Pergunto-me…
E fez uma lista de propósitos que começava assim.
“Nesse ano vou fazer dieta. Dizem que abacaxi emagrece. Vou evitar comidas gordurosas. E irei me exercitar. Já é tempo de me aposentar. Já trabalhei tanto, é hora de parar. E vou vender minha propriedade. Passar minha rocinha nos cobres. E com a grana vou viajar pra longe aonde ninguém vai me encontrar. Ah! Antes que me esqueça vou me amasiar. Até hoje não me ajuntei e é triste viver só. Tem aqui pertinho uma vizinha lindona. Quem sabe ela me aceita como consorte sortudo? Vou fazer uma visita a ela. Dona Beatriz é uma mulher de encher os olhos. E como ela vai ficar bem na minha cama”.
Janeiro se transformou em fevereiro. Que deu lugar a março entrando abril e começo de maio. Junho se juntou a julho. Agosto a contragosto cedeu espaço a setembro que outubrou trinta dias depois. Novembro se consorciou a dezembro e de novo o ano terminou.
Foi nesse começo de janeiro que nos demos de olhos e apertamos os dez dedos.
Chico me pareceu mais gordo ainda. Ele mal conseguia se levantar.
Continuava celibatário numa solteirice de dar inveja aos casados.
Chico ainda não se aposentou de vez. Continuava acordando cedinho para ficar mais tempo atoinha na vida.
Vender sua rocinha não conseguiu. Continuava pendurando as contas prometendo pagar quando pudesse e lhe conviesse. Dona Beatriz, percebendo a canoa furada em que se metia, abandou o barco antes que ele afundasse. O velho Chico, no máximo que conseguiu viajar, foi pra Aparecida do Norte que fica mais ao sul. Fazer exames e perder peso foi mais um insucesso.
Nessa segunda feira, cinco do mês entrante. Quando nos encontramos.
Depois de tantos desencontros pelo ano que passou.
Ao Chico Pindura acabei perguntando: “e ai Chico? Conseguiu fazer tudo que tinha proposto. Pelo visto mal visto percebo que não”.
E ele me respondeu coçando a cabeça.
“Verdade, deu tudo errado. No ano que vem prometo que vai dar certo”.