Nem fede nem cheira. Da no mesmo.
Manoelzinho acordou bem cedinho naquela véspera de natal.
Como de costume tinha de trabalhar na sua rotina indigesta.
Porteiro de um condomínio de gente chique. Passava as noites em vigília tentando abrir os olhos para tentar afastar o sono que o atazanava. De vez em quando um morador na cancela buzinava. E Manoelzinho, naquela hora madrugada, tinha de espantar o sono. Identificar quem seria aquele. Se um morador ou algum contraventor. Pessoa que deveria estar na cama e não importunando a quem não deveria. Naquela hora em que a coruja sai à caça. Vira o pescoço curto por cima do cupim onde mora. E, num vôo rasante consegue comer um incauto passarinho que avoa bem pertinho de onde ela está de olhos abertos a espreita de alguma presa que lhe facilite o desjejum.
Manoelzinho até que se acostumou a sua rotina. Pra ele não tem dias santos ou feriados. Natal e virada de ano têm os mesmos significados. São dias e noites como outros quaisqueres. Assim como sábados e domingos em nada divergem dos dias de semanas normais.
Nesse natal que recém fechou as olheiras Manoelzinho pernoitou naquele condomínio elegante. Onde viviam pessoas endinheiradas. Gente de pedigree inatacável. Embora muitos deles tivessem um passado duvidoso.
Manoelzinho, assim que apeou, montado na sua bicicletinha já bem sambada, naquela portaria onde iria passar mais um dia e uma noite inteirinha. Teve de assinar o ponto e render um colega mais cansado que ele estaria ao final do plantão.
Era essa sua vidinha descomplicada. Indo de um serviço a outro. Ganhando pouco mais de um reles salário mínimo. Quantia irrisória. Ridícula em se comparando aos ganhos das pessoas que moravam naquele cercado de muros altos. Fortaleza tida inexpugnável aos larápios que gostariam de ali entrar.
Naquela noite do dia vinte e quatro de dezembro. Quando Papai Noel iria estacionar seu trenó de renas justamente na portaria do condomínio. E não era nenhum bom velhinho e sim um gatuno disfarçado nelezinho. Manoelzinho desconfiou das suas boas intenções.
No mesmo instante a ele perguntou: “onde está indo? Qual residência vai visitar. A qual morador queres que eu interfone? Você vem de onde”?
Na mesma hora o falso barbudo obeso puxou do revólver e anunciou o assalto.
“Abre a cancela senão te mato”.
Manoelzinho, num ato tresloucado, enfrentou o malfeitor. Deu-lhe um murro bem dado na fuça. Tirou a arma da mão do safado. Chamou a policia que lhe deu voz de prisão.
A noite se foi chamando novo dia. O ato heróico do Manoelzinho passou despercebido pelos moradores do condomínio que nem deram pela coisa.
Lá pelas tantas horas Manoelzinho saiu de fininho da portaria do condomínio. Tinha de bater ponto noutro emprego. Naquela hora madrugada ele iria entrar noutra portaria. Montado na sua bicicletinha bem rodada.
Foi na manhã de hoje que nos encontramos. Quase na entrada de um novo ano.
“Manoelzinho, você me parece bem cansado. Não vais descansar na virada do ano”?
E ele respondeu bocejando de sono.
“Que nada! Pra mim tanto faz ano novo ou velho. Da no mesmo. No natal não ganhei nenhum presente. Embora estivesse presente na portaria de outro condomínio. E assim vou vivendo. Pra mim não têm dias santos ou feriados. O trabalho sempre me espera de braços abertos. E eu não me queixo. Sempre de bem com a vida que tenho levado”.
De verdade. E a gente se esquece desses heróis anônimos.