Que dia lindo amanheceu nessa terça feira antevéspera de natal.
Lindo pra quem está na praia. Se refrescando nas águas do mar. Tomando aquela água de coco geladinha ou aquela cervejinha estupidamente gelada. Degustando um prato cheio de camarões fritinhos na hora. Em boa companhia de uma mocinha não tão pudica. Que topa tudo e na hora H escapa por entre os dedos. Deixando o rapaz chupando dedo. Pensando que aquela conquista vai render bons dias de férias naquela praia ensolarada.
Mas pra ele, de nome Raimundo, pessoinha que há tempos não tirava férias, bem que precisava. Acostumado a ralar na enxada. Carpir mato antes que a pastaria se torne um sarandi. Uns dias de férias até que iria cair bem.
A derradeira viagem que fez. Já nem se lembra mais de quando foi o acontecido. Foi em romaria à Aparecida do Norte. Naqueles busões lotados. E mal se recorda de quando um deles teve o pneu furado. Tiveram de dormir ao relento à beira da estrada. E, durante aquela noite malograda apareceram uns gatunos que surrupiaram todos os seus pertences. Deixando-os de tanga sem cueca e sem a quem recorrer.
Raimundo era casado com uma mulher que não lhe dava tréguas. Ela era mandona. Dava ordens como se fosse um general a frente de seu batalhão de soldados rasos.
“Sim senhora. Vou ali e volto logo e trago o frango para o almoço”.
E ai dele se não voltasse há tempo. Seria um contratempo que iria azedar o tempo.
Raimundo era um pau mandado. Fazia tudo que sua amada Dorotéia pedia. Por sorte dele e dela não tiveram filhos. Por quê? Podem me perguntar. Se tivessem filhotes não iria sobrar tempo para o desinfeliz Raimundo obedecer às ordens de sua esposa. Pois tinha de cuidar dos meninos ou meninazinhas se fosse o caso.
Naquele final de dezembro enfim Raimundo poderia tirar uns dias de férias. Pelo menos até o ano novo. Uns dias apenas poderia ficar em casa. De papo pro ar ouvindo os reclames da sua Dorotéia.
“Raimundo. Da uma chegadinha na venda do Ariosto. Compra um quilo de toicinho. Presta atenção se tem carne. E pede desconto. Ariosto é um ladrão. Cobra mais caro que no supermercado. E volte logo para fazer almoço e lavar a roupa. A faxina está atrasada. Vou à casa da minha mãe e quando voltar quero encontrar tudo limpinho e a comida prontinha”.
Raimundo, obediente, tudo fazia sem dar um pio. Se não teria de ficar de castigo sem assistir televisão. A novela das nove iria ficar pra outro dia. Sem dia certo de terminar.
Enfim as tão sonhadas férias de final de ano. Quem sabe uma pescaria nas águas piscosas de um riozinho que passa ali pertinho? Ou ficar à toa sem nada fazer?
Foi aí que o pobre Raimundo se lembrou da megera da esposa. Que lhe dava ordens como se fosse a sua patroa. E era ele que mantinha a despensa sempre cheia. Em casa nada faltava. Apenas e tão somente uma pitadinha de carinho e respeito para com ele.
Foi pensando nas férias que bem merecia. Nos dias de ócio que teria de passar em casa. Escutando as ordens da Dorotéia. Tendo de obedecer cegamente as suas vontades.
Pensando melhor decidiu postergar as férias. Quem sabe pro ano que vem? Ou num próximo sem data marcada?
Aquela indecisão tomou rumo certo.
Raimundo, em comum acórdão com ele mesmo, resolveu voltar ao trabalho.
Tudo, menos isso. Ficar em casa, tendo de aturar a Dorotéia. Deus me livre de tirar férias…