O primeiro natal do doutor Zezinho

Como ele sonhou com aquele dia.

Era um dezembro quase fechando os olhos.

Aquele jovem esforçado via realizar seu sonho. Depois de noites indormidas. De tentativas frustradas de passar no vestibular. Enfim ele se tornou doutor. Afinal a medicina sempre foi seu desejo. Zezinho, menino nascido e crescido na roça. Filho de pais simplesinhos. Gente que se recusava a apertar as mãos de gente da cidade com suas mãos cascorentas. Tementes a Deus Pai Nosso Senhor.

Aos menos de doze anos teve de se mudar pra cidade. Pois ali, na sua rocinha distante, não via a possibilidade de um dia se tornar doutor.

Por sorte teve a acolhida de um tio torto. Seu Galdino era meio aparentado a sua mãe. Pessoa boa, respeitador.

Zezinho, naquela cidade continuou seus estudos. Foi difícil se acostumar à nova realidade. Na escola todos o tratavam como gente da roça. Matuto, falando meio estropiado, Zezinho, garoto esforçado, tinhoso, logo se mostrou capaz. E tirava boas notas. Aprendeu a falar direito. Conseguiu ser respeitado. Graças a sua enorme capacidade de aprender em pouco tempo se diplomou no segundo grau.

Mais uma barreira se interpunha em seu difícil caminhar. O vestibular lhe causava medo. Um temor que se dissipou na segunda tentativa. Foi quando teve sucesso em entrar na tão sonhada escola de medicina.

Foram seis anos de duro aprendizado. Desdobrava-se entre a escola e plantões que varavam noites. Ia de um hospital a outro, até aquele dezembro quando recebeu o canudo.

Era apenas o começo de uma longa caminhada. Zezinho queria ir mais longe.

A residência médica era outra barreira a ser transposta. Depois de muitas tentativas conseguiu entrar na residência de cirurgia geral. Doutor Zezinho sentia-se a vontade escrutinando os meandros do corpo humano. Era um cirurgião nato.

Foram cinco anos aperfeiçoando-se em cirurgia até se decidir pela urologia. Mais três anos deixaram rastro.

Enfim vencida mais uma etapa.  Doutor Zé preferiu deixar a cidade grande. E se mudar para o interior do seu estado.

Ali foi o pioneiro na urologia. Introduziu naquela comunidade cirurgias nunca antes feitas.

Dezembro mostrou a carinha ensolarada. Era seu primeiro natal naquela cidade.

Ainda solteiro, morando sozinho num apartamento do centro. Bem próximo do hospital.

Ele quase não tinha tempo para ele mesmo. Dava plantões em três hospitais. Atendia em duas unidades de saúde publica. Era ao mesmo tempo clinico geral e urologista nas horas melhores. E ainda por cima quase não lhe sobrava tempo para ir ao consultório.

Aproximava-se o natal. Onde passar aquele dia especial? Doutor José não tinha parentes naquela cidade ainda desconhecida. Nem amigos, ou conhecidos, fora seus pacientes com quem se relacionar.

A noite de natal foi como as outras. Enfiado numa sala de cirurgia. Tentando atenuar a dor alheia sem pensar nas próprias mazelas.

Avizinha-se o natal. Dia vinte e quatro de dezembro é dia de confraternização em família. Mesas fartas, presentes trocados.

Mas não devemos nos esquecer daqueles tantos que passam a noite do natal internados em leitos de hospitais. Nos profissionais de saúde que não têm feriados nem dias santificados.

Pra eles o natal é como um dia qualquer. Sem direito a descanso. Dedicando-se aos outros. Sem celebrações natalinas.  Sem sequer parar por um momento para se lembrar que natal não é apenas isso. O espírito natalino é nada mais que um sentimento de amor. De generosidade, solidariedade e renovação, centrado na união familiar, no perdão e na gratidão.

Feliz natal a vocês todos. É o que desejo de coração aberto. E que a mesma alegria se estenda ao novo ano que se aproxima.

 

 

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