Muitos duvidam que alma exista.
Pois ela não se deixa ver. Onde ela se esconde? Podem perguntar.
Pra mim ela se mostra apenas depois que a gente morre. E levita aos céus num vôo rasante, pois almas não são como aviões. Dotados de motores possantes. De asas que permitam planar. De um piloto experiente e de uma tripulação bem treinada para enfrentar turbulências que fazem os passageiros perderem a cabeça de tanta preocupação com o destino daquele vôo que começou tão bem e pode terminar numa queda imprevisível. Dando fim aquelas vidas que só pensaram em viajar.
A chuva caía sem parar naquele final de ano, quase véspera de natal. O sol parecia ter tirado férias. Era isso mesmo que pensava fazer o pobre Zé.
Acostumado a pegar firme no cabo da enxada. Foiçar era com ele mesmo. Zé nunca teve tempo de parar de trabalhar.
Era ele e só ele mesmo que tocava aquela fazendinha. O patrão de vez em nunca aparecia por aquelas bandas. E quando vinha só lhe dava repreensões.
“Zé, você ainda não plantou a roça de milho? O leite minguou. A vacada anda meio emagrecida. Que sujeira anda o chiqueiro. O que você tem feito? Parece que andas meio esmorecido. Não está satisfeito com o emprego? Estou te pagando mais que você merece. Se quiser procura outro e me dou por satisfeito”.
Zezinho, coitadinho, humilde e bem educado, mal respondia as reprimendas do patrão. Ficava amuado ao seu canto. Enchia os olhinhos d’água, pegava o cabo da enxada e ia carpir o mato do sarandi que se transformou o pasto naquela estação chuvosa no começo do verão.
Que alma boa tinha o Zé. Era gente da prateleira de cima. Trabalhador, responsável, de uma lisura de fazer corar qualquer deputado que afana os míseros caraminguados dos pobres aposentados que recebem um reles salário mínimo à custa do INSS.
Ainda bem que a visita do patrão malcriado só durou algumas horinhas. E ele se foi levando embora seus maus bofes.
Foi numa sexta feira, final de semana, quase semana que antecede o natal que nos encontramos.
Chovia a descer enxurrada pela estrada bem em declive. Por ali não subia nem que a porcada tossisse. Era uma barreira só.
Zé estava terminando a segunda ordenha do dia. As vacas, bem alimentadas, de bucho cheio, ruminavam de saudade de suas crias.
A sua casinha tosca reluzia de limpeza. Zé morava sozinho. Era separado da terceira mulher.
Por sorte não teve filhos. Como cuidar e uma prole se mal tinha como se sustentar sozinho.
E a chuva caia. Eu, mesmo se quisesse voltar à cidade não poderia. A estrada estava intransitável. Tive de pernoitar na casa do Zé.
Acordei bem cedinho. O cafezinho já estava pronto.
Olhei pela janela e a chuva não parava. E Zé saiu em direção ao curral.
Sem capa, sem nenhuma proteção a encobrir seu corpo magricela. Zé partiu rumo ao trabalho.
Minutos depois, ao me despedir e agradecer a hospedagem. Ao apertar a mão molhada do pobre Zé. Preocupado com a chuva que persistia. Manifestei ao amigo o meu desassossego.
“Zé, não tens medo de ficar doente? Uma gripe pode jogá-lo na cama. Você, que trabalha tanto, deveria se proteger da chuva. Vou te dar de presente uma capa no natal”.
E ele me respondeu agradecido: “carece não. Minha alma é tão boa que num molha não”.
Verdade, gente boa como o Zé tem sua alma protegida. Mesmo com aquela chuvarada toda ela se mantém sequinha.