Dizem, com muita propriedade- o que não tem remédio remediado está.
Assim penso eu. Nos meus muitos anos imagino dessa mesma maneira.
A gente, depois de certa idade, não muda mais.
Nossos costumes continuam do mesmo jeitinho.
Acordar bem cedinho. Aqui chegar antes de o galo cantar. Abrir a porta do prédio onde tenho a minha oficina de trabalho. Dar de comer aos meus peixinhos aquarianos. Tomar meu cafezinho expresso. Ligar esse computador sofredor. Onde tenho tudo que tenho escrito. São mais de vinte mil crônicas e cerca de vinte e um livros arquivados. Tenho um cuidado danado de um dia preservar tantos guardados que penso deixar à posteridade. Já que a gente só se celebriza uma vez enterrados. Já que ainda vivos não nos dão a devida importância. Não importa. Pra mim o que conta e fazer o que me apraz. Já vivi o bastante. Já trabalhei mais que o necessário. Já ganhei o suficiente para viver com o que tenho guardado. Pra que mais?
Pau que nasce torto assim vai ser sepultado. Nem as nossas cinzas se endireitam. Seremos sempre o que fomos. Por mais que nos tentem mudar.
Tenho um amigo, com quase o dobro da minha idade. Nem tanto exagerado. Cujo nome abreviado se escreve Tonho. Em verdade seu nome inteiro é Antonio Severino Matusquela da Silva Quadros. Ele não se enquadra nesse nomão. Pra evitar confusão e atropelos na língua ele se nomeou Tonho simplesmente. “Melhor assim não assado”. Diz ele com seu vozeirão.
Não há como dar roupa nova ao Tonho. Embora as tenha em profusão guardadas em seus armários ele sempre usa o mesmo terninho desbotado. O mesmo usado no seu casamento que já se foi no passado.
Tonho costuma dizer que não é mão de vaca. Sovina é uma palavra que não faz parte do seu modesto vocabulário. Mas, quem o conhece, como eu, bem sabe que ele economiza até no papel higiênico. Usa sempre o mesmo, não importa se ele já foi usado. Não acende a luz da sua morada e diz preferir viver no escuro. Faz uso de uma lamparina herdada de sua avozinha. Não aperta a mão dos outros para economizar água da torneira. Já que Tonho é pra lá de asseado.
Tem jeito não. Tonho nasceu num bercinho onde ainda hoje dorme apertado nelezinho. Dispensa camas espaçosas. Dorme cedinho e acorda mais cedo ainda pra não ter de acender a luz do quarto. Ele tem o costume de não assistir televisão. Custa caro pagar as prestações desse aparelho que só da noticias ruins.
Foi num dia desses que estive com o Tonho. Foi um encontro fortuito na porta da sua casa. Era hora da janta. E eu estava com fome.
Quem sabe ele iria me convidar para entrar. Esperava, com a barriga ronronando de fome. Que ele me intimasse para a mesa de comida.
Doces a amargas pretensões. Ele simplesmente me disse, tentando me levar na conversa: “olha meu amigo. Não tive tempo de comprar nadinha de nada. A minha despensa está vazia. Vamos ao restaurante de uma amiga. Ela sim, faz comida boa. E os preços são bem convidativos”.
Eu pensei que fosse apenas um convite amistoso. Que ele iria pagar a conta da refeição.
Ledo engano. Uma vez satisfeitas as necessidades de nosso repasto. Já de barrigas satisfeitas com a ótima comida. Tonho passou a mão no bolso. De lá não trouxe nada se não um ventinho fresco. E disse com um sorriso de vendedor tentando vender um produto vencido.
“Que pena meu amigo. Esqueci minha carteira em casa. Você pode pagar a conta? Depois te reembolso. Com certeza.”
Descarece dizer que eu fiquei no prejuízo.
Dai a minha conclusão. Pau que nasce torto vai morrer do mesmo jeito. Dando adeus de mão fechada. Para não gastar a palma da mão.
Tem jeito não.