“Quem sabe?”

Quanto mais se vive menos tempo temos para aprender.

“Aproveites agora menino! Que ainda és novinho. Presta atenção no que diz a professora. Estudes com afinco. Agora é hora de aprender. Faça as lições de casa. Depois pode ser tarde. Já que sua capacidade de aprender vai estar resumida.”

Assim dizia meu avozinho. Que morreu tentando me ensinar a diferenciar entre o certo e o errado. Mas confesso, até agora não consigo saber onde fica a linha divisória entre o certo e o errado. Já que pra mim é tão estreita quanto o buraco da agulha por onde deveria passar a linha.

Já vivi o bastante. E pretendo continuar a viver por muitos anos mais.

Nunca deixei de aprender. Não me esqueço daquela vez. De quando, na sala de aula, meu professor perguntava: “quem sabe quando e quem descobriu o Brasil”?

Euzinho levantava a mãozinha, todo espevitado e respondia: “professor. Foi Pedro Álvares Cabral. O fulano de tal, vindo de Portugal, aqui aportou no dia 22 de abril de 1500”. Isso sem consultar o Google que nem existia em tempos idos.

Não que gostaria de me mostrar um sabichão. Era sim bom aluno. Tirava notas boas e sempre ficava no quadro de honra.

Não era um sabe tudo. Mas tinha sede de aprender.

Foram-se os anos. O tempo passou inclementemente.

Agora, já vencida a barreira dos setenta. Quase entrando nos oitenta. Quando me perguntam quem sabe deixo a resposta a terceiros.

Eu pensava que tudo sabia. Mas cada vez mais me convenço do contrário.

Cada vez mais sei que menos  sei. E continuo meu aprendizado.

Quando me perguntam quem sabe não levanto mais a minha mãozinha. Espero que outro responda a pergunta. E se a resposta está errada consulto as fontes certas. Não mais me atrevo a dar respostas de imediato, pois elas podem estar erradas.

A vida me ensinou a ser cauteloso. Não ser mais tão afoito. Quem tem pressa come cru e quente. E pode queimar a língua por esse ato apressado.

A pergunta quem sabe ainda me passeia pelas lembranças. Tenho saudades de mim menino aprendendo as primeiras letras. Tentando responder as perguntas da minha querida mestra dona Beliza. De vez em quando errava a resposta. E elazinha não me corrigia de imediato. Singelamente, com aquela vozinha mansa me dizia: “Paulinho, estude mais um pouquinho. Recorra aos livros. E ali encontre a reposta correta”.

Desde então me tomei de amor pelos livros. Tanto é que já publiquei mais de vinte.

Já hoje, na aurora da minha vida. Quando um dos meus netinhos me pergunta se eu sei. Não respondo de pronto.

Faço o mesmo que dona Beliza me ensinou. “Theo, Gael ou Dom. Estudem um cadinho mais. Leiam as páginas daquele livro. É lá que vocês vão encontrar a resposta as suas dúvidas. Não tem professor melhor que os livros. Eles são doutores no aprendizado”.

Essa pergunta quem sabe me remete aos tempos pretéritos. Saudades da minha infância. Tempos bons que não voltam mais…

 

 

 

 

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