Receita de felicidade

Já vi receita de quase tudo.

De bolo de abacaxi. De feijoada, da qual minha mulher é especialista. Diz ela que é light diet.

De arroz com feijão todo mundo já provou e gostou. De arroz carreteiro é só aproveitar a carne do churrasco que sobrou do almoço de ontem. De frango ao molho pardo que coisa gostosa de comer. Já eu não sei fazer quase nada. Apenas e tão somente lambo os beiços na hora de provar e fico a salivar.

Nós, médicos, acostumados a receitar, passamos a vida inteira tentando acertar qual seria o melhor remédio para esse ou aqueloutro causo.  Mas existem doenças que não têm cura. Aquelas de cunho emocional na qual os pacientes renitentes teimam em se enquadrar. Por mais que tentemos nada conseguimos de positivo. E eles voltam à consulta mais e mais preocupados. Prescrevemos de novo e nadica de nada. Eles mudam de médico. Falam mal da gente. Por vezes são encaminhados aos psiquiatras. Que cobram os olhos da cara uma consulta e não dão retorno, pois sabem que, dentre em pouco os pacientes retornam com os mesmos queixumes.

Dai a minha aversão quando um desses pacientes me procura. Já sei de antemão que eles vão sair injuriados novamente. Pois suas queixas são puras balelas. Resultados de uma vida malograda. Frutos de uma árvore que já morreu e resiste a ser ceifada.

E a tal receita de felicidade? Ela existe de verdade? Ou apenas meras quimeras ou devaneios pueris?

Tenho por mim que felicidade não se encontra em todas as partes. Ela se esconde nos lugares mais imprevisíveis. Num lar desestruturado por certo ela não se acha. Entre tapas e beijos ela de vez em quando reaparece quando a celeuma cessa. Na rua chamada Alegria ela tem endereço certo. Naquela casinha tosca, de grades baixas e roseiras no jardim, com certeza a felicidade mora. Onde vive gente de bem com a vida a felicidade encontra guarida. Onde as portas se abrem e não se recusam visitas por certo a felicidade é encontrada. Mas não pensem que em casas abastadas. Onde vivem pessoas ingratas que não sabem agradecer. Ali a felicidade não se deixa ver.

Foi ontem o acontecido. Estava entrando num banco. Não desses bancos onde a gente confere nádegas ao assento.  Ou, para bom entendimento, onde a gente mete a bunda na intenção de descansar nalgum lugar apropriado.

À porta da casa bancária um pedinte esmolava. De mãos estendidas ele me chamou de doutor. Sem saber se de fato era.

“Por favor, meu bom doutor. Dê-me uma esmolinha. Tô com fome de comida. Não como desde a semana passada”.

Pedi um tempo até que saísse do banco. Depois iríamos conversar sobre o seu pedido.

À volta, já com uma importância no bolso da calça, chamei o mendigo a um canto.

Não queria dar-lhe uma esmola sem saber quem era ele. E a razão de aquele rapazola, ainda jovem, esmolar à porta de um banco.

“Qual o seu nome. De onde vens? Já tentou conseguir emprego? Tens boa saúde? Desde quando passa os dias na rua? Tens família? Filhos ou pais? Deixou sua casa por qual motivo? É dependente de alguma droga?

O rapaz olhou-me fundo nos olhos e respondeu, em voz baixa, ao meu interrogatório.

“Meu caro senhor. Já tentei de tudo um cadinho. Sou mecânico de vocação. Aprendi, com meu pai, essa nobre arte de consertar carros. A principio me dei bem. Depois a oficina acabou fechando as portas. Meu pai faleceu. Não conheci minha mãe. Que eu saiba não tenho mais família. Vivo só de déu em déu. Ora aqui e outra acolá. Já tentei de tudo e não deu certo. Fui pedreiro e a construção naufragou. Por culpa não minha e sim de um mestre de obra que roubou todo o material da obra. Fui preso injustamente. Até provar que não fui eu um bom tempo passei entre grades. Agora sou feliz dentro das minhas possibilidades. Tenho um céu onde me abrigar. Estrelas para contar durante as noites estreladas. Vivo melhor assim, sem lenço nem documentos. Como o que me dão. Durmo num banco dessa mesma praça. Se chove me recolho por debaixo de uma marquise. Não tenho mais ambições nenhumas. Sou feliz a minha maneira. Num dia estou aqui e noutro nem sei. Não tenho paranca. Já tive muito e agora nada tenho. Mesmo assim contento-me com o pouco que tenho. Se me perguntar se sou feliz respondo- demais”.

Deixei  o rapaz sorrindo . Grato por ter lhe dado uma nota de dez reais. Pra mim muito pouco. Já pra ele bom demais.

A receita da felicidade pra mim é simplesinha. Não querer muito da vida.  Um cadinho que ela lhe der quem sabe seria mais do que você merece?

 

 

Deixe uma resposta