O ano quase fecha os olhos, em breve nasce outro novinho.
É tempo de renovação. Embora nova idade nos acene no próximo dia sete.
No dia sete próximo estarei um ano mais velhinho. Deixarei meus setenta e cinco para adentrar um ano a mais. Não sinto tanto o peso dos anos. Eles não têm me incomodado tanto assim. Disposição não me falta. Minhas pernas são ainda fortes o bastante para caminhar ou correr devagarinho. Faço bom uso delas. Meu corpo rijo carece de movimento. Meu cérebro anda como dantes irrequieto. Não tenho parança nem desejo de parar de escrever. Penso continuamente. Lucubro sempre o que minha inspiração dita.
Nesse final de ano não me sinto mais velho. A idade não me pesa nos costados. Espero continuar desse jeito anos a fio. Confio na minha vontade. Do passado não me desvencilho. Estou no presente. A passos lépidos em direção ao futuro. Nem sei o que vai me acontecer de agora a algumas horas. Prefiro continuar na expectativa em dias melhores. É isso que me faz sentir vivo.
Naquele começo de dezembro meu amigo e aparentado Juca acordou um ano mais idoso.
Ele e eu nos rivalizamos na idade. Ele tem setenta e seis. Eu um aninho mais novinho.
Juca mora na roça. Somos vizinhos de cerca e de pasto.
De vez em quando nos encontramos. Sempre aos sábados antes dos domingos.
Da última vez foi na semana passada. Percebi, nos olhos do amigo Juca, uma sombra de intranquilidade. Não era do seu feitio perder a fleuma. Sempre sossegado Juca era a paz em pessoa dentro de uma guerra.
Paramos um bom bocado para uma boa prosa. O tempo não era problema pra mim sem solução.
Juca demonstrava um ar de cansaço. Também pudera. Naquela idade, já dobrando a serra, ele, como eu, nunca pensou em se aposentar. “Trabalho não me mete medo. Ócio pra mim é o começo do fim”.
Fui eu quem puxou prosa. Ele a tudo escutava sem dar opinião.
“Juca, como tem passado? Ainda agarrado na enxada? Tirando leite, plantando roça? Não pensas nunca em parar de trabalhar”?
Juca manifestou um cadinho de desassossego. Coçou a cabeça e me respondeu.
“É, na semana que se despediu tive de ir à cidade. A mesma onde vosmecê mora. Tive de ir montado na minha égua pois o caminhão leiteiro estava lotado pelas beiradas. Em duas horas inteiras lá apeei. Amarrei minha cavalgadura num poste e fui fazer umas comprinhas. Pouquinhas como carecia. E fui a um supermercado. Como de sempre lotado. Não tinha mais um carrinho para contar a história. E eu, apressado como sempre, acabei comprando um tiquinho de nadica de nada. Pus as compras no meu embornal. Paguei em dinheiro vivo e a moça do caixa não tinha troco. Ela me ofereceu meia dúzia de balinhas em troca de algumas moedinhas que ela me devia. Aceitei de bom agrado pois não sou de deixar barato aquilo que custa caro. As ruas estavam apinhadas de gente. Parecia que o mundo iria acabar em enchente de pessoas. Cada uma gastando o que não podia e não devia. Eu não tenho nada com isso, mas gastar muito é desperdício. Fui procurar a minha égua. Acredita? No lugar dela só ficou o poste. E ele não sabia pra que rumo ela tomou. Fiz BO na delegacia. De nada adiantou e ficou ainda pior. O delegado não acreditou na minha história. Imagina, deixar uma égua amarrada num poste era meio estapafúrdio. Quase que nem eu acreditava. Deixei pra lá e vim pra cá, de pé mesmo. cheguei aqui na roça bem tarde da noite alta. Cansado, com fome e com medo de lobisomem. E vosmecê acredita que ele me apareceu? Mas não era nada não. Apenas um homem vestido de preto. Um andarilho em busca de não sei o quê. Ai, ai e mais um ai, no ano que vem vou ficar por aqui mesmo, quietinho no meu cantinho, sem arredar pé do meu chão”.
Deixei o amigo Juca a sós com suas lucubrações. E num é que ele tem razão? Tribulações a gente deve evitar. Ficar cada um no seu canto nunca vai perder o encanto.