O dia em que Seu Tunino engasgou

Fazia um frio extemporâneo. Em pleno verão a temperatura mal chegava aos dez graus.

O céu sempre acordava cinzento. A azulice nunca se deixava ver nas alturas.

Naquele meio de novembro, faltavam alguns dias para dezembro começar.

Seu Tunino celebrava seus oitenta aninhos. Ainda rijo como cerne de amoreira. Caminhando ereto com sua coluna tortinha.

Não houve festas naquela quarta feira semana partida ao meio. Nem se lembraram da ocasião.

Seu Antonino, como de fato se deveria escrever seu nomezinho. Para simplificar deixaram por Tunino mesmo. Era um senhor de bom conceito na comunidade. Austero, embora adepto de uma boa piada. Contava lorotas pela cidade. Dizia que, quando jovenzinho ainda, não havia mulheres que escapavam a sua corte. Pegava umas, regateava outras, um partidão disputado. Que quase se elegeu a deputado. Nas priscas eras que já se foram.

Agora, prestes a completar seus oitenta. Não pareciam tantos. Cuidava da própria saúde. E ele a tinha de ferro. Uma gripinha ou outra de vez em quando o fazia tossir.  E não se medicava. Tomava um chazinho receitado pela vizinha. Com quem diziam ter um causo.

Naquele ano, quase fechando os olhos de sono, Seu Tunino amanheceu resfriado.

Uma tossezinha seca era tida como começo de uma gripe das grandes.

“Cuidado Tunino. Essa gripe pode degringolar e mudar para uma pneumonia das graúdas.”

Diziam os amigos chegados.

Mas seu Tunino não era de se preocupar com doenças.  Tomava um remedinho aqui, um chá de dona Camila acolá. E no passar dos dias a tosse secava. E a gripe a ele pedia paz.

Naquela quarta feira o pior aconteceu.  Seu Tunino só não morreu por ainda não ter chegada a sua hora.

Como de costume ele deixava a dentadura dormir dentro de um copo d’água. A espera de voltar a sua boa na manhã seguinte.

Ele quase não pregou os olhos durante a noite inteirinha. Tossia de meia em meia horinha. Do seu lado dona Mariquinha também não conseguiu dormir.

Lá pelas tantas da madruga. Quando Seu Tunino foi ao banheiro aperreado para urinar.  Tossindo pelas orelhas. Meio tonto zanzando sem conseguir chegar ao seu destino. Lembrou-se da dentadura. Enfiou elazinha na sua goela. De repente tossiu. A danada entrou garganta adentro e quase foi engolida. Foi salvo pela sua querida Mariquinha. Que o livrou da apertura de quase ter engolido a dentadura. Que ficou entalada no meio do caminho entre o esôfago e a traquéia.

Até hoje Seu Tunino não se esquece das recomendações da sua dona. Quando ela lhe diz: “Tunino. Da próxima vez não se esqueça de tossir pra fora. Tossir pra dentro pode fazer mal a saúde”.

E não é que dona Mariquinha está coberta de razão? Principalmente quando em uso de uma dentadura meio frouxa.

 

 

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