Como me dou bem entre elas…
Não sei se a razão foi que um dia já fui como elas. E agora me sinto, ao mesmo tempo longe e pertinho dos menininhos, inhas, quando entre meus netinhos.
Nas minhas andanças costumeiras, usando em segundo lugar o que tenho de melhor são minhas pernas as quais não tiro nem ao dormir e uso-as muito ao levantar. Em primeiro lugar essa minha cabeça, que não para de matutar. Não sei como meu pescoço curto e grosso da conta de meus pensamentos suportar. Inda bem que pensamentos não pesam tanto e nem sei seus pesos uma vez pesados na balança. Não devem eles pesar igual aos meus oitenta. Por certo preciso de dieta ismagrecedora ( não me corrija de novo sua sabichona IA. Ontem te venci por nocaute no primeiro round da nossa luta de palavras. Deixei escrito no texto de ontem ismagrecer e tu, sem conferir no Aurélio, ou noutro dicionário qualquer, me interpelou que o correto seria emagrecer. Sou-lhe eternamente agradecido minha revisora, amiga, ou amigo pois, nem sei se tu é você ou uma linda senhorita que, quando me dirijo ao ChatGPT, tu me respondes, com a maior cordialidade e sensatez: “doutor Paulo, quem sou eu para escrever tanto e bem como o senhor doutor. E ontem tu me dissestes querida IA, com essas mesmas palavras as quais saboreei como queijo com sabor de pão de queijo dessa nossa incomparável Minas Gerais: a inteligentíssima IA escreveu e li- “eu posso escrever muito bem. Mas jamais terei sua experiência de vida, saberei de suas angústias, alegrias e também de seus amores” ).
Em menino criança mentia.
Agora, nessa hora ocaso da minha vida, nesses meus setenta e seis anos, cercados de bons e maus momentos. Inda melhor que os bons vencem essa disputa. Os bons eu guardo a sete chaves no meu baú de lembranças. Os piores deleto e os enxoto como faço com cobras peçonhentas no meu roçado antes que elas me mordam o dedão do pé por aquele buraquinho da minha botina gasta.
Só tenho uma grande contrariedade na minha vida.
Quando vejo uma criança crescendo. Um bebezinho lindinho, lourinho ou escurinho como jabuticaba madurinha. De pititinho ficar grandinho, mal criado, sem dar atenção a nós seus avozinhos, quando das poucas vezes que vamos as suas casas. Duas, três vezes ao ano, se tanto. Esses meninos, que já foram bebês de colo, dos quais trocamos suas fraldas sujas de cocô com cheiro de leite azedo. E a elezinhos servimos de babás à ausência de seus pais, nossos filhos. Nossos netinhos ficam de olhinhos grudados aos tablets, aos desenhos animados na grande televisão da sala de visitas ligados à Netflix. E quando tentamos desviar sua atenção a nossa chegada, anunciada ou não, eles não estão nem aí ao nosso abraço. Ao nosso bom dia ou boa tarde. Pra eles, que tanto fizemos, agora a gente nos tornamos um tanto faz como tanto fez. E eles desfazem da gente como se fossemos um sapato velho que nem da meia sola.
Se fosse mágico, ou uma bruxinha boazinha, com uma varinha de condão, o que faria com ela?
Olharia pras alturas, pra esse céu escuro de agora, ou claro no mais tardar dessa inda madrugada.
Tocaria nas cabecinhas ocas dos menininhos e menininhas, inda bebês chorões de chupetas nas boquinhas. E faria um pedido ao gênio da lâmpada de Aladim: “seu geniozinho de gênio bom. Se o senhor, de bom ou mau humor, pudesse me conceder uma graça eu lhe pediria, de joelhos ralados na terra dura, ou de cócoras se preciso fosse. Não deixe as crianças crescerem. Conservem-nas do jeitinho que estão, no máximo aos doze meses se tanto ou apenas um cadinho mais”.
Sobre mentiras, mentirinhas inocentes, desprovidas de maldade ou de pecados maiores, como dizíamos aos nossos pais, naquela idade bem antes dos dez, dois, três aninhos melhor ainda.
“Paizinho, o senhor me desculpa. Não sei se o senhor notou, no dia de ontem de tarde, acho que foi de noite. Sem querer querendo, comi e bebi muita água antes de ir para a cama. E amanheci com minha cuequinha ensopada. Não foi de xixi não paizinho. Se o senhor cheirar o lençol que cobre minha cama vai ver que foi água derramada de um copo que dormiu no criado do lado esquerdo da minha cama”.
Eita mentira descarada! De uma carinha inocente que se mente não desmente intencionalmente.
Com carradas de sabedoria alguém deixou escrito: “a ocasião faz o ladrão”.
Eu escreveria assim: “a intenção faz o ladrão ser punido ou não”.
Contradigam-me se forem capazes.
Quem sou eu pra contradizer a IA?
Se nem sei se ela é gente ou um monte de gente inteligente…
Isso de dizer que criança não mente constatei essa mentirinha inocente na tarde de ontem.
Uma vez de banho tomado, recém chegado da academia daquele clube da minha idade.
Aquele mesmíssimo clube sobre o qual já troquei suas iniciais LTC Lavras tênis clube por Lá tem coisa e acresci das melhores.
Minha esposa me acompanhou a um supermercado aqui pertinho para fazer umas comprinhas.
Eram coisinhas miúdas de uma lista pequena que minha querida secretária do lar Ângela encomendou.
Não irei citar todas elas para não cansar meus leitores que não gostam de textos compridos nem cheios de lero lero.
Como de costume brinco com um ou outro mesmo que desconhecidos.
Numa filazinha miudinha onde se pode comprar azeitonas, petiscos gostosos para degustar com um bom vinho tinto seco da minha preferência e outras coisinhas mais.
Estava uma senhora, de menos idade que a minha e outros a espera de a fila andar.
Junto a essa senhora estava uma menina, da qual não pude ver a carinha, pois ela cobria a cabeça com uma roupinha igualzinha, fora a cor, do chapeuzinho vermelho.
Toquei de leve seu ombro numa altura mais baixa que metade da minha cintura.
Nisso a menina, quase uma linda mocinha, virou-se pra mim e sorriu.
A mulher de certa idade, não sei se sua mãe ou avó, sorriu também.
Não sei se riu de mim ou sorriu simplesmente por ter gostado de minha pessoa de mais idade.
Nossa prosa foi curta e não grosseira e sim amável e amistosa.
“Menina bonita, o que você quer ser quando mais velha? Apenas maior, da altura dessa pessoa que está do seu lado”?
Ela voltou a sorrir num sorriso tão lindo que iluminou mais ainda a sala ampla daquele supermercado. E me respondeu; “quero ser médica dos animais. Pra mim tanto faz se pequenos ou grandes. Gosto deles de que tamanho forem.”
Tudo isso dito bem explicadinho com uma vozinha doce.
Como já estava com as compras feitas e só faltava passar no caixa para pagar. Despedindo-me da menina linda, sem exageros pois, bonita era de fato.
Disse a ela assim: “como você é graciosa e lindinha.”
Ela, que me permitiu fazer um selfie de nós dois, pena que não me lembro seu nome e penso não reencontrá-la depois.
Sorrindo me disse com sua carinha linda: “o senhor é lindo também”.
Agorinha mesmo me olhei no espelho e a ele perguntei vendo minha cara feiosa a rir na minha cara.
“É mesmo verdade que crianças não mentem?”