Felicidade é um estado duradouro de plenitude, satisfação e equilíbrio emocional, indo além de momentos de prazeres passageiros. Envolve viver com propósitos, gratidão e coerência com próprios valores, sendo muitas vezes encontrada na simplicidade e no cotidiano. Ela não é um destino final e sim um modo de vida.
Bela definição essa que tirei de um texto escrito por algum letrado. Talvez nem eu faria uma descrição tão inspirada do que seja felicidade. Eu a retrataria assim, em minhas próprias palavras: “ser feliz não se consegue a cada dia. Dias existem que ela nos abandona. Não dorme ao nosso lado como a nossa dona. Não tente sorvê-la de um só gole. Cuidado para não se entalar com ela caso a abocanhe com muita fome. A felicidade não desaparece à mercê da idade. Ela nos entra poros adentro devagarinho como um riachinho escorre em direção a um mar bravio. E também a tenho como a uma pessoinha muito querida e amada. Não a trate com descaso, pois um dia você vai tentar reencontrá-la na rodoviária de alguma cidade. Mas pode ser tarde pois ela, a tal felicidade, já tomou o ônibus que partiu horas antes de você de você chegar atrasado”.
E outra vez indago, sem saber a reposta a minha indagação: “onde se pode encontrar a felicidade por inteiro em letras inteiras? A palavra FELICIDADE, em letras maiúsculas sim, tem dez letras. Começa no F e finaliza com E.
Já a minha felicidade começou ao ser embrulhado naquela mantinha protetora que uma enfermeira me agasalhou numa maternidade que, nem sei se foi num hospital ou no quarto de minha própria morada. A cidade não foi essa que tenho como minha. E sim noutra de nome Boa Esperança. Outra tão bela cidade hoje banhada por um mar de águas de outra represa que tenta domar as águas de um rio que já foi grande. Esse mesmo Rio Grande que corre e tenta escorrer em direção ao mar.
De novo reencontrei a felicidade anos mais tarde. Quando, já mais crescidinho nem tanto, pois agora não meço mais que metro e mucado. Quando levei meu boletim com notas altas ao meu pai e ele disse orgulhoso: “meu filho primogênito. Parabéns pelas notas altas. Um dia você, além de ser grande, vai ser um grande médico especialista em Urologia. E ainda vai me operar de próstata. E bem sei que tudo vai correr muito bem”.
Mal sabia ele que euzinho, seu filhinho amado, que minha mãezinha, ao me puxar as orelhas quando eu precisava, me chamava as falas de Paulinho. De novo reencontro a felicidade quando aqui chego bem cedinho, a minha oficina de trabalho. Inicio esse computador sofredor. Espero impacientemente que ele emita sinais de vida. E enfim começo e termino uma crônica das tantas outras que tenho presas inafiançáveis num arquivo qualquer.
Dona Josefa e seu amado marido, com quem vive há mais anos de quando essa árvore mais que centenária enfeita, ainda de pé na praça principal de minha amada Lavras. Cujo nome todos os lavreanos sabem de cor- Tipuana. Seu Zito dos tantos sobres. Entre eles Abreu como o meu derradeiro, como do meu pai.
Dona Josefa, assoberbada de trabalho, não tendo horas para descanso. Recostada e inclinada na rede onde balançava sutilmente. Sentindo-se infeliz dada a uma pertinaz enfermidade que a acometeu devido à idade avançada. Uma artrose no quadril que a impedia de caminhar léguas junto ao marido amado, Seu Zito Abreu. Naquela rede balouçando lentamente indolentemente. Quando tentou e retentou se levantar cuidadosamente acabou caindo ao chão duro de cimento. No ímpeto da queda sentiu uma dor imensa na parte de trás de sua coluna já torta com o passar dos anos.
Não bastasse tamanho infortúnio Dona Josefa ainda fraturou uma vértebra alta da sua coluna cervical. Condenada a ficar paralitica quase total. A usar uma cadeira rodante pelo resto de sua existência que pensava ser muita. Com aquela expressão de sofrimento na cama de um hospital. Já operada sem resultados positivos. Mexendo apenas com os olhos inexpressivos. Sem perspectiva nenhuma de voltar a se por de pé.
Ao receber pela vez primeira a visita do amado marido Zito. Sentindo-se a última das mulheres na face dessa terra onde passou tantos anos feliz ao lado do seu amado.
Dona Josefa, sem sentir a metade inferior do seu corpo insensível do tórax ao dedão do pé.
Com os olhos lacrimejantes rasos d’água.
Ao seu amado Zito perguntou: “Zito, meu querido companheiro. Ainda, mesmo cortada ao meio. Sem sentir meu corpo por inteiro. Paraplégica condenada a não me livrar dessa cadeira de rodas. Penso ser feliz ao meio. Na minha cabeça sou feliz por inteiro. Meu pescoço ainda é feliz ao poder girar e ver você, meu amado Zito, do outro lado. Meu peito ainda é feliz quase por inteiro. Meu coração bate feliz quando te vê e acelera os batimentos. Mas, infelizmente, do abdome pra baixo a infelicidade me domina totalmente. E faço essa pergunta a você- existe felicidade pela metade”?
Eu não sei. A minha felicidade mora dentro de mim mesmo. E a encontro sempre que aqui estou a escrever…
Ela se mostra por inteira. Não pela metade como podem ler.