Identifico-me

Não me lembro bem da minha primeira carteira de identidade.
Aqui detrás de mim um retratinho meu, talvez com dois ou três aninhos. Não sei precisar se aqui em Lavras ou na cidade onde nasci.
Nos ombros do meu saudoso pai, minha mãe ao nosso lado. Euzinho, lourinho, sorridente, de bracinhos erguidos simulando o mesmo gesto do meu pai. Sorria mostrando minhas gengivas. A fotografia não deixava ver se meu dentinho de leite já havia brotado.
Com fotografias antigas como essas me identifico.
Embora com o advento dos celulares as velhas fotografias, reveladas numa salinha escura.
Que os lambe lambes das praças e jardins costumavam fazer em tempos idos.
Quase não mais se vêem velhos álbuns onde nossas imagens em preto e branco eram grudadas. E descoladas quando dadas de presente aos fotografados.
Me sinto bem como agora me sinto. Livre de maus olhados. Da inveja e da cobiça que outros possam olhar pra mim. Olhando-me de rabo de olho. Como se eu fosse um ET. Um aloprado, sujeito médico que muitos pensam ser mais um aposentado vivendo às custas do que nos dá de esmola a falida previdência social.
E como me sinto ótimo ao ver meninos. Deixando a porta das escolas. Sejam em uniformes azuis ou verdes como foram os meus nos tempos de colegial. Quando me reconhecem quando por eles passo. Fazem questão de tirar fotos comigo. Até mesmo fazendo curtas entrevistas como se eu fosse uma celebridade. Na minha idade, se fosse eu celebridade. Não estaria andando como tenho o costume. Sim num belo carro, vidros escuros e blindados. Um motorista uniformizado vestido num elegante terno preto conduzindo minha limusine branca.
Na tentativa malograda de escapar do assédio dos sedentos fãs.
Ponho-me feliz rindo à toa. Numa prosa boa com gente que fala a mesma língua. Que não se sinta a derradeira e melhor bolacha do pacote. Melhor seria se num grupinho alegre de crianças. Pena que um dia elas crescem e deixam de ser crianças…
Permito entrar dentro de mim. O riso fácil de quem sabe rir. Mas não me coloquem em meio a um grupelho de pessoas que discutam aos tapas, ofensas e palavrões. Gentinha mal educada que fala pelos cotovelos. Não dão tempo a outros falarem. Pensam que somente suas opiniões, ideias devem prevalecer.
Não me sinto a vontade entre pessoas que só olham na direção pra onde aponta o seu nariz. Que não se tintam no verniz da educação e fidalguia. Que olham os outros de cima sem sequer saber que. Um dia estamos em baixo. Noutro a situação se inverte. E não se diverte com isso.
Agorinha mesmo saiu daqui uma pessoa com a qual. Desde que fomos apresentados. De começo me identifiquei muito.
Não o conhecia desde aquele domingo caminhando naquela linda praça.
Ele usava máscara; mas não era mascarado.
Encontramo-nos num lugar onde vendia pastel.
Acabara de comer um de queijo e beber uma laranjada.
Ele achegou-se ao meu lado.
Não sei como alguém, usando máscara, pode comer pastel ou o que o valha.
Achei estranho, mas passamos a prosear como velhos amigos. Embora conhecidos de pouco.
Não sei se ele me conhecia as duas metades: a de urologista e escritor.
As duas se confundem e se completam.
Graças ao bom Deus.
Seu nome é Edmilson, mais conhecido por Cafu.
Ex jogador de futebol no time que torcia quando estudante de medicina em Belo Horizonte.
Agora mudei de esporte. Da bola redonda que corria pelos gramados pra uma menorzinha que duas raquetes lançam pra cada lado da quadra.
Até a ele ser apresentado desconhecia se existia jogador de futebol escritor.
Mas Cafu era. Não de crônicas como as minhas nem romances ele escrevia.
Era autor de livros infantis.
Hoje, esse domingo maravilhoso, numa padaria aqui perto. De nome de uma pedra dura como rocha.
Ele veio, de máscara branca. Assentou-se ao meu lado.
Como já havia pago a ele um café no mesmo lugar. Dessa vez a conta ficou pra ele.
Convidei-o a vir comigo ao consultório. Onde ainda estou.
Que prosa boa, falamos na mesma linguagem, literatura. Não política, futebol e religião.
Dei a ele um pequeno romance de presente.
Identificamo-nos desde a primeira vez.
Cafu, quando você, com sua simpatia daqui saiu.
Como estava caçando inspiração pra escrever.
Lhe disse Eureka!
Identifico-me muito com você.

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