Ontem mesmo, cedinho como sempre, vindo do meu novo apartamento em direção a onde estou agora.
Assim que me aproximei dessa linda praça por onde passei.
Um cãozinho negro andava ao meu lado.
Percebi nele certa intranquilidade.
Eu andava a passadas lentas. Ele bem depressinha.
Era um cãozinho de rua. Não mais filhote. Mas inda pequeno.
Uma pelagem negra revestia seu interior.
Por mais que quisesse andar na sua velocidade ele era bem mais veloz que meus passos lépidos.
Não tive tempo de a ele perguntar. Por certo elezinho não me daria nenhuma resposta: “por que tanta pressa meu amiguinho? Pra onde vai tão cedinho? Tens algum encontro marcado? Alguma cadelinha, umazinha sua namorada o espera nalguma encruzilhada? Espere um cadinho. Se tens fome vem comigo à Santa Casa. Esse especial hospital. O qual admiro tanto e tanto nossa amada Lavras deve a ele. E ele a ela. Você nasceu nalgum lote vazio ou numa rocinha aqui pertinho? Tens ideia de quem seja tua mãe? Tens irmãos?”
Nosso monólogo, já que só eu falei e ele nem latiu. Simplesmente me ignorou. Atravessou a praça correndo de medo de outros cães latidores que por certo ali moravam. Marcando seu território a latidos ferozes.
Esse, e outros cães que vira-latam pelas cidades. Cavoucando sacos de lixo. Alimentando-se daquilo que nós, ditos humanos. Descartamos, embora nossa humanidade mais cheire à desumanidade.
São pra mim e bons entendedores. Exemplos típicos do abandono.
E como nós, brasileiros e brasileiras, brasileirinhos meninos. Estrangeiros que aqui chegam e logo passam a amar nosso Brasil pensando ser realmente nossa pátria amada gentil.
Essa gentileza toda desaparece pelas ruas. Ao vermos, como tenho visto. Sem tetos, carentes não apenas de afeto como passam fome e mendigam migalhas de porta em porta. A outros, insensíveis, pouco lhes importa a miséria que grassa. Mais que ervas daninhas que infestam como pragas num jardim. Antes bem cuidado e ora invadido pelas tiriricas, ervas daninhas e afins.
Tenho usado minhas pernas andarilhas mais ainda de quando aqui pertinho morava.
Hoje moro não nesse apartamento nesse beco sem saída onde morei alguns poucos anos.
Mudei de lugar. Tentando mudar o curso de minha vida. Não sei por quanto tempo nesse outro lugar aprazível viverei. Na idade em que me encontro importa-me mais o hoje, o agora e menos o amanhã que está por vir.
Um cadinho feliz, incerto daquilo que me reserva o por vir, vivo, penso muito, leio menos que deveria. E tenho escrito muito mais. Se bem? Se mal? Se mais ou menos não serei eu pra julgar. Deixo a avaliação de vocês que me honram e me envaidecem dizendo apreciar muito meus escritos.
Abandono.
Palavra forte, pra mim cruel, vestida de negro como urubus adultos. Desprovida de afeto, de amor. Um tudo sem nada.
Abandonar alguém, que seja um cãozinho de rua. Como esse pretinho que junto a mim escapou ileso de dois cães moradores daquela linda praça.
Pior ainda ver criancinhas sem lar. Morando nas ruas. Esmolando nos semáforos. Tentando vender paçoquinha quando a luz vermelha do sinal de trânsito no intervalo fica verde.
Pedintes de mãos estendidas, gente que foi como nós. Agora perderam a cidadania e fazem das drogas medicamentos pensando serem eles indutores do sono.
Não consigo entender como.
Pessoas esclarecidas, moradores de boas casas. Que podem dormir em camas confortáveis. O sono pra nós escasseia. As noites se tornam vazias de sossego e lotadas de insônia.
Foi inda agorinha mesmo o acontecido.
Vi a madrugada bocejando de sono.
Eu já desperto horas antes.
Caminhando sempre pelas ruas vazias do meu apartamento.
Subindo pela famosa Rua Santana vendo lojas de portas fechadas. Era inda bem cedo.
Tirando fotografias com meu celular embora não seja nenhum expert.
Muitas delas selfies.
Quase chegando ao meu destino. Que era onde estou.
Despertou-me a curiosidade não de fotógrafo e sim de escritor.
Não somente uma mala enorme. Dentro dela perfeitamente caberia seu dono.
Esse presumível dono dormia a sono pesado do lado da mala. Coberto da cabeça aos pés por um surrado lençol listado.
Não há como amar a essa mala.
Deve ser uma mala vazia de um dono vazio de afeto.
Desses tantos que perambulam pelas ruas carentes de tudo.
E nós, que tudo temos. De teimosos que somos. Deixamos nossa teimosia de lado.
Não nos enchermos de sensibilidade. Botemos nosso lado bom a funcionar.
E lotemos essa mala vazia de amor ao próximo. De carinho aos nossos semelhantes.
Essas incontáveis malas abandonadas por certo desaparecerão das ruas das cidades.