Pra tudo tem um jeitim

Embora pau que tenha nascido torto nem à marteladas se pode desentortar.
Pensando que na vida tudo passa. Até uva, se amassada e pisada pode, ou virar vinho ou passa a ser passa.
Tudo pode ter conserto até o desconserto de um concerto musical. Quando o maestro da orquestra, com sua varinha tremulando numa das mãos. Com seus ouvidos escutadores escuta uma nota. Não aquela de duzentos reais tão em falta nessa crise que atravessamos.
O condutor da orquestra ouve um dó. Que deveria ser seguido por re mi fa sol. E o sol não aparece entre nuvens cinzentas. Ele, exigente, impertinente, diplomado pós graduado em música num conservatório bem conservado. Tenta, com sua batuta curta dar um jeitim naquele menino da flautinha doce que desafina fininho. Mas elezinho não toma jeito.
Esse breve preâmbulo me fez lembrar um velho conhecido, de muitos anos.
Que nem sei mais se ele tem ainda alguns ou não sobrou nenhuma velinha para assoprar no seu enorme bolo.
Quando éramos vizinhos de cerca. A do ladinho dele era bem feitinha e a minha puro desmazelo.
Mané Burduada, era esse mesmo seu nome não apelido.
Esquisito né? Meio ou inteiro esdrúxulo.
Esse nome feio foi-lhe dado por seu avozinho querido. Que não o pariu mas bem que gostaria.
O nome de batismo do pai do seu pai era Tunico Fudido. Pior ainda que o seu.
Se minhas lembranças não se equivocam Mané era e penso ainda ser pau pra toda construção.
Pedreiro por profissão. Antes servente que servia mais que eu.
Carpir mato era com ele mesmo.
Foiçar a pastaria era sua especialidade. Vaidade nenhuma ele tinha.
Mais careca que bola de sinuca. Ao se olhar no espelho não conseguia ver a própria nuca.
Eunuco não por ter desejado, isso jamais lhe passara pelos miolos desmiolados.
Num infausto dia, quando Manezinho ainda. Garotinho serelepe, verdadeiro moleque doce como pé de moleque adocicado cheio de açúcar cristal em riba ele derramado.
Mais feio que mula manca cheinha de carrapatos e inda por cima estropiada contadora de piadas desprovidas de graça.
Um dia Mané Burduada, aos quarenta e cinco anos. Não ânus pois, isso só tinha um e nunca me visitou aqui no consultório embora já conhecesse meu lado escritor e não doutor urologista.
Não mais acostumado a prosear consigo mesmo; nem com as paredes.
Como pouco sabiava de cozinha. Nem o básico sabia fazer um arrozinho mal acompanhado de feijão preto ou roxinho. Lavar roupa suja, fosse num tanquinho ou no corregozinho que passava atrás de sua casinha na sua rocinha lucrativa. Não prejuizenta como a minha.
Faxinar também não era sua melhor vocação. Nem pra padre ele servia. Já que uma vez frater, ou noviço, iria comer sem garfo ou colher todas as freiras do convento.
Naquele final de mundo imundo. Na data exata que completou quarenta e muitos. Sentindo-se um cão escorraçado por ter sido expulso do paraíso apenas por ter comido uma mocinha inda virginal e de verdade não era.
Mané Burduada, pensando-se solteiro convicto e inda não convencido.
Ao ver uma linda ( mais que menos), rapariga rodando bolsinha pertim de onde morava.
Não teve dúvidas.
Caído de amores por ela. Depois de um namoro entremeado de muitos tabefes, insultos, de parte a outra.
Ao revés de comprar uma bicicletinha de rodinhas ajuntou os panos aos dela.
Mas que cadela era essa elazinha.
Tianinha, era esse seu prenomezinho.
Não se ajuntou com ele e sim com seu minguado cartão de crédito.
Que nunca era aceito em qualquer estabelecimento. Já que a tal maquininha dizia sempre: “não tem fundos esse cartão vencido”.
Tianinha, que se dizia purinha como água limpinha da mina. Era mais sujinha que a do esgoto que escorre a céu aberto pelas ruas mais sujismundas da cidade.
Em dois meses já estavam separados. Nem sexo ela deixou acontecer.
Num dia ela se dizia com enxaqueca. Noutro virava na cama e ia dormir no sofá.
O que já estava ruim azedou bem pior nesse mês de setembro já na primavera.
Tianinha mundana encheu as mochilas surradas com coisas dela e outras não.
A maior parte eram pertences do desiludido Mané Burduada.
Desde antão Manezinho, tristinho, voltou a confabular com as paredes e elas lhes deram ouvidos.
De novo a triste, enfadonha, macambúzia, solidão.
Ontem encontrei com Mané dando burduada não sei no que.
O home tava com uma reiva danada.
Cuspia marimbondos pelas narinas inflamadas.
Tossia e engasgava.
Para tentar atenuar a intranquilidade do amigo. Não tanto quanto pensava.
Já que perdi a conta de quantos calotes ele me deu e ainda me deve muito.
Mesmo assim, como sou uma alma mais ou menos boa. Falei nos seus ouvidos desse jeitim: “Mané, carma. Se isso for seu carma sossega. Pra tudo se pode dar um jeitim. Só na morte não tem jeito. Ela é muito desajeitada”.
Num é que no dia seguinte Mané morreu?

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