Entre a razão e o coração

Para os poetas, pessoas de intensa sensibilidade, o coração não é apenas aquele órgão propulsor de nosso sangue, composto de quatro câmaras perfeitamente interligadas, que se para de bater num instante apenas, se não nos acudir a tempo nossa vida se esvai como as águas de um ribeiro, depois de uma chuvarada forte acaba caindo em forma de cascata, cenário lindo que encanta nossos olhos.

Blaise Pascal já dizia: “o coração tem razões que a própria razão desconhece”.

E de que lado fica a razão? Pode ensejar uma acalorada discussão: “eu tenho razão. Fui eu quem comprou aquele pedaço de terra suja. Você nunca teve interesse de naquele lugar ir comigo. Sempre fui só e arquei com os prejuízos que me davam a atividade leiteira. Passei mais de trintanos ali levando ração a dar as vacas e trazia na carroceria da minha caminhonetinha apenas poeira, esterco e carrapatos a importunarem-me com aquela coceira enjoada. Era essa a discussão que com minha esposa mantinha quando ainda tirava leite mesmo não sabendo a razão de o leite ser branco saído de uma vaca pretinha”.

A celeuma não parava por ai e ia acolá.  A minha esposa argumentava e aumentava ainda mais a discussão com esses argumentos vistos em lente de aumento: “ah! Quer saber? A sua rocinha prejuizenta não é apenas sua e minha também. Quando você chegou doutor da Espanha, todo  metido fumando cachimbo sem nunca ter pitado cigarro, usando aquela barba castanha e ainda cabeludo, usando nos três hospitais um tamanco tipo que usam nos centros cirúrgicos espanhóis, quando manifestou o desejo, pensando que todo médico podia ser fazendeiro do asfalto, e quis comprar aquela rocinha que só lhe dava trabalho e nada de retorno ao preço de quase cinquenta mil reais fui eu quem tirou todas as minhas economias da poupança e anda tive de vender meu carro da marca Ford, um Del Rey último tipo”.

Difícil, quase impossível saber de que lado estava a razão.

Fizemos as pazes, entramos em acórdão. De nenhum lado estava a razão. Parece que foi o coração que nos aconselhou tiquetaqueando lentamente dizendo assim: “olha meu casal de muitos anos de convívio em meio a tempestades e trovões. Aquietem-se, vivam em paz. Desse jeito belicoso não vale a pena viver em eterno conflito. Ocês dois tem uma vida inteirinha juntinhos. Dez anos de namoro e mais de não sei quantos de casados. Geraram dois lindos filhos que lhes presentearam com três netinhos mais lindos ainda. A rocinha que lhes causa tanta preocupação por que não a vendem? Fiquem só com a bela casa beira represa. passem mais dias e noites por lá e não como me parece buscar fogo antes que a chama apague. Aquela casa sim mais parece um cenário de filme americano. Aluguem-na para gerar lucro. Incentive seus filhos e netos a passarem mais tempo naquele lugar. Lá tem um barco onde podem navegar nas águas plácidas da represa do Funil. Uma piscina onde podem relaxar na hidro  que é só botar pra funcionar. Dois cavalos lindos de cor pampa que se parecem irmãos. E, se não bastante tudo isso desfrutem das frutas do seu pomar e as verduras que o caseiro meio aloprado  planta. E mais um conselho lhes dou-  deixem seus dois cães soltos para vigiarem, e se as capivaras ousarem entrar no seu recinto com certeza tanto Clo como o Robson, o pretinho, vão escorraçá-las prontamente”.

Enfim a discussão serenou de vez.

A razão foi divida entre os dois.

E quem foi o mediador que pôs fim à celeuma?

Sábio dito por Blaise Pascal: “o coração tem razões que a própria razão desconhece”.

Vem de ai a minha conclusão: “quem fala de coração tem sempre razão”.

 

 

 

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