Alegria de pobre dura pouco

E como fazia frio naquela manhã, começo de setembro.

A escuridão predominava. O céu, casmurro e emburrado, parecia de mal com a vida.

Sua azulice estava trancada a sete chaves. Parecia que ia chover.

Bem antes das cinco Tom Zé se preparava para mais um dia de labuta.

Era de seu costume acordar bem cedinho. Ao cantar do galo e cacarejar das galinhas elezinho já estava de pé.

Deixou a ceroula dependurada no cabide. Que lhe servia de pijama. Vestia a mesma calça desbotada rasgada nos fundilhos. Tomava um cafezinho nem muito morno nem muito frio.

E deixava a solidão de sua morada para dar um chute nas tarefas daquela segunda feira ainda meio sonolento. Caminhando trôpego até chegar ao curral onde suas vacas já o esperavam mugindo de fome, já que a pastaria ressequida nada lhes oferecia pra comer.

Tom Zé vivia na própria companhia. Acostumou-se a solidão desde que sua derradeira amásia o deixou.  Ela, mulher de vida fácil, embora considere difícil a profissão de rameira. Pois elas se deitam com qualquer um. Não para dormir e sim para vender seu corpo a troco de alguns tostões. E fingem sentir prazer. E elas não têm direito a férias nem carteira assinada.  Pois mal sabem ler ou escrever.

Tom Zé, com seus mais de cinquenta anos bem vividos. Nunca conheceu o mar. Vivia entre as montanhas de Minas.  Naquela rocinha perdida entre onde a vista mal alcança. Pensando um dia descansar. Férias nem pensar. Consumido pelo trabalho. Envelhecido prematuramente. Quem pra ele olhasse com certeza lhe daria mais anos que ele tinha.

Naquela quase primavera Tom Zé, naquela segunda recém amanhecida. Recebeu um convite para viajar.

Era a chance com que sempre sonhou. Pisar as areias branquinhas de uma praia. E provar e comprovar se de fato as águas do mar eram salgadas como diziam.

Mas como deixar sua amada rocinha ao Deus me acuda? Se ele não tinha sequer um aparentado, um fulano ou um sicrano qualquer para tocar seu negócio.

Olhou pra suas vacas com olhos de puro enlevo e desvelo. Elas olharam pra ele como se dissessem:”por favor, não nos abandone. Amamos você.”

Era a oportunidade única em sua vidinha singelinha.  Que só aparece de vez em nunquinha.

O preço era mais que conveniente. Saída numa sexta feira que se avizinhava. E a volta no domingo antes da outra segunda.

Tom Zé não pensou duas vezes. Pagou à vista sem perder de vista a viagem dos seus sonhos.

Deixou sua rocinha aos cuidados de um primo que lhe parecia confiável. Mas se provou, mais tarde, ser um velhaco de conduta nada respeitável. Pois, ele acabou afanando duas das melhores vacas.  Que não estavam mais na sua querida amada rocinha a sua volta.

Tom Zé chegou à rodoviária bem cedinho. O busão iria partir, como combinado, as sete em ponto sem vírgula.

Uma hora se foi. Duas se perderam. E nada de a viagem começar.

Tom, meio desconfiado, descrente da vida, foi ao balcão reclamar do atraso.

De repente apareceu a jardineira que parecia meio triste.

“O que foi que te aconteceu, seria por causa da camélia que morreu”?

O velho ônibus pareceu meio desenxabido. Com a lataria amassada, pneus carecas e motor quase fundido. Mesmo assim Tom Zé embarcou desconfiado.

“Será que essa coisa chega ao Rio de Janeiro”?

Com um empurrãozinho a coisa andou. Devagar quase parando.

Para subir a serra foi um deus me sacode. Para descer cadê os freios?

Acreditem se quiserem. Aquela coisa que rodava acabou tendo os pneus furados. E como não havia estepe como fazer aquela jardineira chegar ao seu destino desatinado?

Os passageiros tiveram de chegar a praia andando naquele trânsito ensandecido já tarde da noitada. Tom Zé nem teve tempo de vestir o seu calção samba canção. Teve de entrar no mar de cueca mesmo. Tomou um caldo gelado, já que fazia frio na praia de Copacabana, quase se afogando na primeira onda que veio e voltou com ele ao fundo do mar. Foi salvo por um salva mineiros. Caboclo parrudo que nele fez um boca a boca que quase o fez vomitar de susto.

A viagem de sonhos terminou em pesadelo. Depois de provar água salgada do mar, que mardade fizeram com o pobre Tom Zé.

Acontece que elezinho perdeu todos os seus documentos no fundo do mar. E foi preso por vadiagem. Justamente ele, um trabalhador consumido e contumaz.

 

Passou três dias inteiros entre grades. Por sorte dele, ou seria azar, Tom Zé foi solto por não ter como pagar fiança. Em confiança o deixaram voltar.

Foi nesse final de semana que nos encontramos.

Tom Zé não demonstrava tristeza. Estava até bem humorado.

“A minha alegria durou até muito né? Chegar aqui é bem melhor de bão. Conheci o mar. Mas foi tudo uma grande ilusão.”

 

 

 

 

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