Saudades do Pirunguinha

Pirungas são três. O velho Pirunga, pai da minha estimada pedra preciosa Zaninha. O qual tive pouco tempo de conhecer já que morreu ainda novo. Creio bem antes dos meus setenta.
Pirunguinha, seu filho entre quatro irmãos. Que deu seu nome a outro de mesmo nome. Que nos deixou morrendo de saudades há apenas alguns meses.
Aquele Border Collie preto e branco se foi sem se despedir de mim. Era ele e meu pai que me prendiam e me faziam voltar a Camargos. Ora não mais tenho quase vínculo nenhum naquela linda represa. Já que prefiro estar aqui noutro lago, o do Funil.
Esse querido Pirunguinha, não de quatro patas e sim duas pernas não muito ligeiras como as minhas.
Graças a sua sempre pronta ajuda. Habilidoso carpinteiro a exemplo de seu pai que inda por cima manejava a colher de pedreiro sem muita sustância.
Tornamo-nos amigos.
Embora fosse um beberrão consumido pelas bebidas. Nunca provou a fumacinha de um baseado. Mas se havia alguém muito amigo da cachaça. Pirunguinha, além de muito amigo era bastante chegado.
Conto em mais dedos que tenho nas minhas duas mãos as vezes que ele me ajudou.
Sempre com um sorriso pronto, afável, com seu jeito meio amalucado.
Exalando sempre de sua boca aquele hálito fedido de canjibrina; pinga ruim.
A derradeira vez que me fez um servição foi aqui mesmo.
Não nesse paraíso onde estou agora nesse lindo domingo vinte de setembro. E sim na minha antiga rocinha hoje mudada de mãos.
Isso aconteceu antes de sua partida sem volta a um lugar pra onde todos iremos.
Aqui chegamos na minha pratinha valente. Uma caminhonetinha guerreira que ora não me pertence mais.
Era ainda me pensando fazendeiro. Hoje tenho certeza que não sou mais.
Minha intenção, das mil ideias que me fuçavam a cabeça. Era de construir um lugar onde minhas vacas pudessem almoçar e jantar confortavelmente protegidas do sol e da chuva quando ela aparecesse.
E quem seria a pessoa ideal para esse sacrifício?
O primeiro nome que me veio foi justamente ele que deu nome ao meu amigo Pirunguinha que morava em Camargos.
Não era uma empreitada fácil.
Um enorme galpão, coberto de telhas de cimento amianto. Mureta de blocos cercando a área. E cochos enormes onde vacas pudessem comer mesmo que sujassem e estercassem o piso duro de concreto.
Essa obra estava prevista para terminar em duas semanas apenas. Bota tempo nisso.
Pirunguinha e eu dormimos algumas noites na Casa Amarela Azul cenário de Madest.
Não sabia que ele amoitava uma garrafona de pinga e um maço de cigarro debaixo do seu colchão. Se soubesse teria incendiado o colchão usando a pinga e os cigarros como lenha.
Como dormir, mesmo que seja noutro quarto. Sentindo o bafo de cachaça. Um ronco agudo e um peido alto seguido de um odor de gambá pútrido? Sei não.
A manhã seguinte, sob a minha supervisão não especialista. Antes que a tarde escurecesse.
O ajudante do meu amigo roncador veio correndo me avisar que ele estava passando mal.
Não sabia que Pirunguinha, além de pinguço, fumador e inda por cima tinha acessos. Sofria epilepsia e não tomava seus remédios a hora certa e nem usava.
Parece que foi ontem o acontecido.
Pirunguinha foi trazido desfalecido pelo ajudante espumando pela boca inconsciente.
Tive de levá-lo na velocidade de um cometa ao pronto socorro em Ijaci onde ele ficou até melhorar e receber alta.
São e salvos nós dois.
Um ano ou mais ele ficou doente. Seu estado agravou.
Creio que ele morreu feliz da morte pintando seu cigarrinho. Tomando sua cachacinha ruim.
Sempre alegre proseando com seus amigos.
Na parte da manhã de hoje. Caminhando com meus dois amigos Bia e Clo.
Passei e fotografei aquelas velhas construções feitas pelo Pirunguinha e seu ajudante de ordem desorganizado que era.
Tudo aquilo estava em ruinas. Em estado lastimável de conservação.
Agora, aqui escrevendo. Descrevo a saudade imensa que sinto desse meu amigo que tanto me ajudou em vida.
E tenho a certeza que ele, Pirunguinha, continua tomando todas e pitando seu cigarrinho nalgum boteco no céu.

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