Num é que Gerardo tinha razão?

Podem achar esquisito Gerardo e não Geraldo como se deveria entender.
No meu entendimento, já que sou eu o escritor. Se troco as letras arvoro-me a ter esse direito.
E quem é o tal Gerardo?
Pra quem não conhece. Esse sujeito que foi o primeiro a tentar me ensinar qual a diferença entre um boi eunuco e um senhor bem caduco.
Gente boa da roça, meu vizinho em tempos idos.
Que morava sozinho num pequeno pedacinho de terra que ele mesmo limpava em menor idade. Era mestre em foiçar e carpir sarandi. Era um sujeito quase sem defeitos fora os que nele botavam.
Quem por ele passa, e vê sua cara feia, fechada, sua fala pausada de onde saem apenas coisas que eu deveria aprender e infelizmente fechei meus ouvidos aos sabidos ensinamentos dele.
Gerardo não nasceu nem em Ijaci nem na nossa amada Lavras.
Pelo que me consta ele veio de outras plagas. De uma cidade famosa pelas incontáveis quedas d’águas que fazem de Carrancas um lugar muito aprazível sobretudo para os amantes de turismo cercado de muito verde. De serras altas e cachoeiras que corcoveiam pelas pedras e se esborracham espumosas num lago morada de peixinhos serelepes bons nadadores que evitam os anzóis e deles escapam lépidos depois de morderem as iscas e se fartarem das minhoquinhas que vão morar em suas barriguinhas sendo seu alimento predileto.
Quando cometi a insanidade. Por pensar que todo médico podia ser fazendeiro. Já que em menino passava férias de final de ano na fazenda das Três Barras quase na vizinha Nepré. Cujo dono tio Zito Abreu, irmão que agora faz companhia ao meu pai numa fazenda que não se deixa ver no alto. Mas sei que ela existe.
E na rocinha da Cachoeira, zona rural de Perdões e via outro tio, de nome Júlio, tirar leite na munheca de vacas magras e de pouco leite.
Depois de alguns anos acordando às madrugadas. Indo e voltando de minha casa, recém construída num bairro elegante de nome Centenário.
Atolado até o pescoço, inda não perdendo meu precioso tempo em escrever. Efeméride que teve começo no dia em que meu pai fechou os olhos para sempre.
Creio que em um mil novecentos e oito mais cinco, juntei minhas parcas economias com um restinho da poupança de minha esposa. Dei de entrada um carro semi novo cuja marca é Del Rey.
A partir de antão aí sim a vaca foi definitivamente pro brejo da desesperança morta.
Mal sabia e inda não sei. A razão de o porque de a vaca sendo preta o leite que sai de suas tetas ser branquinho como algodão.
Sabia muito pouco para me tornar fazendeiro já que eu morava no asfalto e vaca mora na roça.
Fazendeiro graúdo tem de ter terras a perderem de vista. Cujos limites da propriedade vão além do alcance dos olhos.
A minha rocinha dita antes prejuizenta era tão pequenininha que. Quando a Braúna, ou a Arisquinha deitavam deixavam metade de seus rabos de fora.
Comprei a tal peste, nome que dei a minha roça. De um sujeitinho baixinho, palrador, andador mais que eu. Pena que hoje ele morreu atropelado numa rua ao atravessar sem olhar pros lados. João Pereira deixou saudades, não apenas de sua família assim como de seus novos velhos amigos, como eu.
Voltando ao Gerardo, marido da Dona Nega, que de negra nada tem. Boa e dedicada esposa, mãe de seus lindos filhos.
Foi ele quem tentou incutir na minha cabeça ocada algumas coisinhas poucas que não pus em prática.
Quando eu, começando a entender de retiro. Depois de gastar o que tinha e não possuía reformando o curral em pandarecos que João, o baixinho falador e andarilho me deixou de legado.
Suas instalações leiteiras eram tão precárias que. Quando uma vaca era ordenhada, ou quebrava a perna. Pior ainda, tinha de ser vendida para o açougue como carne de boi embora fosse de vaca magra.
Mas persisti e não desisti. Quem não arrisca não pesca peixe graúdo nem lambari.
Foram mais de trintanos tomando prejuízos enormes na lida leiteira.
Na chuva o caminhão leiteiro não descia o morro.
Dé, meu derradeiro retireiro (figurinhas em extinção, dinossáuricas).Tinha de pegar o Marreta, cavalo capado forte como um touro. Atrelar o mesmo numa carroça que agora é onde se plantam flores. Encher latões de leite purinho, fora lambaris que, quando faltava luz na roça. Pro leite não azedar tinha de enfiar os latões num corguinho repleto de lambarizinhos. Um deles, pensando que aquele leite do latão era uma piscina de água branca leitosa pulava dentro do leite e ia vivinho ao lacticínio.
E as mantas que o Gerardo me passava?
Ainda tenho as vacas em maior apreço. Não tenho por mim que, quando queres xingar ou humilhar alguém. Chamar uma pessoa de vaca não se trata de insulto ou pejorativa a essa linda palavra que as ruminantes são chamadas. Se querem insultar uma pessoa pra mim dar a ela o nome de Capivara ou Micuim. Aí sim, pode ser chamado à delegacia.
Não sei se Gerardo se lembra. Deve se lembrar sim, pois ele tem a cabeça melhor que a minha.
Nesse sábado passado fui fazer-lhe uma visita.
Fiz-me acompanhar pelo fiel amigo Clo. Minha sombra, meu querido grudinho.
Uma vez na porteira da casa do Gerardo ele empacou e voltou.
Não tive como fazer Clo mudar de ideia; pois ele tem a cabeça grande como eu.
Na rocinha do meu amigo Gerardo, ele agora mora na cidade, não sei se é feliz como era morando sozinho no seu palminho de chão.
Lá me receberam com um cafezinho gostoso, pãezinhos de queijo que eu mesmo tirei do forno do fogão a lenha que inda hoje crepita nas minhas lembranças.
Na sala de visitas, onde tantas vezes estive com Gerardo.
Tive de ouvir dele esses sábios puxões de orelha.
“Meu amigo doutor Paulo Rodarte. Bom te ver aqui comigo. Há tempos não nos víamos. Como andam as coisas pro seu lado? Pros meus sem novidades. Se lembra quando te aconselhei a fazer uma estrada que não passasse dentro de sua propriedade? Sei que não fez. Se recorda quando fiz uma proposta a você que não fosse tão precipitado e não gastasse tanto na sua rocinha? Pois tu não entendias nada de retiro. Vaca não da leite de graça viu? Tem de tirar e elas comem muito. Uma das vezes que nos encontramos no meu curral. Eu, atarefado a ordenhar a Lindona, a melhor vaca que já tive. Ela dava quarenta litros de leite frio na primeira tirada na primeira cria. E te pedi para ter cuidado e não se aproximar muito dos pés dela. Você chegou, depressinha, sempre afoito como te conheço bem. Ela te deu um coice nas partes baixas que te deixou injuriado dois meses sem poder sequer andar. Se recordas dos conselhos dados pra que ocê, como médico especialista. Não perdesse tanto tempo escrevendo, tentando publicar tantos livros e escrever tantas crônicas como eu sei. Aqui, meu amigo que nada entende de vacas. Nesse nosso país onde tão poucas pessoas gostam de ler. Onde livrarias, bibliotecas não têm quase público. Fora uns gatos pingados. Onde livros, mesmo lindos como os que você escreve. Livros impressos têm seus dias contados. Larga disso e leva a sério sua especialidade e volta a frequentar congressos de Urologia. Tantos que você já frequentou aqui e no exterior”.
Ouvi tudinho aquilo dito sabiamente pelo Gerardo.
Fui embora pensado dentro de mim mesmo.
Num é que ele tem razão?

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