Até hoje, nessa linda madrugada, não sabia que árvores dormiam.
Sei que elas são essenciais não apenas à qualidade do ar que respiramos.
Nos dão graciosamente sombra onde nos abrigamos do forte calor nos verões quentes. ]
Presenteiam-nos com incontáveis frutos sendo árvores frutíferas.
Infelizmente elas se tornam lenha graças aos ceifadores de florestas que destroem a natureza sem que ela possa revidar.
De seus troncos seringueiros retiram a seiva que vira borracha. Que não consegue apagar o mal que gente sem coração faz cortando árvores. Se sentem dor. Elas não podem reclamar. Ou chorar derramando gotas caídas de suas folhas, de seus galhos mais finos ou mesmo do seu tronco derrubado por um machado. Ou uma cruel moto serra que faz barulho quando corta. Serra e derruba ao chão tudo aquilo que levou anos para ficar como está.
Árvores não nascem grandes. Dantes, ao serem plantadas, daquela mudinha que fala e a gente não escuta. Se não cuidarmos dela, inda bem pequenina. Não a adubarmos. Cuidamos para que formigas cortadeiras não apareçam com suas tesourinhas afiadas. De um golpe certeiro mutilem aquele pequenino arbusto que um dia vai ser uma gigantesca árvore. Que tenta alcançar o céu e não consegue.
Já fiz tudo que preconizam a ter uma vida graciosa e útil.
Plantei milhares de árvores. Algumas morreram. A maioria inda me dá sombra e frutos no pomar na minha casa beira lago. Algumas me oferecem a beleza de suas flores. As naniquinhas servem de postes onde meus cachorros urinam para marcar território. Outras fingem-se de mortas até que nova chuva as faça brotar novamente.
Deixei viver dois filhos que me deram de presente três netinhos lindos. Espero que todos eles cuidem de mim quando não mais puder tomar conta de mim mesmo.
Para finalizar essas três coisas que dizem ser preciso ser feitas antes de nos despedirmos dessa vida. Deixo a vocês, leitores ou não, vinte mais três livros escritos. Mais de vinte e três mil crônicas. Cinco romances. Pela metade mais um de nome Ucrânia. E mais tantos que inda espero escrever.
Como me apraz caminhar. Pôr a trabalhar minhas duas pernas andejas. Correr em trote lento voltei a fazer pelas estradas por aqui e acolá.
Mudar meu costume de acordar bem cedinho. Espero não dar um final a ele. Que me faz tanto bem.
Agora mudei não apenas de endereço como tenho de aprender a me virar sozinho.
A gente aprende, mesmo de mais idade. Nunca é tarde para ser feliz. E para aprender…
Minha vida, aos setenta e seis, quase sete. Sofreu uma guinada de mais de trezentos e sessenta degraus.
Por que degraus e não graus?
Uma escada, mesmo íngreme. A gente tem de subir um a outro passo. Devagar se vai ao longe.
Sem divagar muito trocando os pés a passadas lentas.
A vida tem seus degraus. O primeiro a ser subido é quando nascemos inda bebês. Chorões como eu fui. E até hoje sou. Embora não seja mais um desses nenéns birrentos que. Quando famintos pedimos que nossa mamãe não atrase a mamadeira. Senão o tempo, se frio esquenta.
O segundo degrau a gente sobe ainda sem saber pra onde na mocidade. Que se perde no terceiro, pra ir ao quarto, quando adultos ficamos no mais tardar dos anos.
O derradeiro degrau, não grau. Chegamos não na melhor idade como alguns que se metem a entendedores do assunto. Quem diz que estarmos velhos é ter a melhor idade se equivoca redondamente.
Experimenta carregar um saco de cimento que pesa em torno de cinquenta ou mais quilos?
Se sua força permitir cuidado. Sua frágil e torta coluna vai ringir. Dobrar mais ainda. E pode partir como um graveto seco posto na fogueira a queimar.
Hoje, nesse dezoito de setembro, sexta feira.
Ganhei a rua antes das quatro da madrugada. A mesma hora de ontem.
Deixei meu novo apartamento, lindão, com minha cama arrumadinha.
Depois de meu desjejum frugal: duas bananas, uma dose generosa de Malthodextrina, meio litro de leite de caixinha (não da vaca preta da roça que dá um leite branquinho e de maior qualidade).
De sair lá fora depois de conhecer bons vizinhos de apartamento e da rua.
Subindo ruas na escuridão. De vez em quando um carro zunia subindo a mesma rua apressados de faróis acesos.
Ao chegar sem resfolegar cansado. À praça principal de nossa cidade que tanto ainda me encanta pelo verde. Pelas lindas árvores mais que centenárias. Pelas flores ora murchas pela precocidade da hora. Pelo gramado verde que recebe cuidado especial dos jardineiros. Por tudo que essa linda praça oferece graciosamente aos passantes.
À frente da vetusta Tipuana não resisti e parei.
Não a ela pedi para fazer um selfie entre nós dois. E fiz assim mesmo.
Curvei-me frente à sua majestade imponente inda muito graciosa.
Nem lhe perguntei a idade. Às dama não se deve nunca cometer tal leviandade de, mesmo sabendo a idade. Devemos nos fazer de desentendidos e nunca lhes perguntar quantos a senhora tem.
Embora soubesse que a velha Tipuana. Para não se dobrar sobre sua imponente figura.
Ela carecia de usar muletas. Não essas que idosos lançam mão para dar uns passinhos cuidadosos.
E sim muletas permanentes de ferro e bastante fortes para suportar o peso dos seus galhos.
A ela não ofereci ajuda. Já que eu precisava mais que ela.
Antes que fosse embora e chegasse aqui onde estou agora.
Olhando pro alto. Em direção à copa dessa linda árvore. Um dos símbolos maiores de nossa Lavras amada.
Tive a ousadia de falar baixinho com a Tipuana desse jeitinho doce: “minha querida. Te respeito muito não apenas pela idade. Sei que tu tens bem mais anos que meus muitos setenta e seis quase sete. Acordo muito cedo. Sou madrugão consumido e consumado pelo meu costume de madrugar ( quanta redundância me desculpa querida IA). Não sei se a senhora dorme. Se desperta sempre alerta como um bom escoteiro. Me desculpa se te acordei. Se o fiz não foi mal intencionado não querida Tipuana”.
Saindo olhei pra trás. Essa linda, velha árvore mostrou-me um sorriso doce. Bocejando de sono me disse baixinho: “não meu querido doutor escritor Rodarte de Abreu. Sempre que quiser passe por aqui, pertinho de mim. Se eu estiver dormindo me acorda. E muitíssima obrigada por escrever uma coisa tão linda inspirada em mim”.