Hoje, bem cedinho, nessa madrugada linda em que deixei meu novo apartamento.
Pela vez primeira ali dormi sempre bem pouquinho como de costume.
Dizem que uma boa noite de sono nos traz longevidade. Não discordo; quem sou eu para ser do contra. Mas da mesma maneira sábio dito, reedito: “burro velho não muda a marcha e continua como um cavalo trotão que, de tanto andar trotando acaba provocando alarido nas estradas com seu trote cadenciado”.
Eu não tomo jeito e persisto desajeitado. Acordando bem cedinho. Hoje creio ter batido o recorde. Quem sabe entrarei para o Guinness Book? Vou deixar à IA essa difícil pesquisa das tantas que ela tem feito pra mim.
Abri a porta do Edificio das Clínicas bem antes do Seu Zito. Que não tem sido tão madrugão como eu. Ele já foi retireiro, não padeiro, esses denodados profissionais que têm as madrugadas como suas amantes.
Minha providência é sempre a mesma.
Acender as luzes das salas. Essa onde estou. A outra onde fica minha querida Zaninha. Dar uma pitadinha de ração aos meus peixinhos aquarianos. Ligar meus três computadores. Tomar um cafezinho expresso depois de comer duas bananas.
Dedos ao trabalho e mente acesa a escrever.
Juro ser verdade!
Se minto não é intencionalmente uma deslavada mentira.
Procurei os dois cascudinhos onde sempre eles se escondem.
De boquinhas sugadoras pregadas no vidro de trás eles não estavam.
Em meio as pedras do fundo também não.
Nadando na superfície idem nada deles.
Fora do aquário não seria possível, pois certamente morreriam.
Até que, depois de uma hora de procura enfim dei com eles debaixo de uma pedra preta onde se camuflam para não serem vistos.
Dei-lhes dois nomes.
O maiorzinho batizei de PR (Paulo Rodarte). Já que ele passa o dia inteiro com um papel molhado nas barbatanas segurando um peixinho vermelhinho como se ele fosse uma caneta das mais usadas de nome Bic. Deduzi que ele deveria ser escritor e bom nadador.
O segundo cascudinho epitetei de Zaninha (mesmo não sabendo identificar o sexo dos anjos penso que ela é cascudinha fêmea). Minha querida enfermeira, hoje minha secretária. Uma faz tudo, da qual espero, num futuro remoto. Que ela vai se tornar minha cuidadora.
Já vi um desses cascudinhos, o PR, esfregando suas nadadeiras a uma peixinha vermelha.
Assustei-me à princípio. Não era comum peixes como esses dois, tão díspares, se acasalarem ou de namoro.
O certo seria cascudo com cascuda fêmea a não ser que fossem homo afetivos.
A mim não importa. Cada um da o que quiser. Preferências não se discutem.
A cada dia, ao chegar aqui admirava a postura dos dois cascudos.
O PR de boquinha grudada no rabo da vermelhinha. O outro (a), enciumado(a), não conseguia dissimular sua inveja de não ser ele(a), o,a, preferido,a.
Acabei deduzindo que a menorzinha (Zaninha), deveria ser mulher cascuda.
Dias se foram, meses deixaram minutos, horas atrás.
Ontem, ao aqui chegar, dei de olhar pra dentro do meu aquário. De luz acesa ele estava.
Sabem o que vi?
No fundo, entre as pedras, flores aquarianas eram vistas enfeitando o cenário.
Era uma festa de casamento ou ajuntamento, não sei (pobre não casa ajunta os trapos).
Um peixinho mais cerimonioso, de nome Tubarãozinho, vestido numa batina preta fez-se de padre celebrante do matrimônio aquático.
Uma comitiva de daminhas de honra traziam as alianças que nadavam e flutuavam na superfície onde muita ração boiava.
E quem eram os noivos?
Num elegante smoking verde oliva estava próximo do altar o noivinho cascudinho PR.
A feliz noivinha, recém desvirginada era aquela peixinha vermelhinha que fazia a cascudinha Zaninha sair do sério e quase partir pra briga de tanto ciúme.
PR e a vermelhinha se ajuntaram naquele dia feliz pros dois.
Zaninha, cascuda, entrou em depressão, ganhou alguns muitos quilinhos. De linda que era passou a ser uma baleia obesa. Elazinha Zaninha não tirava de suas escamas o escritor PR das ideias.
O que era mais ou menos bom naufragou, foi a pique em águas rasas do meu aquário borbulhante.
Dizem que, por incompatibilidade de gênios PR e a Vermelhinha acabaram se apartando. De apaixonados acabaram por ser contendores de um ringue de box em trocas de insultos e até mesmo socos na fuça um do outro.
Zaninha cascudinha, que era nascida num corguinho em Macuco. Arraialzinho distrito de Itumirim. Depois foi pescada num puçá e levada vivinha ao meu aquário.
Ao ver o desfecho presumível daquela união ajuntada, Zaninha se mantinha no seu canto, desencantada por ver seu amado PR infeliz ao lado de outra que não ela.
Num ato de coragem insana PR cascudão livrou-se dos seus grilhões pulseiras de prata, não de lata. Que o mantinham atrelados a um casamento falido.
Ele deu um grito tão forte ao ver a portinha de sua jaula aquário aberta que pulou fora daquilo que não mais suportava.
Deixando a esperançosa cascudinha Zaninha rindo à toa depois de ler uma cartinha de amor que PR deixou a ela.
“Zaninha linda cascudinha do Macuco. Por mais que tente não me esqueço de você. Quando o doutor Paulo Rodarte, o tal PR. Chega aqui inda cedinho, joga uma pitadinha de ração lá no alto na superfície desse aquário subo, vôo lá em riba. Pego os melhores floquinhos pra vocezinha minha amada Zaninha. Me ajuntei com a Vermelhinha pensando que elazinha seria a tampa da minha privada. Mas elazinha mostrou que não era nada que eu pensava já que pensava só em você. Agora dei, com minhas nadadeiras, um chute nas pedras do fundo desse aquário sujo que somente ocezinha sabe limpar com sua boquinha sugadora. Desfiz meu ajuntamento com essa peixinha de cor vermelhinha depois de tantas águas passadas. E deixo a ela esse dito escrito: de um casamento (ajuntamento) falido, pode nascer uma grande amizade”.
Descarece dizer que esse sábio dito se aplica ao cascudo PR.
Estranha metamorfose essa.
De um cascudo feioso brotar um lírico inspirado doutor escritor PR.