Pra muitos a vida começa ao nascer.
Segue-se a vida do bebê que aprende sem professor a engatinhar. Metendo a testinha nas quinas das mesas. Caindo e levantando. Chorando e fazendo birra cheinho de vontades mais crescidinho.
Nossa existência segue adiante.
Em tempos idos, meninos feitos. Mal sabendo o que nos reserva o porvir. Só nos interessávamos por brincadeiras e inda não começamos a olhar. De olhos gulosos as perninhas de nossas coleguinhas. Quando elazinhas, desavisadas ou não. Deixavam cair de sua carteira, do lado da nossa. Uma borracha, um apontador, ou até mesmo uma cartinha de amor. Um amorzinho infantil, não aquele que a gente sente. Que se confunde à paixão por uma bela mulher. Por ironia do destino. Quando ela envelhece e a gente não a esquece. Aquele amor bonito, lírico, doentio. Acaba desaparecendo ao primeiro reencontro anos depois. Ao vermos aquele dantes belo corpo perder suas formas curvilíneas. Encher-se de estrias, de buraquinhos rasos em suas antes belíssimas nádegas. Que os entendedores de beleza feminina chamam celulite.
A vida continua, pra uns cheinha dessa linda palavra felicidade.
Pra outros, menos afortunados, felizmente não é meu caso. Já que tenho a bipolaridade como companheira grudenta. Ora estou em up. Poetas, que não sou, colecionam dentro deles mais momentos de pura melancolia quando a tristeza os domina. Raramente enxergam a luz do sol. Mesmo que o astro rei saia de dentro de uma cortina de nuvens cinzentas e o céu enche-se de um clarume cegante aos nossos olhos.
A juventude parte, vai embora e a vida continua. Uns vivem mais e outros deixam de viver prematuramente.
Pra mim e pra muitos mais, ir contrário a ordem natural das coisas. Da no mesmo que remar contra a correnteza de um rio caudaloso.
O certo é um filho ter de fechar os olhos do pai. Sentido embora não tenha consentido essa dura realidade. Lágrimas derramadas pelo canto dos seus olhos. Ir ao campo santo levando a alça do lado direito do ataúde do seu pai à última morada na escuridão da terra.
Mas quando a ordem se inverte. O pai tem de enterrar o filho, que viu nascer, cresceu aprendendo a caminhar sozinho a frente dele. Aí, na minha crença, talvez seja a maior dor que podemos sentir. Dói mais que quando um espinho pontudo espeta em nosso pezinho de pele fininha.
À juventude segue a outra fase em que a responsabilidade nos chama as falas.
Não mais podemos, embora queiramos, volta r a casa deixando exalar às narinas de outros um cheiro nauseabundo de álcool ou de vômito que deixamos numa latrina de um bar qualquer.
Agora temos família a cuidar. Um trabalho que pode faltar. Temos de nos encher de coragem e mesmo nas adversidades mostrar um sorriso por fora embora por dentro choramos.
A fase adulta enfim tem fim.
Inevitavelmente envelhecemos.
Podemos ainda perder a saúde e permitir que doenças tomem conta da gente.
Daí a minha preocupação em me manter em forma tanto física quanto mental.
Por isso exercito-me constantemente. Tanto em corridas tartaruguentas pelas estradas ou na academia pra onde vou sempre quando a tarde diz esperar a chegada noturna das noites.
Meu cérebro, sempre, como um gêiser soltando jatos quentes de água a instantes a outros. Não para e inda não titubeia.
Não tenho pelas noites em alta estima. Sinto pelo clarume dos dias um amor verdadeiro e inteiro como oiço meu coração tiquetaquear enamorado pelos meus filhos e netos.
Não me sinto velho. A idade inda não me pesa tanto nos costados.
Enxergo razoavelmente bem embora não consiga dispensar o uso de óculos quando escrevo.
Posso ainda contar com duas pernas bastante sacudidas para me levar aonde quero. Se não quero deixo-as descansarem.
Meus braços, minhas duas mãos, meus dez dedos ainda me fazem capaz tanto de abraçar, ou melhor, escrever.
Não me queixo ao espelho da minha falta de beleza. Pra mim tanto faz se deixo um naco de cabelos na toalha. Pra mim é dos carecas endinheirados que elas gostam mais ( não é meu caso. Posso ser calvo, mas grana que é bom me esqueçam aquelas que pensam em mim como um tio Patinhas. Nem sei nadar numa piscina cheia de dinheiro).
Hoje, nesse dia 16 de setembro, nessa hora madrugada. Decidi mudar de rumo.
Vou tentar impor ritmo novo às minhas lépidas passadas.
Já disse e deixei escrito em uma das minhas milhares de crônicas: “a vida seria insustentável não fossem as mudanças”.
Não que tenha deixado de olhar pelo retrovisor o que tenha ficado pra trás.
Tenho e não tenho nenhuma intenção de deixar o passado sepultado no mesmo túmulo dos meus pais. Sei ainda que dos corpos deles dois nem sei se restam aquelas ossadas num saco preto ou se já foram incinerados e agora só restam cinzas.
Do pretérito não me desvencilho. Ele só me trás boas recordações.
Já o presente ah!
Te recebo como um presente de aniversário. Melhor ainda que aquela linda bicicletinha de rodinhas amarelas que ganhei do meu pai quando completei meus cinco anos.
A partir de hoje mudo de endereço. Não mais irei morar aqui pertinho nesse agradável beco sem saída onde hoje encerro minha morada.
Avoo da minha gaiola a outras paragens.
Só irei conhecer meu novo ninho, um apartamento não tão grande e espaçoso como o de agora. Assim que abrirem a porta da minha nova gaiola que me espera mais abaixo em outra rua não esse beco sem saída.
Mudei-me poucas vezes.
De Boa Esperança pra essa cidade aos cinco anos me mudaram sem que eu pudesse dizer não.
Daquela rua tantas vezes citada em meus textos. Daquela linda casa que ora não mais existe a não ser nos meus pensamentos não moro mais.
Do meu apartamento à Rua da Bahia em Belo Horizonte. Onde fiz dele uma república de estudantes durante meu curso de medicina acabei me mudando a incontáveis anos.
Da linda casa do Jardim das Palmeiras transferi minha morada creio há dez anos, mais ou menos.
A partir de hoje, não antes das oito e espero no mais tardar as nove. Estarei numa nova morada.
Acompanhar-me-ei de mim mesmo. Não que eu me baste.
Vou sentir muita falta de outras moradas. Delas não me esqueço.
É como tentar apagar o passado com uma borracha ou usando um apagador como aqueles que usava para apagar letras, palavras ou números no quadro negro de uma sala de aula nos bons tempos da minha infância.
A partir de hoje, de agorinha mesmo. Se querem me encontrar. Ou me procurem aqui onde estou nessa hora. Ou avoando nas alturas como um pássaro. Uma andorinha que em bando foge do frio para reencontrar a si mesma em outras paragens. Onde faz calor, sobretudo humano.