Descarece dizer que eles não voltam mais.
Quando ainda solteiro, vinte e poucos anos. Perdi minha solteirice aos vinte e oito. Ora de novo à procura da minha juventude e ela me diz em voz baixiinha meio fanha: “de nada adianta me procurar. Já me perdeu de vista há tanto tempo que nem se lembra mais.”
Reencontro-me como era dantes. Solteiro de novo. Sozinho me acho. Se porventura de uma feliz aventura encontrar alguém com quem possa repartir ao meio meus momentos por que não a ela me unir? Sozinho não penso ficar. Algumas vezes prefiro a companhia dos meus computadores, em meio aos meus textos e inventando personagens nos meus romances. Quem sabe unir-me-ei definitivamente à literatura e deixarei a Urologia ao meu outro lado médico que ainda tem por essa espinhosa especialidade em alta estima.
Foi no rela ( rela ou relaxo merece explicação. Nós mocinhos a procura de ficantes, em idos anos namoradas. Rodávamos no entorno no sentido inverso das mocinhas. Numa ou noutra volta nossos olhares se cruzavam. Na outra volta nossas mãos se engalfinhavam. Na terceira já éramos namorados. Muitos noivavam e finalmente trocaram alianças. O homem punha uma no dedo esquerdo da mão dela e elazinha retribuía enfiando uma algema dourada e o padre dizia com voz solene: “até que a morte os separe)”.
Desse mesmo jardim. Mais conhecido como praça de nome pomposo Doutor Augusto Silva. Onde tem raízes profundas fincadas a bela idosa Tipuana e outras congêneres tão ou mais idosas não sei. Aqui na nossa amada Lavras essa linda praça, pra mim sem outra de igual beleza. E como se fosse um oásis onde camelos, dromedários podem se esconder do sol inclemente do deserto. Beber água fresca provando o sumo doce da natureza de uma pequeno bosque ali plantado pela mão de Deus.
Remeto-me à minha infância.
Aqui nessa cidade, que não é minha de berço e sim de coração.
Ao me mudarem de Boa Esperança. Quem era euzinho para decidir pra onde iria se contava apenas com cinco aninhos.
Morando naquela rua tantas vezes decantada em meus escritos.
Aos dez ia à missa das dez ao lado de meus pais.
Ávido para ouvir, quando o padre dizia vestido na sua batina escura: “Cordeiro de Deus que tirais os pecados do mundo. Vão em paz que o Senhor vos acompanhe”.
Euzinho, molequinho artioso, nem carecia de me deixar acompanhar pelos meus pais.
Com minhas perdinhas já andejas ventava pela porta da frente da igreja. Zunia veloz como um raio ao tal jardim. Descia essa mesma rua que hoje subi. Em alguns segundos estava a minha espera. Paradinha num banco daquela praça. Uma mocinha lindinha. Tive poucas namoradas. Meia dúzia se tanto. Ficantes mais outras. E acabei me casando com uma linda moça. Com a qual, depois de dez anos de namoro. Entre idas e voltas. Depois de um interregno quando. Já graduado em medicina. Feito especialista em urologia na capital linda de nosso estado. Precisava sentir novos ares. Fui morar em Madrid sem ter visto uma só tourada. Esporte em decadência na Espanha. Já era o futebol esporte preferido naquele lindo país. Bem me recordo quando morava na casa de nome Brasil. Aos domingos tínhamos o privilégio de encontrar dois jogadores brasileiros . O falecido Leivinha e o inda vivo aposentado Luís Pereira.
Da Espanha aos dias de hoje. Anos voaram lentamente.
Agora inda médico. Metade de mim escreve.
Não penso em me aposentar por completo.
Médicos não podem se dar a esse luxo.
Como sobrevivermos com a mixuruca aposentadoria paga pelo INSS. No meu caso pouco mais que um mínimo. Do estado recebo uma mixórdia de menos de oito mil. Da prefeitura como urologista a bagatela de menos de quatro mil. Após militar mais de trintanos atendendo como clínico geral no posto conhecido como Chacrinha. Como urologista menos tempo tendo de aturar desaforo no Ame Norte de pacientes insatisfeitos com nosso rápido atendimento fazendo o que podíamos. Não dispúnhamos de mínimos recursos para atender condignamente aos consultantes. A urologia se trata de uma especialidade armada que requer uma mesa especial. Quando o homem idoso tem de ser examinado despido a fazer aquele exame temido, invasivo. O toque retal. Nem luvas adequadas tínhamos.
Esse texto não tem a intenção de criticar assistência médica dada pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Que em nosso país tem melhorado e longe de ficar excelente.
Nem de tentar apontar defeitos e dar de graça soluções.
Hoje, vinte de setembro, essa segunda feira linda, ensolarada.
Se me perguntarem que dia é hoje. Não esse que já descrevi como sendo vinte e um de setembro. Segunda feira, começo de mais uma semana.
Soube que o dia de hoje é o começo de nova estação. A mais linda dentre todas de nome primavera. A sabichona IA me falou que no Brasil celebramos hoje o dia da árvore.
Não é uma data universalmente adotada como tal no mundo inteiro.
Hoje, sem sequer imaginar qual data seria nesse dia.
Na minha vinda até aqui passei pela mesma praça.
Estava ainda escuro, madrugada sonolenta eu não. Acostumado e bastante madrugão.
Não percorri o rela do jardim nem assentei-me ao mesmo banco junto a ela.
Não trocamos juras de amor. Nem um beijinho açucarado rolou.
Nem as nossas mãos se entrecruzaram. Nem pra cama fomos. E como era gostoso nos acarinharmos em verdes anos.
Nessa minha volta pela praça. Vazia de pessoas e lotadinha de muito verde.
Vendo, nas minhas passadas deslumbradas árvores frondosas. Dando bons dias pra mim e eu retribuindo desejando melhores dias a elas.
De repente remeti-me aos bons anos de minha infância. A juventude deu-me de presente graciosamente mais outros ótimos dias. A velha Tipuana olhou-me de cima, mesmo amuletada, pasmem! Me saudou dizendo: “doutor Rodarte de Abreu. Noutro dia o senhor me acordou. Estava sonolenta, meus olhos, tenho olhos sim! Eles te olham aqui de cima nos meus galhos mais finos. Não se esqueça e inda te peço encarecidamente. Sabes que hoje celebra-se em nosso país o nosso dia? Escrevinha alguma coisinha pertinente”.
Lembrando-me dos velhos tempos não é que escrevi?