Agora são cinco e cinquenta e oito da manhã.
A minha hora ainda bem que não sei quando vai chegar.
As horas passam. O tempo não fica atrás. De vez em quando aqui chego atrasado, nem sempre sou pontual.
Nessa sexta feira, quase o mês de agosto fechando os olhos. Meus olhos continuam abertos. E quando eles forem fechados, ai sim, minha hora vai chegar.
As despedidas são doloridas. Ainda me lembro de quando a minha pequena jornalista viajava ao Rio de Janeiro. E quando o busão partia da rodoviária meus olhos enchiam-se de lágrimas. Mas era uma viagem de ida e volta. Não como aquela quando a gente se despede. Sem anúncio prévio rumo a um destino ignorado.
Nada mais carregado de certeza como a nossa partida no final da vida. Nesse momento de luto não se precisa arrumar as malas nem levar alguns pertences naquela viagem sem retorno.
A morte vem. O sofrer de quem fica vem depois. Quem se despede não carece de comprar passagem. Nem ao menos de vestir aquele terno guardado para uma solenidade importante. Mas nada importa mais. Tudo que foi bom vai ficar guardado nas lembranças. Aquela festa de aniversário. As bodas de qualquer coisa que o casal vivenciou. Os quinze anos da filhinha que hoje pranteia a perda do seu pai. Aquele amor que terminou em lágrimas de saudades.
Quando a hora da minha despedida chegar tomara que seja para uma viagem de férias.
E quando a minha hora for marcada no calendário que seja num trinta e um de fevereiro. Dia inexiste na folhinha. Que eu parta sem causar sofrimento aos que ficam. Pois irei partir pra voltar em tempo breve.
Quando chegar a minha hora que possam atrasar os ponteiros dos relógios. Para uma hora indefinida. Melhor ainda se nesse meu relógio os ponteiros retrocedessem. Ao invés de irem adiante eles parassem para sempre.
Quando chegar a hora da minha despedida, que nesse momento enlutado não enchessem meu caixão de flores, pois elas secam e morrem. E eu já estarei morto e não saberei quem as depositou na minha urna funerária.
Quando chegar a minha hora não chorem lágrimas de crocodilo prestes a saborear a presa. Que seja um pranto verdadeiro e deveras sentido. Já que eu não saberei qual de vocês me amava de verdade. E, por favor, se me apreciarem de fato, que o digam quando ainda estiver entre vocês.
Quando chegar a minha hora não contem piadas no meu velório. E não digam o quanto eu era bom. Relembrem sim os nossos momentos felizes. Os tristes não serão esquecidos. Pois a vida caminha entre esses e aqueloutros. Na minha predominaram os alegres e recheados de sonhos coloridos.
Quando, um dia chegar a hora da minha partida, rumo à azulice do céu azul. Onde espero reencontrar meus pais. Que me permitam não usar aquele meu terninho azul de listras brancas. Ele não me serve mais. Já que sempre detestei me vestir a rigor.
Quando chegar a minha hora encham meu caixão de livros meus. E, se não os compraram em vida de nada adianta tê-los em sua estante depois que não estiver por aqui.
Quando chegar a minha hora que seja em boa hora. Quando não mais puder, dada a decrepitude em que me encontre, a incapacidade de brincar com meus netinhos. Não ser mais capaz de caminhar pelas próprias pernas. De estar preso a um leito de hospital. Com aquele olhar perdido no vazio do nada.
Quando chegar a hora de me despedir dessa vida que a outra vida me acolha com sorrisos abertos dos anjos e o mesmo amor que minha família me tem dado graciosamente.
Que eu me despeça sem dor ou sofrimentos maiores. Melhor ainda se eu partisse durante sono em saúde perfeita.
Não sei quando vai ser a minha hora final.
Agora meu relógio assinala seis e quarenta e cinco dessa manhã ensolarada do mês de agosto.
E espero viver muitas e muitas horas mais…