“Tô na idade disso mais não!”

Por vezes me vejo pensando: qual seria a idade certa de começar ou terminar de fazer?

Tudo na vida tem seu começo, meio e fim.

Começamos no nascimento. A metade de nossa vida pra mim começa quando deixamos a casa paterna e nos enveredamos na vida profissional. O final é quando a gente se avizinha do instante final. Pra muitos a morte talvez seja o começo de outra existência, nalgum lugar especial.

No começo como damos trabalho aos nossos pais. Ainda bebezinhos choramos a noite inteirinha. Ora acordamos com medo da escuridão. Noutra hora o motivo é outro. Uma dorzinha de barriga nos incomoda. Ou a fralda suja pede pra ser trocada.

E a choradeira continua quando vamos pra escola. Um garoto levado da breca, no recreio afana a nossa merenda. E voltamos pra casa de barriga vazia. Chorando e implorando ao nosso pai que dê um pulinho na escola e castigue o moleque travesso para que ele não faça a mesma coisa no dia seguinte.

Já, tempos idos depois, quando enfim pensamos nos livrar da barra da saia de nossa querida mãezinha. Voltamos desconsolados ao seu colo.  Pedindo arrego. Sofridos por pensarmos que a vida longe do teto daquela casa, que no meu caso não existe mais, tem o mesmo sabor e cor da alegria de ver os dois, assentados aquela mesa. Onde, nos dias de hoje estão faltando eles, pessoinhas insubstituíveis. Que se foram para o além, deixando uma lacuna que nunca mais vai se preencher.

Vamos ao tempo presente. Nesse ano que agora se fatia ao meio.

Pensando na idade em que estou. Na quase decrepitude da minha existência. Não gosto que me chamem de velho, pois nem me sinto idoso. Desprovido de vaidades já que nem sinto falta daquelas negras melenas topetudas e daquele bigodão que quase esconde meus lábios carnudos.  Na idade em que me encontro estaria apto a fazer isso ou aquiloutro?

Acordar cedinho ainda sou mais capaz. Escrever melhor ainda. Caminhar ou trotar faço melhor que dantes. E, uma vez na cama, entre quatro paredes nem confesso as diabruras que sou capaz de fazer sem deixar rastros.  E não perguntem aquela que dorme ao meu lado. Cala-te boca. Esse segredo a nós pertence.

Já meu amigo Tertuliano, já passado da idade. Quando a ele perguntei se ele seria capaz de pular cerca sem rasgar a calça nos fundilhos. Ele desconjurou e me pediu segredo.

“Já fui bom nisso. Não havia rabo de saia que resistisse às minhas cantadas. Fazia serenata e elas desciam da sacada pra me ver de perto. Agora, nem de longe elas querem me ver. Já tive mulheres de todas as cores, de várias idades e muitos amores. Com umas até fiquei, pra outras apenas me dei. Mas elas não me deram e acabei desistindo delas. Em troca mudei de mulheres, mas de homem nunca irei gostar. Não estou mais na idade de trabalhar. Acordo mais cedo pra ficar mais tempo à toa. Se vosmecê me convidar pra ir a uma balada direi que não. Eu danço conforme a música. Se requebrar muito nem me levanto. Se uma gata me cantar nem dou ouvidos. Tenho medo de ir com ela pra cama e na hora H fracassar no ato. Nos dias de hoje não me dou ao desfrute de comer torresmo que tanto apreciava. A minha dentadura não resiste. E se uma dona insiste digo que estou atrasado. Pra quê? Ela pode perguntar. Penso cá comigo. Pra nada já que nada tenho de fazer”.

Foi quando ao meu amigo velho Tertuliano perguntei: “vamos visitar o lupanar da dona Tiana? Ela é minha amiga. Não vai te cobrar nadica de nadinha. Pois ela sabe que você não da mais no coro”.

Tertuliano, me olhando meio enfezado, resmungando me disse: “tô na idade disso mais não. Vê se te enxerga veio babão”.

Eu nem me olhei no espelho pra evitar confusão.

 

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