Aprendi a conversar com as paredes

Dizem que elas têm ouvidos. No que acredito.

As paredes ouvem caladas e não manifestam seu desacordo com a gente.

Certas prosas são insossas. Conversas ao pé do ouvido são pra mim as mais aconselháveis, pois elas falam baixinho. E não ferem a nossa sensibilidade. Sentimento esse que pra mim brota como água da mina protegida por uma cerca que não permite agredir o chorume que brota da pedra, deixando um pocinho de águas cristalinas onde se pode ver refletida a carinha risonha da meninazinha encantada com sua beleza.

O que me dizem as paredes confesso. Elas não dizem nada que nos perturbe. Ficam caladas e apenas escutam. Ao revés do que dizem certas pessoas que nada têm a dizer.

Melhor ouvir o murmúrio mouco do silêncio à azáfama ensandecida das cidades.  O ruído apressado do trânsito em horas de pico faz mal aos nossos ouvidos. Dai o meu prazer em prosear com as paredes. Elas são mudas. Apenas assistem inermes aos nossos queixumes.

Meu amigo de longos janeiros. Que já deixou pra trás incontáveis dezembros. Cujo nome se escreve apenas com duas sonoras letrinhas- Só. Em verdade ele foi batizado por Sozinho.  Já que ninguém estava presente ao seu nascimento. Fora a mãezinha. Só se acostumou a viver na própria companhia. Ele amava a solidão. O silêncio das madrugadas era a sua companhia ao despertar. Onde ele morava nada mais existia. Apenas e tão somente Sozinho ele se via. Tanto nas madrugadas frias tanto no quentume das noites de verão.

Seu Sozinho não tinha interlocutores. Nenhures com quem prosear.

Mas seu Só assim se acostumou. “Melhor assim”. Dizia ele monossilabicamente. Já que era um senhor de poucas palavras.  Melhor escutador.

Foi num sábado passado que com ele me dei as mãos. Mãos cascorentas as dele. E que mãos finas eram as minhas.

Seu Sozinho se preparava para entrar em sua casa. Era ainda cedo. Antes das seis da tarde.

Era finado de agosto. Quase setembro pedindo para entrar.

Para quebrar o gelo a ele dei as mãos. Ele, meio ressabiado, não recusou ao meu aperto de mãos.

Dei o chute inicial a nossa prosa: “e ai amigo Sozinho. Continua só? Ou já arrumou companhia? Antes só do que mal acompanhado né”?

Seu Sozinho me olhou dentro dos olhos e disse: “verdade. Não tenho o costume de me fazer acompanhar. Com quem conversar nem pensar. Durmo entre quatro paredes no meu quartinho de dormir. Acordo bem cedinho de olhos ainda fechadinhos. As paredes me dizem bons dias. E eu retribuo ao seu amável bons dias. Tomo meu cafezinho. Ofereço as minhas queridas paredes. Elas me agradecem e se recusam a tomar café comigo. Saio de casa e minhas amigas paredes permanecem dentro da minha casa. Elas não dão despesas e não me contradizem.  São mudas e surdas aos meus queixumes. Não dão palpites e nem discordam do que eu pensou ou digo. Se não concordam comigo ficam apenas me olhando ao redor. Sem sequer manifestar seu desagrado. Você deseja melhor interlocutora? De quem eu gosto apenas as paredes confesso. São elas mesmas as melhores companhias. De vez em quando passo uma tinta nelas. E elas, tintas de tinta nova, sorriem pra mim. Aprendi a conversar com as paredes. Melhor que jogar conversa fora  com quem vai embora.”

E eu fui embora pensando ser melhor assim.

 

 

 

 

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