Imagino, neste exato momento, com a chuva que está despencando, desde a noite de ontem, e agora persiste, como devem estar se sentindo meus amigos na roça.
A esta hora eles todos devem estar no curral. Depois de tomarem um cafezinho requentado na trempe do fogão a lenha acompanhado de uma broa de milho ressequida. E só.
Depois de enfrentar goteiras vindas do telhado já carecendo. E muito, de ser trocado.
Acordando, no meio da noite com morcegos tentando sair do telhado e vê-los de ponta cabeça dependurados. De olhos tais e quais vampiros sedentos de morder-lhes a veia grossa do pescoço para saciar-lhes a fome de sangue.
E, não bastante tanta desgraceira ainda por riba ter de sair de casa pela porta dos fundos já que a principal não abre mais. E enfrentar aquela barreira que faz escorregar que nem quiabo.
E pra onde se meteu a danada da vaca de três peitos chamada não sei o quê?
Já que desde a tarde de trasanteontem ela desapareceu no sarandi do vizinho arreliento de nome Nicanor. Pessoa de má índole que nem a veice mudou.
E com ela sumiram na braquiária a Eusébia e a Carolina. A segunda a melhor vaca do curral. Já que a primeira, pelo volume de leite dado nas duas ordenhas, já havia morrido desde o último carnaval.
E, neste momento exato, meu relógio de pulso marca exatamente seis e quarenta e sete. A ordenha já está em seus estertores finais. Ainda por riba uma delas chutou o balde cheio de leite branco embora a vaca Braúna seja preta qual urubu perneta.
Eles ainda têm de fazer queijo e, por azar maior, caiu um raio que os parta no transformador do poste principal. E a danação da falta de luz fez o leite de dois dias armazenados no tanque de expansão novinho comprado a prestação ainda não pagas azedou. Com o mesmo azedume de uma mulher sem banho de canequinha. Pois ainda por cima o tão precioso líquido usado tanto para se banhar como para beber e cozinhar veio a faltar.
Embora a chuvarada que despenca em todo lugar.
Aqui em Lavras não foge à regra.
E, por conta e culpa da barreira que tomou a estrada inteira o caminhão leiteiro não deu conta de ir lá embaixo onde fica o tanque de resfriar leite. E dono da pequena propriedade. Ajudado por seu filhotão sacudido. Que além de acumular a função de carpidor, tratorista e retireiro. Ainda por riba tem de levar os dez latões de leite lá no alto. Antes que o mal cresça e o prejuízo seja ainda maior. E, pasmem!
Faltou óleo diesel no tanque do trator e a única condução de subir com os dez latões é uma carroça mais veia que minha avó. E ela estava com os dois pneus furados. Fora o cavalo que a puxava, o veio Marreta escafedeu-se de vez pra sempre. Folgado como ele sempre foi. Desde que ele, eunuco, enrabichou-se por uma eguinha rabicó. Mas nunca deu conta de com ela fazer amor.
Agora, deixando as agruras das boas gentes de roça de lado. Na intenção de não cansar ainda mais os meus leitores e prováveis compradores de um ou dois de meus vinte e não sei quantos livros.
Vamos ao assunto que nos interessa. Remetam-se ao título desta crônica de agora cedo.
Tom Zé não é somente meu vizinho de pasto como da mesma maneiro o considero um verdadeiro amigo. Não destes amigos que apenas comparecem a uma boa churrascada. E tomem cerveja gelada!
É ele quem cuida com mãos caprichosas do meu roçado.
Graças a ele e a familia do arrendador das minhas terras. Meu Solar Paulo da Rosa mais parece um paraíso terreno. Quem o conhece não duvida.
Antes de ele se tornar meu caseiro ele tirava um leitinho. Um cadiquinho para fazer queijo.
E ainda por cima vendia ovos caipiras de galinhas soltas que falavam. Como ele. Tudo estrupiado. (o correto é estropiado).
Mas sucede que na semana que atravessamos deu de acontecer a tal quaresma.
Os católicos sabem, bem melhor do que eu, que é tempo de jejuar e evitar fazer churrascos.
Mas, meu amigo Tom Zé, nada entende de churrascos e menos ainda de temperar picanha pois. Na última vez que ele tentou a carne passou o sal. E tivemos de jogar as tais picanhas, maminhas de alcatra, e costelas de boi cujos preços nada eram aqueles que o nosso atual presidente afirmou que qualquer um poderia comprar. A preços de banana nanica. Já que a prata está pela hora da morte.
Meus dois cãezinhos, Clo e Robson, que vivem desde recém nascidos naquele paraíso foram eles que se deram bem. E nem reclamaram daquelas carnes de primeira mal temperadas pelo Tom Zé.
Mas, não sei explicar as razões, nem o porquê dos porqueres de na quaresma as galinhas não botam. Pelo menos reduzem a postura. Talvez esse fato não ocorra com as de granja. As quais vivem como presos enjaulados em cadeias onde apenas se vê o sol nos lugares onde o sol entra por entre grades lá no alto.
E, ainda hoje, ainda bem que o esforçado e bem falante Tom Zé se tornou meu caseiro, apesar do seu fracasso em vender ovos caipiras.
Ele só não foi à bancarrota. Por causa da culpa das suas galinhas que vivem soltas.
Por minha culpa de considerá-lo muito.
Graças a ele o meu Solar Paulo da Rosa ainda é o lugar mais lindo da face da terra.