O poder miraculoso das palavras

Sempre, desde quando aprendi a soletrar o baba, com as letras sempre me dei bem.
Números éramos inimigos figadais. Não tanto de mal ficávamos quando, naquela aula chata de aritmética, assentava-me a última carteira para que a minha professorinha não me visse distraidozinho, ou melhor, atento aos olhos daquela lourinha linda meninazinha, de nome Lucinha. Em muito parecidinha a hoje cantora Lucinha Lins. E no momento inexato quando ela, distraída cruzava suas lindas perninhas grossinhas na intenção de abaixar-se para apanhar um lápis de cor, era eu quem o pegava, não sem antes dar uma olhada não intencional para ver de que cor era sua calcinha. E acreditem se quiserem. Naquela infausta manhã, quando percebi que Lucinha não usava calcinha caí de costas sobre a tal professorinha que estava ao meu lado a ver o que eu moleque fazia durante seus ensinamentos na tal matéria onde números faziam fila e judiavam da minha cabecinha cheinha de letras maiúsculas e menorzinhas.
Tempos cheios de contratempos, uns de difícil ou fácil solução, me faziam ou não soluçar de saudade da linda Lucinha.
Até chegarmos aonde cheguei.
Retrocedendo alguns anos menos, no dia exato quando meu pai deixou-nos órfãos de sua pessoa magnífica. Todos que tiveram o prazer de conhecê-lo, ou naquela casa bancária que tem o mesmo nome de nosso país, onde ele se aposentou como gerente e ao mesmo tempo graduou-se advogado numa cidade que não é essa onde moro. Como tenho alguma parecença com meu pai Paulo Jose de Abreu, Rodarte vem de minha mãe. Quando alguma pessoa de mais idade cruza comigo nas minhas andanças lentas ou apressadas pelas ruas de minha Lavras amada. Tenho de parar um cadinho ao lado dessa gentil pessoa e ela costuma dizer: “doutor Paulo, bem me lembro do seu pai, vocês se parecem não somente pela calva e também pelo seus andares ligeiros, pelas suas posturas escorreitas e da mesma maneira pela lisura no trato tanto com os de menos posses quanto pela simplicidade com que tratam e não desacatam seus semelhantes. Seu pai pra mim e pros demais é um exemplo a ser seguido. Uma pessoa gentil, correta, idônea”.
Não tenho reposta a essa admoestação gentil e pra mim desprovida de mentira. Simplesmente agradeço e, num meneio de cabeça percebo, pela minha face gotas salinas saindo dos meus olhos até mais em baixo aguinha essa que se chama lágrimas.
Exatamente na noite que meu pai faleceu deixei escrita a primeira crônica de minha vida de nome REQUIÉM A UM PAI SEM LIMITES, palavras em maiúsculo sim como o nome do meu saudoso pai escrevo em letras grandes PAULO JOSÉ DE ABREU.
Depois desse dia, que se passou há vinte e seis anos antes, não parei de escrever mais.
Fazendo as contas, coisa que não sei fazer, estamos no ano de dois mil e vinte e seis, a data do passamento do meu pai foi no ano dois mil. Vinte e seis longos anos tendo escrito uma, duas ou mais crônicas ao dia. Nessa manhã escura de julho quase deixando agosto pôr os pés, perfazem creio se não diminuo ou aumento um cadinho, mais de vinte e seis mil textos nasceram desde aquele dia enlutado até a presente data.
Pra mim esse número superlativo deveria entrar no livro dos recordes, o que pensam vocês?
De volta as palavras, como as quero bem. Nunca desejei mal a elas. Ao revés, amo-as indistintamente do a ao z.
Se pudesse dormiria junto delas. Agasar-me-ia, nos dias frios tendo as palavras como cobertores. E no calor do verão não iria despir-me ou me despedir de qualquer palavra que fosse já que as tenho como escoras se por acaso tiver de me escorar no meu caminhar trôpego pelas estradas da vida.
Não fujo nem me escondo das palavras, sejam elas feias ou lindas como a relva molhada de uma madrugada ao chegar a minha rocinha depois de uma chuvica mansinha que não me impediu de ali chegar pelo simples fato de a estrada estar encharcada de lama e os pneus de minha caminhonete deslizarem morro acima e na minha rocinha não poder chegar.
Idolatro palavras tendo por elas admiração sem igual.
Elas nunca me fizeram mal, em contrapartida que bem maior elas me fazem a cada madrugada, quando aqui chego usando e abusando das palavras seja em crônicas ou no meu romance Ucrânia que está nesse dia com quase oitenta páginas noutro computador aqui a minha mão direita.
Tenho aqui dentro de mim, e nem preciso procurar muito, já que encontro palavras soltas ou presas no meu intimo a cada despertar de um novo dia. Tanto nas madrugadas ou noites insones que seja no mais tardar de uma tarde sombria ou ensolarada.
Não quero mal aqueles que não amam as palavras e a elas preferem os numerais.
Cada um vive como deseja.
Tem uns que amam o feio e deixam pra mim a beleza das palavras.
O que seria do amarelo se o vermelho não existisse? E da mesma maneira do roxo se os caixões não tivessem a cor arroxeada como sua predileta?
As palavras, cheias de letras, que fazem o colorido lindo dos parágrafos, têm pra mim o poder milagroso de colorir o cinzento de amarelo ouro.
Elas, tanto soltas como unidas são tão essenciais como o ar que adentra pelas minha narinas entupidas.
Se querem me matar, nalgum dia, é só me privarem de usar as palavras.
Sem elas emudeço e deixo de existir.
Se me impedirem de escrever, façam-me um grande favor. Me alijem de mim, joguem fora o que restar do meu corpo sem vida. Melhor ainda incinerem meus restos mortais.

Deixe uma resposta