O menino que queria sempre mais

Nem sempre, quando menino, espertinho, lourinho de cabelos encaracolados como os do meu netinho Theo.
Quando queria alguma coisa, que fossem em duas datas especiais, meu aniversário em sete de dezembro e as vésperas do Natal.
Escrevi uma cartinha ao Papai Noel, no qual cria de verdade naquela tenra idade, suplicando-lhe em letrinhas bem grandinhas para que ele entendesse meu recadinho, desse jeitinho doce: “meu querido Bom Velhinho, tenho sido um garotinho bem bonzinho. Não tirei nenhuma nota inferior a oito. Se duvidar olha meu boletim da escola. Nele o senhor pode comprovar minha historinha e ver que ela não é mais uma invencionice minha. Ainda não me tornei médico nem ainda escritor como desejo ser na maior idade. Aquele senhor andarilho, que roda a cidade todinha com uma bolsa dependurada no pescoço curto e grosso sempre com dois livros de sua autoria na intenção de vendê-los a preços camaradas. Cujo nome dele é doutor Paulo Rodarte faltando o Expedito e o Abreu ao seu final. Uma coisinha só lhe peço, de joelhos se preciso for. Não me presenteie com um só presente. Já que minha data natalícia fica bem perto do Natal. Bem sei que meu paizinho não vai negar a me dar de presente aqueles lindos livros infantis pois já sei ler muito bem. Bem que o senhor papai de muitas crianças, que nem suas de verdade. Também não vai negar a me trazer no seu saco grande aquela patinete elétrica que vi numa loja aqui pertinho. Ao vê-la com meus olhinhos fiquei apaixonado por aquele veículo que não gasta gasolina e é só ligá-la à tomada que sua bateria logo recarrega”.
Nem sempre o amável e caridoso senhorzinho de barbas branquinhas e em sobrepeso atendia aos meus pedidos.
Quando elezinho não trazia aqueles livrinhos infantis lindamente encadernados na sua capa ilustrada com flores do campo e um lindo cavalo pampa igualzinho a minha égua de nome Felicidade atribuía a falta daquele mimo a uma hipótese que me assediava. Quem sabe esse Papai Noel de verdade, bem obeso, não havia ficado entalado na chaminé da minha casa que nem tem chaminé? Esse meu pensamento me consolava e partia minha decepção ao meio.
Agora, bem cedo, a hora que meu relógio mostra é cinco e trinta e dois desse vinte e nove de julho quase findo.
Veio à lembrança desse veio o menino Joãozinho.
Bom menino, bom que se diga antes que outros digam o contrário.
Joãozinho não nasceu aqui e sim ali.
Nascer não é bem o caso, foi expulso do útero de sua mãe sem poder dizer não ao seu nascimento.
Chorão, reclamão, birrento ele sempre foi e piorou tempos depois.
Cresceu pouquinho e ficou do tamainho de um tamanquinho cujo salto era mais baixo que um anãozinho de circo desses bem naniquinhos. Que nem metroemucado media.
Esse menino não se contentava com o que lhe davam e sempre queria mais.
Pidão, mandão, enjoado, mal amado eram suas marcas conhecidas desde que o conheci.
Ele fazia questão de não mudar, nem de casa, nem da rua, nem deixou endereço quando saiu da cidade onde morava.
Aos cinco anos, garotinho inteligente, na escola era como eu só tirando notas altas. A sua predileta era de duzentos reais. Não menos nem mais.
Aos dez o sonho de Joãozinho não era ser médico, como eu e outros mais, nem pedreiro, pois tinha pavor de pedras e alergia a fazer masseiras de cimento ainda por cima quando o servente colocava cal na massa.
O sonho do jovem João, ele já tinha deixado o Zinho anos atrás.
Era ser escritor não doutor.
Até que sua letrinha não era tão ruim como a minha.
Bem pior que a dos médicos que quando fazem uma receita nem um farmacêutico experiente consegue decifrar.
Aos vinte e tantos o não mais garoto João, tido como CDF ( c u de ferro como chamam estudantes estudiosos na escola).
Enfim, como eu escritor não reconhecido nem bom vendedor de livros, João tido por todos que o conheciam como um dicionário ambulante, ele queria mais e mais.
Ontem nos encontramos, eu ele na mesma praça, no mesmo banco, no mesmo jardim sem flores.
Era tempo de inverno com dias quentes e não frios ao exagero.
Era uma tarde sombria e nos assentamos à sombra da velha Tipuana.
Nem precisava ficar à sombra da velha árvore, pois não havia sol.
Mas como João era teimoso e eu também decidimos, em descomunal acórdão, permanecermos à sombra ensombrada que nem assombrações que não éramos ( a sombra tem acento ou não?).
Nossa prosa foi bem curta como nosso pavio da mesma maneira é bem curtinho e grossinho.
Fui eu quem puxou a conversa boba e mais tola que burro sem chifre.
“Joãozinho, agora sei que você tirou o Zinho e ficou só no João. Sei ainda que já publicou seu primeiro livro, ele tem vendido bem ou está encalhado como os meus? Sei ainda que na escola, que graças ao bom Deus não é a minha, você sempre queria mais e era chamado de dicionário pelos seus coleguinhas. E era um c u de ferro danado. Você ainda é assim ou assado”?
João escritor, fracassado, como eu, me olhou mal humorado e me respondeu com um caminhão de pedras na mão: “ah! Quer mesmo saber? Tô nem aí pro cê. Se meu livro de número um não caiu nas graças dos leitores a desgraça é somente minha. Deveras era chamado na escola de Joãozinho Dicionário. Mas, como sempre quis mais, quero ser chamado de doutor escritor, não médico como você, e sim de João Best Seller Acelerado com sobre Enciclopédia, não apenas um dicionariozinho furreca como me chamavam dantes”.
Terminei a prosa ruim sem me despedir do João, ou Joãozinho como preferirem.

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