A escora do zé Peleja

Cada um de nós tem sua escora.
Pedreiros, à hora do descanso no intervalo sagrado do almoço, tiram um cochilo escorando-se alguns minutos apenas deitados num saco vazio de cimento sonhando um dia serem mestres de obra ou mesmo engenheiros.
Pintores de paredes, como meu amigo do peito de nome Clodoaldo, aquele bom pintor gente boa que tem sua agenda sempre lotada de serviço. De tempos pra cá passou a se escorar no ombro amigo de sua amada Amanda, que deveria se chamar Amélia, pois aquela sim é mulher de verdade.
Médicos plantonistas em serviço varando noites intermináveis em hospitais na intenção de aumentar um cadinho seu rendimento. À saída dos hospitais pulando a outros, quando têm tempo escoram em namoradas, não sendo casados; uma enfermeira aqui, uma nutricionista em outra lista, até parando, tempos depois numa mulher com quem sempre sonhou ter filhos e se casa. Alguns se arrependem e pensam na burrada que fizeram pensando seria bem melhor se tivessem comprado uma bicicleta e não engordariam tanto já que o pedal é bom exercício já que raras vezes vi um ciclista obeso.
Quem não conhece o Zé Peleja nunca foi pras bandas da minha rocinha.
Gente boa, até que se tenta fazer negocinho com ele.
Zé, apelidado por mim de Peleja, ele vive pelejando desde menino.
Nos seus primeiros cinco aninhos seu pai Toninho, lhe deu de presente não aquele carrinho de bombeiro vermelhinho conforme seu desejo.
Qual não lhe foi a decepção, ao ver debaixo daquela velha amoreira que fazia sombra em sua casinha, um presente meio estranho.
Era uma coisa igualzinha a uma enxada das grandonas. Dessas de fazer pessoa forçuda dar ré a hora de carpir o mato. Só o cabo de madeira dura e resistente à chuva e sereno das madrugadas, media quase uma légua de lonjura.
Quando Zezinho Pelejinha fez dez aninhos ganhou outro presente ainda mais resistente em forma de algo parecido a uma foice.
Foi-se o tempo de folgar na vidinha atribulada do tal Zezinho um mimo de sua mãezinha creio que já falecida.
Sempre tivemos uma relação mais que amistosa.
Não dividimos cercas nem pastagens. Ele na sua fazenda e eu na minha rocinha prejuizenta.
O tal Zé, de muito tutano e ruim de negócio, nunca consegui nele passar manta e ele sempre as passava em minha pessoa.
Zé Peleja não parava quieto. Ou montado numa motoca de rodas lisinhas, ou a cavalo que fosse uma égua, nos encontrávamos quase sempre.
Bem me lembro daquela vezinha quando eu, montado numa égua minha, bem acompanhado do meu cão inteligente de nome Paulo Rosa, levando no meu alforje alguns livros de minha autoria, ao passar na sua fazenda tentei com ele fazer uma catira.
Propus ao amigo mourejador trocar um livro meu por um bezerro desmamado, não nele e sim da sua mãe vaca, e Zé Peleja não aceitou.
Fiz outra proposta de catirar um dos meus livros por uma vassoura que seu pai fazia. Mais uma vez Zé fez uma desfeita a mim e não aceitou o escambo.
Esporeei minha cavalgadura de volta a minha rocinha e não ficamos de mal.
Em tempos recentes mais uma vez dei com o Zé na porteira novinha na nova estrada que vai da estrada de Ijaci a minha linda casa beira represa do Funil.
Comigo estava outro amigo meu, meu alegre caseiro Tom Zé palrador.
Foram os dois que deram um jeitinho na capotinha da minha caminhonete branquinha sujinha de poeira, pois a tal capota não fechava direito.
Estava, como de costume com meu livro novo o Canto das Cigarras dentro dessa bolsa manjada que sempre vai comigo nas minhas andanças pela cidade.
E num é que esse livro foi dado de presente ao Zé Peleja, com uma dedicatória assinada por mim sem que ele fizesse qualquer tipo de pago?
E como esse Zé que não abre as mãos nem para dar bom dia gosta e muito dos meus escritos?
Admiro e não escondo minha admiração por esses tantos Zés que levam as nossas mesas a comida que comemos. Que colecionam calos nas mãos quando nós, da cidade colecionamos carrões, mansões, iates de preços abusivos e outras cosinhas carinhas mais.
Isturdia vi Zé Peleja fazendo de sua enxada a sua escora numa mão.
Noutra a sua enorme foice de um tamanhão maior que minha caminhonete parada na minha estrada.
Enquanto a gente folgada da cidade escora tirando um cochilo depois de um lauto almoço numa mesa farta a gente da roça farta só tem o nome.
Nas mesinhas de gente das rocinhas, como a minha, quando da tempo, falta quase tudo.
E graças a esse tudo que pessoas que moram, sendo nascidas ou apenas crescidas em zonas rurais nós, urbanos que moramos na comodidade de ruas asfaltadas, temos o que comer e bebemos do bom e do melhor.
Ah! Não fossem os Zezinhos Pelejinhas da vida…
Estaríamos condenados a não termos encosto e submetidos apenas à dietas asfálticas.

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