Dizem, com muita propriedade, que o coração tem razões que a própria razão desconhece.
Pra mim essa tal de razão deveria estar coberta desse mesmo nome de começo em r e terminado em o.
Desde que o desde era apenas menino, de calças curtas e ideias alongadas.
Euzinho, pensando ter razão me metia numa briga com um garotinho morador daquela rua que um dia foi minha.
Ele, embora fosse menorzinho que eu, uns aninhos antes do meu aniversário que inda é sete de dezembro. Não escondo idade já que na minha carteira de identidade mostra exatos setenta e mais seis.
Naquela briga ruim, da qual não tenho nenhuma saudade, pensando que a razão me acompanhava. No entanto ela ia a frente e eu léguas atrás. Acabei levando uma tunda que não apenas deixou marcas no meu olho roxo como também no meu traseiro roliço quando cheguei a casa levei boas chineladas de meu paizinho que me esperava agitado detrás da porta me cobrando o litro de leite que deveria ter trazido da leiteria e eu, menino moleque, ao sair da casa onde vendem leite parei um cadinho na esquina onde o tal garoto, meu inimigo antigo, esse que me bateu sem razão, penso eu.
Não pairam nesse ar poluído de nossa cidade, nessa manhã de domingo que amanheceu manhoso, nevoento e um cadinho frio.
Que os costumes andam mudados. A moda mudou e não mais se usa mini saia e calça boca de sino, naqueles bons tempos quando eu usava spray de marca Elnet e bobs para que meus cabelos ficassem empinados num topete lindo, tipo aquele em que fui fotografado quando na formatura de meu curso de medicina. Cinquenta e um anos deixaram rastros de saudades.
Dantes, nos meus verdes anos, quando uma garotinha a mim lançava olhares sedutores, no rela do jardim. Numa volta quando nossos olhares se cruzavam e eu, sem pedir permissão tocava na mão dela e ela não se desgrudava da minha. Era só permitido mão na mão e não mão boba no traseiro dela senão…
Da-me coceira na moleira quando hoje, se a gente olha na rua uma mulher bonita e gostosa, e não passamos batido e mexemos com elazinha dizendo ser ela a mulher ideal para se deitar na cama não apenas para dormir e fazer alguma coisinha mais pecaminosa. Devemos nos preparar para o pior.
Temos de contratar a peso de ouro um bom defensor, não esse advogado do diabo que faz porta de cadeia a espera que o traficantezinho tenha grana suficiente para a ele pagar regiamente.
Seu Joaquinzinho, pessoinha tão bobinha de uma inocência quase infantil.
Assim que sua veia morreu. Ele diz, jura e desconjura pela bunda da tanajura que não foi ele quem a matou.
Nem fez um ano que vestiu luto aquele velhinho não mais novinho, não resistindo a uma mocinha não mais pudica e sim mais rodada que pneu de carreta carregada de minério vinda de longe, nos seus olhos passou a dona Tiana.
Foi amor ou tesão a primeira vista dolhos.
Nem ele soube dizer.
Como seu Joaquim era viúvo pensou dizer algumas palavras a ela, como essas que deixo escrito agora: “que mulher mais linda. Você é a mulher com quem sempre devaneei. A coisa mais linda que meus olhos já viram. Uma verdadeira flor, uma rosa sem espinhos. Permita-me chamá-la não de mala e sim frasqueira? Te acho tão bela quanto a Florisbela com a qual tive um caso, o maior dos meus casos até te conhecer. Vamos jantar comigo hoje de noite? Prometo que não terei a ousadia de te comer de sobremesa. Se for preciso jurar jurarei.”
Parece que essa Tiana mundana foi na conversa dele.
Até dois dias depois.
Já acordado, nem bem o despertador tilintou cinco da madrugada, seu Joaquim escutou alguém tocando a campainha da casa onde morava.
Como estava dormindo pelado, sem poder enfiar a mão no bolso do pijama, vestiu sua cueca samba canção e foi depressa atender a porta, não a porta e sim aquele que tocava a campainha.
Sabem quem o importunava àquela hora temprana?
Um parrudo oficial de justiça que lhe trazia uma intimação intimidante para comparecer à delegacia a frente do delegado em cinco minutos senão…
As acusações eram essas: importunação sexual, assédio, mesmo que ele não estivesse com sede de nada, atentado ao despudor pois, quando a campainha tocou ele estava pelado, corrupção de menores embora a tal Tiana já era bem balzaquiana, e outros tantos um sete uns da vida anotados no código penal.
Foi ontem que nos encontramos à porta da cadeia.
O velho Joaquim me pareceu cem anos mais envelhecido de quando o vi pela última vez.
O pobre desinfeliz pagou cadeia sem nenhum merecimento.
Apenas e tão somente por tentar conquistar a danada da dona Tiana com palavras doces no seu entendimento.
Não tenho dúvidas que os tempos andam mudados.
Chove quando não deveria já que a panha de café se da melhor com o sol a supino.
Faz frio aqui e no pólo norte os esquimós não sentem tanto.
Levei meu amigo Joaquim a um botequim para tomarmos uma cachacinha e uns tira gostinhos.
Lastimei sua punição indevida. A cadeia que ele curtiu tanto ou mais que a surra que levou da borduna do guarda.
E a tudo ele escutou, silencioso, tristonho.
E me confidenciou sigilosamente, referindo-se a mudança dos tempos: “num é que vosmecê tá coberto de razão”?