O pardinho que não queria amarelar

Pra quem não está muito afeito aos passarinhos; pardinho é aquele canarinho da terra antes de suas penas de meio esverdeadas se tornarem amarelinhas.

E como cantam bem os tais canarinhos já mais crescidinhos e de cor amarela.

Dizem, ao que não sei dizer se sim ou se não. Que apenas os machos trinam.

Mas, o que seria da gente sem elas…

Homem sem mulher na face de qualquer planeta não sobreviveria. E mulher sem o oposto certamente elas se dariam muito melhor que a gente.

Mas, no caso dos canarinhos ou outros da mesma espécie. Ou de qualquer outra. Sejamos vivíparos ou mamíferos. Sem as tais fêmeas. Sem o apetitoso acasalamento.

O único ser que copula sem intenção de fecundar somos nós. Homem não carece que mulher exale de seu órgão sexual um cheiro próprio que as narinas dos animais percebem à distância. E neste interregno ocorre a cópula. Nome feio que deveria ser fazer amor. Ou outro nome mais romântico.

E pássaros sem ovos nos ninhos não nascem os filhotinhos. E que coisa mais linda que ver. Num galho de qualquer árvore ou arbusto. Uma mãe ou pai passarinho trazer de longe uma minhoquinha ainda viva a dar de comer nos bicos de seus filhos novinhos ainda desemplumados.

Mas, aquele pardinho que no dia de hoje vi catando bichinhos no gramado de minha casa na roça fez-me achegar-me a ele. Pé ante pé. Com receio de assustá-lo. Já que ele estava quase percebendo a minha aproximação cautelosa.

Vi que elezinho agia diferente dos demais de sua raça.

Ele não se assustou com a minha chegada em passadas lentas.

Estava me banhando nas águas límpidas e azuis de minha piscina. Na proximidade onde recebia amigos no salão onde deveria acontecer uma bela churrascada. Que não deu em nada, pois, tanto eu como minha esposa nem sequer sabíamos acender o carvão. Quanto mais temperar e assar as carnes de primeira que levamos de aqui de Lavras.

Mas, o tal pardinho, ao me aproximar, como disse e repito, sem afogadilho.

Acabou dizendo não tô nem aí pra sua intromissão.

E acabamos tendo uma animada prosa. Ou melhor conversação.

Deixei o banho de piscina para o mais tardar da tarde.

E voltei já tagarela para continuarmos o nosso colóquio.

Ele falava em trinados exageradamente. Eu já dizia a ele em meu português roceiro.

“Oi. O que tu faiz agora? Cata minhocas ou coça seus pioios?”

Já ele. Trinando ou cantando sem que entendesse patavinas do que ele piava.

Acabou por me piar: “uai (agora acabei por entender que ele era um pardinho mineirinho de Ijaci). Euzinho num tô nada sastisfeito com minha condição de ficá veinho. Ismagine voismecê quando eu crecê. E tivé de amarelá. Vai sê uma disgracera só. Eu num vô nem piá. Prifiro ficá do jeitin que tô. Meio verde sem amarelá de tudinho. Mió ainsim. Num acha? Ah! Se pur um acauso do descauso euzinho ficasse só pardinho? Qui bom. Num é? Oque voicê acha o desarracha? Quar a sua desopinião”?

Eu acabei calando o pio. Seria bem pior contrariá-lo.

Se esse pardinho não quer amarelar que mar que faiz?

(Acabei por começar a agredir a última flor do lácio inculta e bela. Me perdoem).

 

 

 

 

 

 

 

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