“Por favor! Não me chamem de falsa”.

Falsidade é aquela palavra de nove letras que, quando a nós atribuem esse grande defeito, e quando é de fato verdade a gente engole a seco.

Mas no momento em que a gente não tem o costume de nos passarmos por isso e a gente é exatamente o oposto esta palavra dói fundo nalma.  Como se um punhal fosse ensartado dentro de nosso peito com a profundidade exata de atingir-nos a profundidade de nosso órgão propulsor de nosso sangue que escorre a qualquer corte seja nas veias ou artérias. E como a tal falsidade machuca sem deixar marcas na pele e sim por dentro.

E, dependendo da enorme sensibilidade que me toca, quando me chamam de falso não tenho como controlar a emoção em forma de lágrimas que me escorrem pela face molhada não pela chuva que ora serenou. E sim pelo sentimento que sempre me leva ou a eriçar minha pele clara. Tudo isso devido a sentir demasiado. Tanto o garoto pobrinho que esmola num semáforo. Ou até mesmo uma mãe que tenta vender panos de prato como um dia percebi quando caminhava pelas ruas centrais de nossa cidade.

Quem ainda não conhece aquela arvorezinha de médio ou pequeno porte. Que ajuda tanto a embelezar praças e jardins. Que nasce sem querer. E cresce sem se queixar. De onde nascem florzinhas amarelas que em pouco tempo. Como acontece as suas irmãs maiores chamadas ipês. Despem-se de suas flores que caem ao chão ainda vivas e macias.

Na casa da minha querida e saudosa sogra. A dona Edmea existe, mesmo à sua ausência. Creio ter sido ela quem a plantou. Lançando boas semente a terra do seu jardim. Ou foi uma mudinha que falava amarelinho pela boca de suas flores.

Essa mesma arvorezinha de folhas verdes e flores amarelas. Que cientificamente recebe o nome de Tacoma stans. Ou popularmente conhecido por ipê mirim. Ipezinho de jardim. Falso ipê ou ipê tabajara. Nascido de uma familia conhecida pelos botânicos por Bigoniacea.

Tem sido cada vez mais comum seja em calçadas e praças. Embora não saiba se suas raízes são destruidoras de passeios como as sibipirunas. No entando creio que não.

Na minha rocinha amada minha esposa Rosemiriam plantou uma coleção delazinhas.

Dada a enorme quantidade dos falsos ipês acabei por perder a conta de quantas hoje seriam.

Mais de cinquenta árvores já quase adultas e outras tantas mais ainda em período de crescimento.

Grande parte delas já está derramando flores amarelas pelo chão sempre carpido para impedir que o mato entre e com seus caules compitam.

Já as demais ainda não floresceram. Quando as vejo apenas vestidas em um tronquinho esquálido e sua ramagem verde sonho com o belo dia de vê-las trajando flores amarelas como suas aparentadas logo a entrada do meu Solar Paulo da Rosa.

Ontem. Ou foi trasanteontem. Não conta o dia nem mesmo a hora do acontecido.

Ao passar caminhando pelas ruas da cidade. Como sempre faço. Pois pelas minhas pernas sempre andarilhas tenho o maior apego. Como não acontece pelos carros.

Vi, juro não ser falsidade ou Fake News (termo que virou moda pela internet).

Uma destas arvorezinhas. Umazinha só. Lindamente florida fincada num passeio. Espremida pelo concreto.

Não tive como não parar pertinho delazinha.

Admirei com todas as forças que baliam dentro do meu peito. Confesso estava cansado de tantas andanças. Creio, se minha descrença não soe equivocada. Que já havia caminhado mais de um par de quilômetros e minha boca sedenta pedia água.

Ao olhar aquele falso ipê tão lindamente vestido com uma vestimenta verde e amarela. Como se fosse uma bandeira brasileira hasteada a pau mais alto.

Acabei por trocar meia dúzia de palavras com elazinha.

“Minha linda arvorezinha. Desde quando estás florida? Não vejo outra igual a você. Seria tu filha única? Ou terias, por acaso, mais uma penca de irmãs nascidas da mesma mãe Tacoma stans? Não se sentes triste ao viver por aqui tão sozinha? Não seria melhor ser transmudada para um jardim? Que tal morar na praça principal de nossa amada Lavras. Lá sim sentir-se-ia entre todas a mais bela. Como a tal Florisbela. Admiro-a não apenas pelas suas lindas flores. Só deploro que. A exemplo das flores dos ipês as suas tenham vida tão curta. Que caem ao solo ainda vivas. Esplendorosamente de uma amarelice escandalosa”.

A arvorezinha, acreditem, respondeu ao meu interrogatório com a seguinte resposta: “não. Aqui, neste passeio isolado. De tanto movimento de trânsito. Em absoluto não me sinto só. Tenho, como você, as pessoas que me admiram. Os pássaros que pousam em meus galhos. As abelhas que comparecem em bandos a procura do néctar das minhas lindas flores amarelas. Bem que gostaria de morar em sua casa na roça. Mas, com a idade que já me cavalga às costas creio não ser possível ser replantada nesta hora. Creio que minha transferência não vingue. E eu morra ao ser desenterrada de aqui. Só uma tristeza me consome. Quando me chamam de falso ipê quero morrer pelas minhas raízes já quase sem onde enraizarem-se mais. Já que fui plantada por um jardineiro pouco entendedor de árvores como eu me sinto. Jamais tive falsidade como defeito. Nasci pura e verdadeira de uma mudinha nascida de uma semente espalhada por um passarinho avoante. Por favor eu lhe suplico. Ou até mesmo imploro de tronco e galhos dobrados ao piso duro deste passeio. Nunca me chamem de falso ipê. Sou simplesmente um ipezinho pequenininho que não cresci. Mas minhas lindas flores amarelas são um atestado mesmo que fugaz do quando amo estar aqui e não na sua rocinha encantada nas bandas de Ijaci”.

 

 

 

 

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