Amar a si próprio é o melhor conselho que emerge da minha clarividência desde quando penso ter chegado à idade dita da sabedoria.
E o que significa ser sábio? Esta palavrinha de muitas identidades pode ser confundida a capacidade de aprender palavras e numerais. Ou até mesmo rimar com inteligência ou cultura.
Não aquela terra boa onde se plantando tudo nasce. E a outra cultura que no pai dos burros consta uma enorme lista. Embora considere o dicionário um livro inteligentíssimo. Por nele estão grafadas palavras muitas delas que desconheço. Embora seja conhecedor de muitos vernáculos e verbetes.
Na tenrice dos meus menos de dezoito tinha, no curso secundário, um professor de história. Um emérito juiz. De nome doutor Almir de Paula Lima, cujo julgador dotado de uma altura o dobro da minha estatura, que era chamado de Enciclopédia Ambulante. Epíteto este devido a um amontoado de palavras que este grande home conhecia. Tanto na área jurídica como em nosso vernáculo usual. Já que na minha estulta opinião não existe nenhum idioma tão rico e ao mesmo tempo tão carente e mal tratado.
Já que de regra alguns brasileiros tratam e a descrevam com tal ineficiência e senões que o poeta Luís de Camões, autor de os Lusíadas deve estar se retorcendo no seu jazigo perpétuo em algum lugar da bela Portugal. E pobre e infeliz da última flor do Lácio inculta e ainda bela. Pobrezinha delazinha. Soneto de autoria de Olavo Bilac. De nome “Língua portuguesa”, referindo-se ao idioma Português como a última língua derivada do Latim Vulgar falado no Lácio, uma região italiana.
“Última flor do Lácio, inculta e bela. És, a um tempo, esplendor e sepultura. Ouro nativo, que na ganga impura. A bruta mina entre os cascalhos vela…
Amo-te assim, descoberta e obscura. Tuba de alto clangor, lira singela.
Que tens o trom e o silvo da procela. E o arroio da saudade e da ternura!
Amo o teu viço agreste de o teu aroma. De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te ó rude e doloroso idioma. Em que da voz materna ouvi: “meu filho”!
E em que Camões chorou, no exílio amargo. O gênio sem ventura e o amor sem brilho”!
Amar a si memo é sinal de alta auto estima. Significa se olhar no espelho a ele perguntar: “espelho, espelho meu. Existe alguém mais belo do que eu?”
E mesmo que aquela superfície alcagueta responda com seu indefectível mau humor: “quer mesmo saber? Olhe bem para a sua carantonha cheia de defeitos e seus olhos baços que mal enxergam uma reles borboleta feiosa como uma bruxa desprovida de sua vassoura. Preste atenção sem seus pés de galinha que lhes conferem debaixo dos seus olhos um aspecto doentio de bolsas enormes cujas capacidades são suficientes para guardar malas e malas de roupas sujas ou limpas como fraldas descartáveis como as dos bebês chorões.
Auto estima é como se olhar nas águas límpidas de uma mina e dela tirar de um só gole para aplacar a sequidão que de sua boca pede água fresca e pura.
Pra mim não se amar mais dá no mesmo que sua hora está prestes a chegar. E não tenha a falsa coragem dos acovardados para se dependurar numa corda balouçante e ver. Melhor não enxergar. Seu pobre pescoço ser deslocado num puxão forçado. E sua pobre coluna cervical sofrer uma fratura e nada mais sentir senão a mão gélida da morte a você intimar que vá de encontro aos seus aparentados mortos em distintas ocasiões antes de ti. Arremedo de gente as quais se nomeiam depressivas. E ficam eternamente dependentes de fármacos de pouca valia para atenuar a sua baixa estima.
Se pensar em morte espere a hora exata e não tente antecipá-la pondo fim ao seu mais precioso bem que se chama vida.
Não se vive duas vezes. Se, em outra encarnação esse milagre acontecer por favor me anunciem antes que eu parta. Não esperem que eu volte da outra vida, se é que ela exista, que eu retorne e lhes acorde e puxe os seus pés durante o sono. Não tenho ganas de assombrar nenhures vestido de mula sem cabeça ou de um velho vampiro dentuço.
Tenho em auto estima a minha própria. Ao me olhar no espelho simplesmente não vejo o mais de setentão que se apoderou de mim. Percebo sim, naquele alcagueta que reflete a minha carantonha. Que me olha com olhares de escárnio ou de troça. Um jovem meninozinho empinando a sua pipa. Estilingando as rolinhas peitudinhas. Ou cricando as bolinhas de gude junto a amigos caros que já perdi.
E, caso, por um acaso de um descaso, euzinho, acontecer de perder a minha auto estima por favor me ajudem a elevá-la da altura de um balão que sobe as nuvens e atinge os céus.
Onde, decerto irei rever novamente meus queridos pais e amigos. E, lá, bem no alto, celebraremos uma grande efeméride em honra e glória a mesma auto estima que espero não perdê-la tão prematuramente.
Eu, por tudo de ruim que vier me acontecer. Espero não deixar de amar jamais…