Ele nasceu com os pés na lama e a ela voltou

Dizem ser o homem produto do meio.

Quando os arrabaldes cheiram bem tudo, no decorrer de nossa existência, marcha no sentido certo.

Mas torna-se difícil, quase impossível identificar, à luz do dia ou ao enegrecer das noites escuras qual o lado certo ou o seu oposto dito errado.

Pra mim quase uma missão impossível.

Já escrevi sermos nós, seres pensantes, produtos de onde nascemos ou aprendemos, com bons e maus exemplos, onde nos postarmos, ou nos entrincheiramos neste ou naqueloutro lado.

Se na posição mais fácil de nos livrarmos das balas desferidas em nossas trincheiras tidas como seguras. Ou na linha de frente onde os inimigos procuram acertar nossos umbigos expostos no calor da disputa.

E, com um dos pés afundados na lama daquela encosta que acabou de desabar ceifando vidas simplesinhas. Que por não terem condições de morar onde o mar seduz a areia. Acabam construindo, com as próprias mãos, com a ajuda de voluntários amigos vizinhos, casebres dependurados nos morros em áreas de risco iminente de lá do alto da serra ainda verde ver rolarem pedras gigantes que com certeza irão soterrar aqueles casebres feitos com restos de materiais de construção. Deixando a Deus dará antes de serem jogados a um lixão próximo em lugar aonde não deveriam ser deixados, já que o destino do lixo deveria ser aterros sanitários distantes das grandes cidades. Não onde urubus e gente miserável procura, no caso dos urubus carnes pútridas pra se banquetearem. E mães desesperadas e famintas, com suas crias às costas naquele amontoado de lixo catam latinhas e outros itens ainda com serventia, para tirar deles seu sustento no dia após dia amanhecer.

E, naquele lugar insalubre, onde a fedentina fecha as nossas narinas usando chumaços de algodão feito em bolinhas são usados como tampões. E nem eles próprios dão conta de tapar ou atenuar o mau odor que entra pelas nossas narinas já sofredoras de rinites e desvios de septo. E, por falta de atendimento em tempo hábil junto ao SUS, essas pobres pessoas que convivem alegres ou tristemente em favelas onde o esgoto escorre a céu aberto entre as incontáveis vielas como um dia vi. Durante uma visita rápida à favela da Rocinha. Onde vivem em barracos em cujas lajes se fazem churrascos sob o som maravilhoso de pagodes musicados ao vivo e a cores com sambistas que no carnaval desfilam no sambódromo ao lado de passistas que nasceram com o samba nos pés. E, durante o ano inteiro passam meses e dias intermináveis confeccionando suas fantasias como aquelas. Dos meus saudosos carnavais quando usava aquela mesma máscara negra e cantava e dançava estas lindas estrofes: “aquela mesma máscara negra não me leve a mal pois se irei beijar-te agora não me dê um bofetão pois hoje é carnaval. E, por favor, se por um acaso do descaso ele vier a se apartar da bela Colombina não permita nunca que ela deixe o pobre e infeliz Pierrô se apaixonar por mais ninguém. Pois tenho eu a intenção verdadeira de com ela contrair núpcias ao som das Bachianas ou outra música da mesma classe de um Chopin.

E foi, naquela velha encosta em área de risco que nasceu. Viveu e conviveu entre amigos e verdade e outros falsos como uma onça pintada. O nosso muso inspirador do texto de hoje cedo, quase finado fevereiro, prestes a iniciar o mês de março. Onde dizem que o ano em verdade começa. Já que o carnaval sambou na avenida e alguns foliões ainda sonham com os Pierrôs e Colombinas em trajes sumários quase nuas. Tendo a encobrir-lhe o decoro apenas minúsculos tapas sexos. Que não mostram o essencial, mas sugerem o tal.

Aquele moleque safadinho. O mesmo que se aproveitava durante os carnavais para afanar correntinhas de ouro falso e celulares dos bolsos de trás das bermudinhas feitas com milímetros de tecidos que sobravam das calças jeans.

Um destes moleques atrevidos, egressos de uma casa de recuperação que nem sempre dava certo, já que esses garotos do mal nasciam com a triste sina de se tornarem bandidos de verdade. Era um bate volta da cadeia onde permaneciam por serem menores infratores. E, em nosso infeliz e mal dirigido país menores de idade são inimputáveis perante as falhas leis escritas pelos juízes e legisladores. Eles não esquentam cana. E saem antes da queda intempestiva da florada dos ipês amarelos, brancos ou roxos.

É sobre este mesmo garoto, que como eu amava os Beatles e os Roling Stones. Que recebeu, depois de ser ungido na pia batismal de Zezinho Fulano de Tal. Um garoto que já aos dez anos afanava carteiras recheadas de notas altas e miúdas. Como ele era e ainda o é. E, na prisão albergue levava pedras de crack aos outros coleguinhas de cela. E nem por isso tinham a sua pena diminuídas pois diziam ter bom comportamento. E nem por dizer que a Bíblia era seu livro deixado no criado mudo ele desconjurava falar com ele. Em verdade nunca lhe passou defronte aos olhos qualquer versículo do livro santo.

Mas essa mesma criança esperta e espertalhona. Que dava nó em cachoeira descia do morro alto.

Quiseram os anos que o jovem Zezinho enveredasse, sem saber nada de leis e muito menos sobre política. De vereador se tornou deputado disputado pelas bases do PT com pretensões de ser presidente de nossa amada nação brasileira.

E, uma vez eleito acabou por tirar os pezinhos da lama do desbarrancando onde nasceu e se criou.

E já no segundo mandato reeleito deputado federal.  Graças ao seu partido cujas cores predomina o vermelho.

Zezinho Fulano de Tal, que nem o tal era. Acabou, por falcatruas descobertas no desgoverno atual. Assim que se avizinhou a terceira disputa renhida de votos ao cargo anterior.

Desta vez não se reelegeu.

Antes morava num luxuoso e caríssimo apartamento de cobertura na Vieira Souto.

Agora, que perdeu a mamata em que vivia feliz com a grana alta depositada em paraísos fiscais nas Bahamas ou ilhas afins.

Foi intimado pelo juiz ajuizado a voltar ao seu barraco dependurado no morro agudo em áreas tidas de risco.

Quis o destino ingrato que aquele jovenzinho nascido e crescido com os dois pés atolados na lama a ela voltasse. Como um bumerangue retorna as mãos de quem o lançou.

 

 

 

 

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