Se não a tinha passei a tê-la maior ainda

Dúvidas, incertezas, questionamentos, indagações, perguntas, interrogações e outras milhares de sinonímias que tem essa palavra primeira que encabeça meu texto de hoje cedo.
Não restam dúvidas que elas existem e nos provocam questionamentos tantos e outros tantos que são. Tanto em nossa existência, que pode ser bem curtinha ou se alongar de aqui onde estou nesse momento e até lá em cima daquela serra alta que nessa madrugada não deixa ver devido à escuridão.
Incertezas pairam sobre mim desde quando novinho meninozinho.
Penso ser o mesmo molequinho artioso que, assentado à carteira de pés quebrados de tanto virar meu pescocinho curtinho e grosso. Naquela aula chata de aritmética, matéria que nunca me seduziu como as lindas pernas da minha coleguinha de perninhas lisinhas e de pelos alourados de tanto ficar ao sol tingindo seus pelinhos antes escuros com água oxigenada. Costume até hoje copiado pelas moçoilas casadoiras que se tostam ao sol numa praia qualquer.
Quando eu virava meu pescoço curto e não menos grosso como o tenho agora na intenção pecaminosa de olhar se aquela linda menina não tão pudica usava ou não calcinha por baixo de sua minissaia rosa choque; aquela mesma carteira feita de madeira de má qualidade entortava seus pezinhos e acabava me dando choque não devido à eletricidade estática que o chão de piso duro de ardósia soltava faíscas. E sim um leve choquinho que apenas eriçava meus louros cabelos pondo-os de pé mais altos que os tenho hoje.
Assaltavam-me incontáveis indefinições sem saber a razão de a terra ser redonda e não quadrada. Fazendo meus milhares de neurônios meio zonzos baterem cabeça uns nos outros perguntando a mim mesmo se, um dia a gente fosse andando ao final desse nosso mundo, já que a terra dizem ser redonda, uma vez chegado ao final, a gente iria cair onde? Sendo a terra quadrada não iríamos tão longe, já que redonda ela é. No caso se ela fosse quadrada, quadrado sendo eu, ao final do quadrado eu não iria andar a esmo sempre como ando, que nem notícia das piores. Ficaria paradinho no meio do caminho, chutando pedras que se interponham na minha estrada (confuso não)?
Voltando sem me revoltar ao tema que escolhi hoje, vinte e três de julho, nessa quinta feira que antecede a sexta. Se não a tinha passei a tê-la maior ainda. Meu tema é fé, minha inabalável crença em uma entidade superior, que não se deixa ver, mas aos meus olhos e dos que acreditam existe.
Nas inacreditáveis correlanças que eu fazia, judiando dos meus pobres pezinhos pelas estradas asfaltentas ou de terra batida. Percorrendo distâncias imensuráveis, coisas que só carros rodam e acabam furando os pneus.
Via Deus nas árvores frondosas ou secas desgalhadas sofredoras, como os ipês sejam amarelos que estão por vir, roxos que já se despiram das flores, e brancos que se desfolham mais tardiamente.
Corria em trote lento sentindo o vento, com suas mãos macias arrancarem meu bonezinho branco e atirá-lo ao chão poeirento se a estrada era de terra empoeirada.
Vislumbrava aquela entidade em forma de santos que se vêem nas igrejas sob o formato daquela relva macia onde vacas pastejam.
Percebia a presença de Deus no orvalho das madrugadas frias ou até mesmo na camada de gelo fino quase neve branca.
Via ELE tanto na escuridão ou no clarume dos dias e não sei se ele, Deus, me via.
Sentia sua augusta presença a me dizer aqui dentro: “doutor Paulo, não corra tanto, o senhor não mais tem idade para exigir do seu corpo insano tanto esforço físico. Pare um cadinho, respire a brisa fresca das madrugadas. Olha pro alto e veja se Eu estou correndo ao seu lado para lhe proteger”.
Eu corria mais depressa, as endorfinas mugiam fortes dentro do meu corpo frágil e só parava mais tarde quando no destino final.
Mais adiante esporeava minhas pernas possantes, com minhas panturrilhas bufando obesas mal tendo tempo para um descanso.
E quanto mais eu corria mais me sentia descansado. Sentia e não me ressentia tanto, pois tinha Deus correndo a minha frente, mostrando-me o caminho indiferente aos perigos que me rodeavam.
Bem antes do meu destino final, que bem poderia ser Ribeirão Vermelho, a represa de Camargos, ou até mesmo minha rocinha na zona rural de Ijaci, antes da chegada Deus já estava lá, tentando me consolar e me aliviar do meu cansaço extremo.
Tantas vezes o vi pelo caminho nas minhas carreiras insanas. Não apenas a me indicar a direção e servindo de bengala, uma santa escora forte o bastante para que eu não me perca e volte inteiro de onde vim.
Nunca, em criança mais ainda, deixei de ter fé numa pessoa especial que não se deixa admirar, no entanto quando o vejo com meus olhos que enxergam além do que outros vêem. Sinto uma enorme admiração por ELE DEUS.
Não apenas nas estradas vicinais ou noutras cobertas de asfalto negro ou mesmo encardido, percebo-lhe a presença divina em qualquer local. Que seja sob a forma de santos espalhados em imagens nas igrejas, que sejam em quaisqueres templos de oração, aqui ou de além mar.
Nessa hora temprana, quando aqui chego a minha oficina de trabalho, onde apareço bem cedinho em plena madrugada dantes mesmo do despertar do sol e o dormir da lua.
Vejo ELE dentro do meu aquário tentando em vão ressuscitar aquele pobre peixinho morto a boiar na superfície do meu aquário.
Se me perguntarem se Deus existe, mesmo que ELE não se deixa ver em pessoa.
A minha resposta é sempre a mesma acompanhada por uma dose generosa de fé.
Se dantes não tinha fé agora a tenho maior ainda…

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