Quero ser criança de novo

Tudo teve começo ontem na academia.
Finalizava minha longa jornada na correria na esteira desse meu querido clube de nome abreviado LTC. Meu relógio acusava perto de cinco da tarde quando dois meninos que me pareceram ser irmãos entraram porta adentro um deles vestindo sumariamente uma cuequinha que bem podia ser uma sunguinha azul escura. O segundo, mais velhinho, não tanto como euzinho, num short azul marinho e seu peito nu.
Parece que ambos procuravam a mãe. O simpático instrutor professor amigo meu, Felipe da dona dele de nome Valquíria, uma risonha quase menina de Perdões, terra linda como linda era minha mãe. Não viu a duplinha espevitada entrar.
E não é que os molequinhos voltaram? Duas ou mais vezes.
Que coisa boa é ser criança, doces lembranças da minha que se foi há tantos anos que nem me lembro mais.
Nos meus perdidos anos e não mais encontrados. Eu, menino, de cabelos tintos da corzinha exatinha dos canarinhos da terra antes de ciscarem o esterco do curral pois, depois de molhados e sujinhos suas cores mudam. Como eu mudei tanto de ontem pra agora.
Felizmente antão não havia inventado os celulares que se transformaram em tablets . Isso que mudou radicalmente a vida dos meninos de hoje. Que, quando nós, seus infelizes avós chegam de repente as suas casas eles mal nos dão atenção e ficam de olhihos grudados nesses aparelhinhos e nem dizem a gente: “a sua benção avozinho querido!”
Não fosse a oportuna intervenção de sua mãe, minha amada filha Bárbara, não sei o que seria deles e de nós, seus avós.
Mas a vida escorre assim mesmo.
Nós, velhos, decrépitos anciãos, devemos acompanhar a modernidade e não tentar mudar seu curso fazendo discursos ocos que não serão ouvidos pelas novas gerações.
Velhos caminham devagar com nosso andar titubeante, trôpego, cuidado para não tropeçarmos, senão podermos quebrar nossa bacia e ficarmos condenados a não mais andar.
Crianças são serelepes, criaturinhas desprovidas de maldades. Se falam mentirinhas não é por mal. Somente casualidade.
Já velhos, somos nós, ao final de nossos dias, uns mais velhos outros mais prematuramente se despedem da vida e não pensam voltar. E nem se revoltam por isso…
Não é como aquele até breve, como quando me despedia da minha pequena jornalista. Agora não mais filha e sim mãe dos meus dois netinhos Theo e Dom. Ela ia ao Rio de Janeiro, linda cidade como minha Bárbara continua tão linda como a cidade maravilhosa.
Eu e minha esposa despedíamos dela naquele busão que eu chamava ladrão de meninas. Já que aquela despedida não era como aquela quando a gente parte rumo a um destino ignorado. Já que quando mortos não sabemos pra onde iremos, se voltaremos nalgum dia ou se iremos desaparecer para sempre.
Velhos geralmente não escutam bem.
Melhor assim e não assado…
Pra que dar ouvidos, se eles estão moucos, cheios de cera, a escutarmos as podriqueiras que são ditas intempestivamente pelas ruas onde pessoas pouco eruditas discutem assuntos que não nos dizem respeito?
Crianças sim são cheinhas de esperanças num mundo melhor.
Pena que, quem somos nós a deixarmos a elas esse mundo cada vez mais imundo, cheirando a latrina destampada já que sua tampa foi jogada fora de nosso alcance de deixar aos nossos descendentes coisa melhor que essa que pode ser vista e a nossa vista não agrada nada.
Velhos somos resmungões e não nos sentimos sabichões. Temos muito a lhes ensinar. Pena que os jovens recusam-se a ouvir-nos.
Já criancinhas novinhas envoltas em cueiros e fraldas, se escutam não nos respondem já que só pensam na mamadeira se fria ou quente demais.
Velhos, embora não me sinta assim, se me chamarem de tiozão gostoso prefiro e não suspiro de raiva ou rancoroso. Se porventura de uma desventura atravessam a rua pela faixa de pedestre cuidado para não saírem enfaixados com as duas pernas quebradas e engessados do pescoço ao dedão do pé esquerdo.
Em crianças as fraturas consolidam mais rapidamente e não passam tanto tempo no hospital como a gente idosos a suspirar pela beleza da bunda da enfermeira que cuida da gente indiferente ao que sentimos nós, por ela.
Eu queria tanto voltar a ser criança como aqueles dois que entraram ontem na academia fazendo estripulias aos nossos olhos envelhecidos meio ceguetas devido á cataratas que embaciam nossas meninas dos olhos que no nosso caso não mais são meninas e sim velhas como a minha antiga lambreta azul e branca a qual não tenho mais.
Queria tanto ser criança de novo.
Só com uma única condição.
Que elas não crescessem jamais.
Ficassem do tamainho exato de eu bebê chorão.

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